O Brasil enfrenta o fantasma do racionamento do consumo de eletricidade, devido à seca prolongada que retirou do sistema muitas das centrais hidroelétricas do país. O próprio governo já assumiu que o país “pode enfrentar problemas graves” no abastecimento de energia elétrica, se o nível de reserva nas barragens baixar para o patamar crítico de 10%. O aviso foi lançado pelo ministro das Minas e Energia, citado pelo jornal Valor. Eduardo Braga, deixou o alerta: “É óbvio que, se nós tivermos mais falta de água passamos do limite prudencial de 10% dos nossos reservatórios. Aí estamos num cenário que nunca foi previsto”. Uma central terá grandes dificuldades técnicas para operar a abaixo desse limite e a solução é parar de produzir.

Na última semana, a água em duas das barragens que abastecem o Estado do Rio de Janeiro atingiu o volume morto, patamar em que as centrais são desligadas, uma delas no principal reservatório. O governo do Estado de S. Paulo pediu já ao governo federal que avance com um plano de contingência que defina as áreas a ficar resguardadas em caso de falha ou corte preventivo de energia, designadamente os corredores da Avenida Paulista onde estão localizados vários hospitais. O risco de apagões é cada vez maior.

As autoridades ainda não discutem abertamente cenários de racionamento, mas há especialistas que apontam para o crescente risco de isso ter a acontecer, para evitar o pior. Mário Veiga, presidente da consultora PSR Energy, citado pelo jornal Valor, adianta que a probabilidade de racionamento é já superior a 50%. E quanto mais tarde se iniciar o controlo do consumo, maior é o risco de ter que recorrer a essa medida drástica. Para Mário Veiga, o governo brasileiro já deveria ter aplicado medidas de racionalização da energia no ano passado, mas confiou que ia chover, o que não aconteceu.

O sistema elétrico brasileiro foi planeado para resistir a três anos de seca, mas do ponto de vista deste especialista, o país não tem reservas suficientes para responder a aumentos de procura, sobretudo quando combinados com períodos de seca como o que se vive no país. Em 2014, o país registou o nono pior ano em termos de hidraulicidade, num ano que arrancou já com os níveis das barragens e reservatórios em baixa.

O secretário de Estado do Ambiente, André Correia, reconhece que o país vive a pior crise hídrica em 84 anos e pede a colaboração de todos no uso racional de água. O Brasil está a viver o segundo Verão de altas temperaturas e o Carnaval está a chegar.