Pode ter sido no primeiro treino, na conversa inaugural, nos intervalos dos apertos de mão e cumprimentos que, à chegada, começaram a desbravar caminho. Mas a ideia, o princípio, já fora plantado há muito, cultivado e colhido éne vezes na cabeça de Julen Lopetegui, em Espanha, quando ainda por lá andava a treinar seleções: o guarda-redes não serve só para, com as mãos, tapar a sua baliza, mas, também para, com os pés, dar uma ajuda a pensar como chegar à que está do outro lado. Ou para se aventurar para lá da área e cuidar do espaço que a defesa, subida como o treinador gosta, deixa nas costas.

Fabiano sabe isto bem sabidinho: “Aqui, no FC Porto, os guarda-redes têm de jogar adiantados.” Dissera-o há dias, a meio da semana, quando de rompante saíra da baliza, a sprintar, para ir à entrada da área atirar uma bola para longe, contra o Basileia — no tal lance em que chocou contra Danilo e o mandou para o hospital. Ser hoje guardião da baliza dos dragões implica estar à coca com as bolas que os adversários tentam transformar em passes a rasgar a defesa. Como o que, aos 12’, Iuri Medeiros inventou para mandar André Claro correr atrás da bola.

FC Porto: Fabiano; Ricardo; Bruno Martins Indi, Iván Marcano e Alex Sandro; Casemiro; Óliver e Herrera; Ricardo Quaresma, Aboubakar e Brahimi.

Arouca: Goicochea; Ivan Balliu, Miguel Oliveira, Diego Galo e Tomás Dabó; Rui Sampaio, David Simão e Nuno Coelho; Iuri Medeiros, André Claro e Roberto.

O extremo lá foi, rápido, mais veloz que Ricardo, o lateral direito portista. Fabiano tudo via e, sabendo o que sabe, acatou ordens e achou que tinha tempo de dar corda às pernas: saiu da baliza, arrancou e sprintou, mas não chegou. Já a uns bons 15 metros da área, o guardião atirou-se pela relva, em carrinho, e tocou com a sola da bota no pé direito de André Claro, que chegara primeiro à bola. O homem do Arouca não caiu logo e, caso chegasse à bola, era só rematá-la para a baliza sem guardião. Mas quando caiu o árbitro apitou, o suspense sentiu-se no Dragão e só foi cortado pelo cartão vermelho que o homem do apito tirou do bolso.

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Adeus Fabiano, olá Helton, bem-vindo de novo à liga — não jogava desde 15 de março de 2014. De repente havia menos um dragão em campo, mas nem por isso a equipa, ou Lopetegui, se encolhiam. No ataque não se mexia e a defesa ficava dividida por três, para onde Casemiro a recuava quando fosse preciso e Martins Indi fazia de lateral direito, em caso de emergência. Durante uns minutos o Arouca cresceu, pressionou uns metros à frente, apertou os anfitriões. Mas além do remate de Roberto, para a bancada, logo no primeiro minuto da partida, a passe de Iuri Medeiros, a equipa de Pedro Emanuel só voltaria a rematar aos 36’, quando André Claro deu ação às mãos de Helton.

O Arouca, com mais um homem a correr no relvado, foi deixando de ser ousado. De se aventurar a crescer a chatear o dragão na própria casa. Só a pressionar lá a frente, com os três avançados em cima dos três defesas do FC Porto, o conseguiria, para tentar encravar o carrossel do passe que os dragões não deixavam de tentar fazer girar. Porque a bola ainda chegava a Brahimi e o argelino fintava muitos homens com ela no pé. Porque Herrera poucos passes falhava e estava irrequieto, a correr o que as pernas de Óliver, que voltava após lesão, não corriam. E porque Ricardo Quaresma, na direita, arranjava sempre maneira de cruzar ou rematar as bolas que lhe chegava.

Como as 23’, quando pediu ajuda à trivela para colocar a bola em Óliver, ao segundo poste, e ver o miúdo espanhol dominar a bola ao invés de a rematar logo. Ou aos 26’, quando o Arouca ousou subir a linha dos defesas e o radar de Herrera detetou um espaço para rasgar um passe para Quaresma — o extremo, na direita, tentou cruzar, mas houve um ressalto que levantou a bola e o fez saltar para, com a cabeça, chegar onde Diego Galo o tentou fazer com o pé. Resultado: chuto na cara do capitão do FC Porto. Não se ouviu um apito a assinalar um livre indireto dentro da área.

