O Gana e a Guiné Equatorial escolheram 11 jogadores cada um, encontraram-se num relvado, correram atrás de uma bola e, no final, os primeiros venceram. Três golos contra nenhum garantiram o salto da seleção ganesa até à final da Taça das Nações Africanas (CAN, na sigla inglesa). E pronto, de futebol houve isto e pouco mais, pois tudo o resto que aconteceu no Nuevo Estadio de Malabo, na Guiné Equatorial, parece não deixar que se escreve mais sobre ação com bola a rolar.

O recinto servia de palco para as meias-finais da competição. Os anfitriões e, já agora, também a surpresa da CAN, defrontavam na noite de quinta-feira os ganeses, os Black Stars (alcunha da equipa) que, no verão passado, calharam no mesmo grupo de Portugal no Mundial de 2014. O estádio estava quase cheio — cerca de 15 mil adeptos da Guiné Equatorial contra à volta de 500 ganeses, que tinham viajado até Malabo vindos de Accra, capital do Gana, através de voos fretados.

Ghana's national football team players leave the pitch protected by riot police at the half-time of the 2015 African Cup of Nations semi-final football match between Equatorial Guinea and Ghana in Malabo, on February 5, 2015. AFP PHOTO / ISSOUF SANOGO        (Photo credit should read ISSOUF SANOGO/AFP/Getty Images)

Estavam em minoria, era natural. Mas, até ao intervalo, as bancadas até se mantiveram tranquilas e a ação ficava reservada para o relvado. Aos 42’ houve um penálti que parou a bola e a deixou a jeito do pé direito de Jordan Ayew, que fez o 1-0. Os que perdiam em número festejavam nas bancadas. Pouco depois, aos 45’+1, era a vez de Mubarak Wakaso, avançado ganês, fazer o 2-0. Os festejos anteriores ainda nem se tinham acalmado e já os ganeses estavam a celebrar de novo.

Foi a primeira das gotas de água que ferveu na cabeça dos milhares de equato-guineenses. Assim que o árbitro soprou no apito para mandar toda a gente ir descansar durante 15 minutos, começaram a chover garrafas de plástico.

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Os adeptos da seleção caseira não deixava a equipa ganesa entrar no túnel de acesso aos balneários — dezenas de agentes da polícia tiveram de utilizar escudos para, formando um corredor, os escoltarem para fora do relvado. “A maioria das garrafas foi apontada aos jogadores que estavam no banco de suplentes”, escreveu o jornal Ghanaian Times, ao relatar o incidente que viria a piorar já perto do final da segunda parte.

Enquanto os jogadores se refugiavam nos balneários, até os polícias se tiveram de proteger no túnel. Depois, na segunda parte, a partir dos 75’, quando André Ayew marcou o 3-0, os adeptos da casa respondiam a cada apito do árbitro atirando as tais garrafas de água para o relvado. Sempre. “Foi mesmo um cenário feio. Tinha sido até agora um torneio sem problemas de maior. É inaceitável que tais coisas ocorram em qualquer parte do mundo, muito menos num estádio de futebol”, criticou Jonathan Mensah, jogador ganês que esteve em campo os 90 minutos.

Palavras que também lamentaram o que aconteceria depois. Aos 82’, a partida seria interrompida pelo árbitro, quando as centenas de adeptos ganeses abriram um portão de acesso ao relvado, fugindo para a pista de atletismo que rodeava o relvado — estavam a ser rodeados na bancada por apoiantes furiosos da Guiné Equatorial, que não paravam de lhes atirar garrafas de plástico. As autoridades, noticiou o The Guardian, tentaram depois proteger os adeptos ganeses, concentrando-os atrás de uma das balizas. Mas não demorariam a ser rodeados por apoiantes equato-guineenses.

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Chegou ao ponto de um helicóptero policial, por quatro vezes, ter sobrevoado as áreas onde estavam os adeptos da seleção da casa — passando, segundo o diário britânico, a cerca de 10 metros das suas cabeças. “Parecia uma zona de guerra”, chegou a escrever, na altura, a Federação Ganesa de Futebol, na sua conta oficial de Twitter. As autoridades terão mesmo chegado a utilizar gás lacrimogéneo nas áreas da bancada onde predominavam adeptos da Guiné Equatorial.

O encontro ficaria suspenso durante 35 minutos, até que a violência acalmou e o árbitro decidiu retomar a partida. Não duraria muito tempo. Durante cinco minutos o jogo parecia um treino, com os jogadores a trocarem a bola devagar, quase sem correrem, e o estádio já quase vazio de gente. “É uma pena que esta nuvem negra escureça o nosso sucesso. Queremos ver a Confederação Africana de Futebol a tomar medidas duras”, defendeu Kwesi Nyantakyi, presidente da federação ganesa.

Ameenu Shardow, um jornalista ganês que esteve no estádio, avançou depois que dois cidadãos ganeses teriam sido mortos horas depois de um encontro terminar. “Não posso confirmar quaisquer mortes”, sublinhou Mahama Ayariga, ministro do Desporto do Gana, ao jornal Modern Ghana. A final da Taça das Nações Africanas, deste modo, terá a seleção ganesa a jogar contra a Costa do Marfim, a partir das 20h de domingo.