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Era a estreia de Maria Clara Chaves da Fonseca como rainha de bateria da escola de samba Unidos de Bangu, no Rio de Janeiro. O desfile da agremiação ocorreu nesta sexta-feira, dia em que desfilam as escolas que fazem parte do “grupo de acesso” do Carnaval carioca – as duas melhores classificam-se para o desfile principal no próximo ano.

Maria Clara conta ao site G1 que cuidou pessoalmente de todos os detalhes de sua fantasia. Ela própria pintou as suas longas unhas de verniz colorido. “Mas são postiças”, avisou. Durante o desfile, confessou nervosismo e um pouco de insegurança, mas admite que o calor do público ajudou a superar o desafio. “Eu fui rainha e estou muito feliz! É só sambar bem”, explica.

E o que diferencia Maria Clara de todas as raparigas que um dia sonham em serem rainha de bateria num desfile de escolas de samba no Carnaval brasileiro? Ela tem apenas 7 anos e tornou-se a mais jovem na história a ocupar o cargo.

As rainhas de bateria são consideradas símbolos de beleza das agremiações e abrem caminho à frente dos músicos durante todo o desfile, auxiliando o mestre de bateria na cadência do som. A sua figura também traz notoriedade mediática à escola e ajuda a impressionar os juízes que pontuam o desfile para a escolha da melhor agremiação do Carnaval.

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“Já me imagino no futuro sambando muito. Vou aprender muitos passos para outras oportunidades”, confessa Maria Clara.

Uma indústria de valores

Revelers of the Nene de Vila Matilde samba school perform during the first night of carnival parade at the Anhembi Sambadrome in Sao Paulo, Brazil on February 13, 2015. AFP PHOTO / NELSON ALMEIDA        (Photo credit should read NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

Apesar de haver desfiles em todo o país, é no Sambódromo da Marquês de Sapucaí no Rio de Janeiro e no Sambódromo do Anhembi em São Paulo que desfilam as principais rainhas de bateria. Com os holofotes do mundo virados para elas, a coroa dá-lhes o estatuto de celebridade para que se mantenham na boca do público durante o resto do ano. A escolha da representante costuma gerar polémica: enquanto algumas escolas de samba preferem pessoas da comunidade para representar o esforço e a união da agremiação, outras escolhem artistas famosas para desfilar à frente da bateria.

É o caso da cantora Claudia Leitte, que terá recebido cerca de 350 mil euros para ser a rainha de bateria da escola Mocidade Independente de Padre Miguel, conforme avança o jornal Extra. O cachê incluiu também apresentações para a comunidade realizadas nos últimos meses. A agremiação e a cantora negaram o pagamento. Esta não é a primeira vez que isto acontece no Carnaval, conforme explica o jornal Estadão ao citar exemplos com pelo menos dez anos.

Em outros casos, são as próprias rainhas de bateria quem pagam pelas suas fantasias. Mesmo que a vestimenta pareça minúscula e até prescindível em favor do uso de pintura corporal, o seu valor costuma chegar até os 3 mil euros, segundo cálculo do jornal. A fantasia que Claudia Leitte vai usar no desfile, por exemplo, foi feita por uma estilista própria e custou cerca de 2 mil euros, de acordo com a Globo. Já Dani Vieira, rainha de bateria da escola Acadêmicos da Rocinha, usará uma fantasia coberta de cristais Swarovskis no valor de quase 3 mil euros.

“Se eu tivesse de pagar, não sairia nunca. Não pago nem pastilha. Hoje em dia está tudo à mostra, ninguém mais tem pudor de dizer que pagou. O importante é ter carinho pela escola e a bateria”, conta ao Estadão Raissa de Oliveira, rainha de bateria da escola Beija-Flor desde os 12 anos. No entanto, Raissa acredita que não há problema se a rainha pode ajudar a escola com o valor pago pela fantasia para o custeio do desfile.

Luiza Brunet, uma das rainhas de bateria mais emblemáticas e populares da história do Carnaval do Rio de Janeiro, prefere não entrar em polémicas. Ela esteve à frente dos músicos da escola Imperatriz Leopoldinense durante 14 anos. “Eu nunca paguei, sempre fui convidada. A ideia não me agrada, não acho legal. Agora, se a rainha tem dinheiro e pode ajudar nas alas das crianças, não vejo problema. No meu caso, não pago nem a fantasia, quem paga é a Imperatriz”, garante Luiza.

A preparação

Revelers of the Nene de Vila Matilde samba school perform during the first night of carnival parade at the Anhembi Sambadrome in Sao Paulo, Brazil on February 13, 2015. AFP PHOTO / NELSON ALMEIDA        (Photo credit should read NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

Engana-se quem pensa que para ser rainha de bateria é preciso apenas ter samba no pé. Valeska Reis, da escola de samba paulista Império de Casa Verde, explicou à revista Caras que a preparação para o desfile começa seis meses antes e envolve treinamento físico e reeducação alimentar.

“Este ano resolvi investir num corpo mais definido, já se foi o tempo de ver mulheres musculadas no Carnaval! Quanto à dieta, como mais proteína do que carboidrato, bebo muita água, faço suplementação e respeito os horários para comer e principalmente o tempo de descanso do corpo”, revela. O esforço para manter o corpo rendeu à Valeska o prémio de melhor rainha de bateria do Carnaval de São Paulo pela Liga Independente das Escolas de Samba em 2014. No entanto, explica que a sua maior felicidade é representar a sua comunidade.

“Eu cresci no meio do samba, minha família é do samba! O Carnaval é meu momento de extravasar, de mostrar para as pessoas o que eu gosto tanto de fazer…aqui eu me realizo! Estou confiante que esse será o melhor desfile da minha vida!”, explica.