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Quaresma queixou-se, agarrou-se à cara e fê-lo mais umas quantas vezes. Ter-lhe-á doído, mas a dor foi-se aos 32’, quando, de novo, lhe chegou um passe de Herrera e teve espaço para se virar, cruzar e ver Aboubakar, perto do segundo poste, saltar e, com a cabeça, mandar a bola para a baliza. 1-0 e segundo golo no campeonato da sombra camaronesa de Jackson Martínez. Contra quem marcar o primeiro? Esta é fácil, pois também fora contra o Arouca.

Nem se notava que os dragões estavam com menos um em campo. Quase nada, mesmo: pouco antes do intervalo tinham 72% da companhia da bola, livravam-se dos cercos de pressão do Arouca como quem joga à rabia e ainda viam Ricardo Quaresma trocar as voltas a Ivan Balliu, o lateral catalão, fabricado no Barça, que não conseguia lidar com as simulações e fintas de corpo com o extremo do pé direito torto. O tempo de descanso chegava e tempo seria para Pedro Emanuel urgir os seus a crescerem e atinarem com o facto de estarem com mais um par de pernas no relvado.

No nascer da segunda parte, o Arouca obedeceu. Aos 50’, a pantufa na canhota de David Simão enganou Casemiro e, à entrada da área, rematou à futsal, quase com o bico da bota, e fez a bola passar muito pouco ao lado do poste direito da baliza. Era um aviso. Os visitante tiveram um, dois e três cantos, obrigavam os dragões a recolheram à volta da sua baliza. Os portistas libertaram-se aos 56’, quando um passe chegou a Quaresma, o extremo voltou a brincar com Balliu e rematou para Goicochea, encostado ao poste, desviar a bola. Craque.

Depois, o golo, o que seria o do empate, esteve quase a aparecer aos 59’, não fosse Helton e os seus elásticos 36 anos, voarem para esticarem a mão direita e, perto da barra, desviarem a bola que viera da cabeça de Miguel Oliveira, após um livre batido por David Simão. Uma valente oportunidade era barrada por uma ainda mais valente defesa. Aos 61’ e 62’, Rui Sampaio, bem por cima, e Iuri Medeiros, bem perigoso, ainda apontaram remates à baliza portista, mas sem nela acertarem com a bola.

Os minutos passavam e não mais o Arouca fez, além de cruzamentos por alto e passes falhados perto da área portista. Só aos 80’ se veria um remate dos visitantes, quando Agustín Vuletich rematou bem ao lado. Este argentino, avançado, estava em 2011 na seleção (ao lado de meninos como Erik Lamela, do Tottenham, ou Juan Iturbe, ex-FC Porto e hoje na Roma) que perdeu nos penáltis com Portugal, nos quartos-de-final do Mundial sub-20. Tem pinta, quer sempre a bola e sabe protegê-la, mas joga pouco neste Arouca. Como o pouco que a equipa de Pedro Emanuel fez, no Dragão, para contrariar o ritmo que, reconheça-se, o FC Porto leva e que lhe chega para, mesmo com menos um, se livrar de armadilhas e controlar através do vício do passe um jogo que manteve ao ritmo que quis.

E conseguiu esticar para sete os jogos que leva sem sofrer golos, mesmo com um jogador a menos. Aboubakar voltou a provar, à cabeçada, que mesmo não tendo uns pés tão simpáticos para levar a bola a passear, mexe-se bem, sabe para onde se tem de desmarcar e simplifica quando a bola lhe chega. O Arouca, mesmo que na defesa e meio campo tenha trocado a bola muitas vezes bem e até rápido, nunca conseguiu desenhar com os pés as ideias que terá tido para aproveitar o homem que, em teoria, teria sempre livre para receber a bola no ataque. Por isso o FC Porto venceu, segue a quatro pontos do Benfica e continua paciente, à espera que, até ao fim, os encarnados escorreguem em algum lado.