Depois de umas férias na belíssima costa de Amalfi, no sul de Itália, seria normal que a inevitabilidade do regresso ao trabalho pudesse causar uma ligeira depressão a Ana Cerqueira. Mas isso não aconteceu. “Nessas férias, percebi que a região toda vive da produção de limoncello durante a época baixa. Os produtores, pequenas famílias, estão organizados desde os anos 60 e o negócio sustenta a região para lá do turismo. Pensei logo que se podia fazer o mesmo com o Algarve e com as laranjas.” Por isso, acabadas as férias, Ana não perdeu tempo a recordar paisagens idílicas com falésias recortadas e mar cristalino e pôs mãos à obra: tendo o limoncello como referência, decidiu criar um licor de laranja algarvio. “Falei com uma amiga bióloga, a Isabel Bensaúde, com quem já tinha a ideia de ter um negócio e contei-lhe a ideia. A Isabel foi ótima, começou logo a pensar como é que se poderia fazer o licor”.

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Isabel Bensaúde e Ana Cerqueira, as mulheres por detrás do Orangea.

Do pensamento ao ato foi um instante. Tal como o limoncello se faz a partir da casca do limão, também o Orangea nasce da parte menos comestível da laranja. “O processo é relativamente simples: mergulham-se as cascas, sem a parte branca, numa infusão de álcool puro, que as desidrata e faz libertar os óleos que depois são misturados em água e açúcar”, explica Ana. O difícil foi atingir os 30% de teor alcoólico, o valor que almejavam. As criadoras andaram um ano em experiências até lá chegar. Mas chegaram.

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O Orangea no seu habitat natural.

Tendo em conta que o licor é feito a partir das cascas e não das polpas, será legítimo perguntar o que é que acontece ao resto da laranja. “Oferecemos a escolas, creches e várias instituições”, responde a criadora. E a vertente social do Orangea não fica por aqui. “As laranjas que compramos são todas de pequenos produtores da zona de Tavira. São todas ótimas, sem quaisquer aditivos, e nem sequer seriam comercializadas”. Não falta entusiasmo ao discurso de Ana quando fala nas potencialidades da laranja algarvia e nas diferentes formas de criar a tal sustentabilidade regional que viu em Amalfi. Ideias simples, como “convencer todos os restaurantes da região a ter jarros de sumo natural de laranja”, mas que podem contribuir para espevitar a economia da região durante a época baixa do turismo, precisamente a época alta da laranja.

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A ideia do projeto passa por juntar o útil (a sustentabilidade da região) ao agradável (este ato).

Voltando ao Orangea: no ano passado, já com a fórmula acertada, Ana e Isabel começaram finalmente a produzir o licor, ainda que de forma artesanal, na cozinha de ambas. Nessa altura, começaram também a divulgar as diferentes formas de utilização. O licor deve conservar-se no congelador e pode beber-se simples e gelado, tal e qual o limoncello, ou também pode ser servido com gelo picado, pau de canela e hortelã – uma combinação sugerida à dupla pelo chef Henrique Sá Pessoa, depois de ter provado o licor. Mas há mais, incluindo várias receitas possíveis em que o Orangea se transforma em ingrediente: tiramisú, figos com amêndoa ou crepes Suzette.

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Um crepe Suzette que em vez de sumo de laranja e Grand Marnier leva Orangea. O melhor de dois mundos, portanto.

No primeiro ano foram vendidos 3000 litros da bebida, mas este ano Ana espera que se vendam dez vezes mais. A ambição deve-se a um acordo recentemente celebrado com a algarvia Garrafeira Soares, que vai distribuir a bebida nacional e internacionalmente. Para já, é possível adquiri-la não só na dita garrafeira mas também em dois hotéis algarvios (Ozadi, em Tavira, e Eurotel Altura), bem como na Coisas do Arco do Vinho, a garrafeira do Centro Cultural de Belém, e na Mercearia André, em Santo Amaro de Oeiras. Mas a rede de distribuição irá crescer em breve. Não admira, por isso, que a produção esteja a ser transferida para uma cozinha semi-industrial e que já haja novas garrafas em vidro fosco prontas a receber o licor. Se tudo correr bem, portanto, o Orangea não demorará a estar nas bocas do mundo. Fica o alerta (laranja).