O surf é estar no mar, sentado em cima de uma prancha, à espera que ondas venham e, quando aparecerem, escolher uma. Aí rema-se, pedala-se na água com os braços, pede-se boleia à onda e, quando o embalo estiver na dose certa, a pessoa coloca-se em pé e desliza na parede de água, rumo a terra. No Irão não é costume ver surfistas, muito menos mulheres. Uma raridade, mais que rara, que poderá estar prestes a deixar de o ser no país asiático.

Pelo menos já existe uma organização que olhou para a região do Baluchistão, uma das mais pobres do país, no sul, banhada pelas águas do Mar Arábico, e quis fazer uma experiência — “Seria possível, num dos países mais mal interpretado pelo Ocidente, as mulheres entrarem na água para surfarem?”, questionou a Waves of Freedom, como se lê no seu site. Para o descobrir, a entidade começou a mexer-se.

Sobretudo Easkey Britton, co-fundadora do projeto, e Marion Poizeau. A primeira é irlandesa, surfista profissional há anos e habituada a estar de pé sobre uma prancha à caça de medalhas. A segunda é realizadora e faz vida com o que consegue ver e gravar através de uma câmara. Uniram-se nesta ideia e resolveram criar um documentário sobre a tentativa de a tornar real.

Para isso pediram ajuda a Mona Seraji, uma snowboarder profissional iraniana, e a Shalha Yasini, uma nadadora e piloto do país. Foram elas que acompanharam Britton até à costa do Baluchistão onde, sempre com algo a tapar-lhes a cabeça e a esconder os cabelos, como impõe a cultura islâmica mais radical, vestiram os fatos, pegaram nas pranchas e foram surfar. “Juntas plantaram a semente para novas oportunidades, tornando-se nas primeiras mulheres a surfarem no Irão”, descreveu a organização.

Tudo ficou resumido no “Into the Sea”, documentário sobre que mostra a aventura de levar a modalidade até ao país, além do contraste entre essa região costeira e Teerão, capital do país. “Assim que entras na água as normas e regras da sociedade dissolvem-se. O poder do oceano de ligar e espalhar felicidade é enorme”, defendeu Easkey Britton, citada pelo site Messy Nessy Chic. O documentário ficou disponível no iTunes e na plataforma Vimeo em dezembro.