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Nostalgia

Nove expressões que devemos a Herman José

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No dia em que Herman José apaga 62 velas, recordamos o seu percurso e as personagens mais marcantes através das expressões que saltaram do pequeno ecrã para a linguagem corrente do grande público.

LUSA

Autor
  • Tiago Tavares
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Ao longo de quatro décadas de carreira, entre programas de humor, concursos, talk-shows e espetáculos ao vivo, Herman José parodiou os tiques de vários setores da sociedade portuguesa nas personagens a que deu vida. Da sua cabeça saíram expressões que entraram nas conversas de toda a gente e tornaram o nosso léxico mais rico. Em homenagem a Herman, no dia em que celebra o seu 62.º aniversário, aqui fica uma pequena amostra do vocabulário que a ele devemos.

1. Uma pomada – José Esteves, O Tal Canal

Em 1983, Herman teve o seu primeiro programa de humor, onde contracenava com os atores Vítor de Sousa, Helena Isabel, Lídia Franco, Manuel Cavaco, Margarida Carpinteiro e Natália de Sousa. Foi eleito em 2007 como o melhor programa de televisão dos últimos 50 anos, numa votação promovida pelo DN e pela Time Out. O programa simulava um canal de televisão, cujas emissões incluíam, por exemplo, o “Momento Infantil” do menino Nelito e da sêdona Palmiiira, as receitas com imensa paprika de “Cozinho para o Povo”, o show de Tony Silva (o grande criador de toda a música ró) e a telenovela “O Diário de Marilu” (não me chame condensa, que me põe tensa). O canal era dirigido pelo professor doutor Oliveira Casca, inspirado no então Presidente Eanes. De todas as personagens, a mais popular terá sido o bacoco comentador desportivo José Estebes, que dava as táticas à cambada, sempre acompanhado pelo seu jarro de vinho – uma pomada!

2. O verdadeiro artista – Serafim Saudade, Hermanias

Em 1985, com praticamente o mesmo elenco, surgiu novo programa de autor. A ação decorria num cabaré, onde a estrela de serviço era Serafim Saudade, o verdadeiro artista que cantava músicas compostas por Carlos Paião, sempre em perfeita diálise com o seu publicuzinho. Para a história ficou também o sketch dos Caixões Vilaças, em que Herman contracenava com Margarida Carpinteiro; os atores não conseguiram controlar o riso e a cena foi para o ar assim mesmo, coisa impossível até então. Outra novidade foi a figura do censor Mário Cortes, o cameraman que interrompia a emissão quando achava que os níveis de decência eram ultrapassados, uma fórmula recuperada anos mais tarde pelo Diácono Remédios.

3. Ó p’ra mim – Maximiana, Humor de Perdição

Humor de Perdição passou na RTP entre 1987 e 1988, e mostrava os bastidores de um estúdio de televisão. Ficou marcado pela primeira grande polémica da carreira de Herman, por causa das “entrevistas históricas”, cuja escrita teve também o dedo de Miguel Esteves Cardoso. No antepenúltimo episódio, a entrevista à Rainha Santa Isabel foi cortada e os últimos dois episódios já não foram para o ar. Para a posteridade ficou sobretudo a personagem Maximiana, a mulher de voz esganiçada oriunda da Merdaleja (ó p’ra mim toda lampeira!), que nesta série era uma mãe renegada pela benzoca Pureza (ou Marisol), interpretada por Ana Bola, numa paródia aos novos-ricos que escondiam as suas origens humildes.

4. A língua portuguesa é muito traiçoeira – Casino Royal

Depois de uma travessia no deserto, Herman regressou aos ecrãs em 1990 com esta série passada num casino, onde se cruzavam espiões durante a Segunda Guerra Mundial. Herman era Artur Royal, dono do casino e marido de Celeste Royal (Ana Bola), viciada em cafezinhos com leite e especialista em pontapés na gramática e cacofonias, que a levavam a repetir: a língua portuguesa é muito traiçoeira. José Pedro Gomes foi um dos atores que entrou nesta fase para a equipa de Herman, e o seu Caxuxo teve de repetir milhares de vezes à amante russa Natacha (São José Lapa): vai para casa da mamã!

5. Eu é mais bolos – José Severino, Hermanias Fim de Ano

Feitas as pazes com Herman, a RTP confiou-lhe o programa de duas passagens de ano consecutivas. Crime na Pensão Estrelinha (1990-91) tornou-se uma referência da televisão portuguesa, que Herman viria a considerar “o programa da sua vida”. A trama de mistério em volta da morte de Neves, o dono da pensão, era entrecortada por sketches, muitos deles repescados das crónicas de Herman na TSF. No ano seguinte, Hermanias Especial Fim de Ano deixa para os anais (lá está a língua portuguesa…) do humor nacional a entrevista a José Severino, o pasteleiro convidado por engano, responsável pelo bordão que ainda hoje repetimos quando não estamos confortáveis com um tema: eu é mais bolos.

6. Goodbye Maria Ivone – A Roda da Sorte

Veio depois a fase dos concursos, que o próprio Herman considerou o seu auge de popularidade. No início dos anos 90, Herman ocupou os finais de tarde de semana com “A Roda da Sorte” (1990-93) e “Com a Verdade M’Enganas” (1993-94), e as noites de sábado com “Parabéns” (1993-96). O primeiro concurso, em que Herman surgia acompanhado pela assistente Ruth Rita e pelo locutor Cândido Mota, foi pródigo em expressões repetidas pelo público em estúdio, o coro das porcazinhas (onde se destacava o Gimba d’Os Irmãos Catita). A farfalota pimpinela, o engrelope ou ah! que bem escolhido! são apenas alguns exemplos desses chavões. Duas músicas do inaudito cantor Victor Peter ficaram então famosas: Paula, eu sofro por você e Ó Ivone, goodbye my love — ainda hoje há quem se despeça com um Goodbye Maria Ivone! A última sessão d’”A Roda da Sorte”, em que Herman destruiu a montra de prémios a tiro de caçadeira, ficou na memória de todos.

7. Não havia necessidade – Diácono Remédios, Herman Enciclopédia

Herman Enciclopédia (1997-98) marcou o regresso de Herman aos programas de humor, agora com autoria da equipa das Produções Fictícias. Foi provavelmente o programa que disparou mais expressões para as ruas: da caturreira da Super Tia ao fantástico, Melga! das televendas, passando pela proposta let’s look at the traila de Lauro Dérmio e pelo grito que fazia estremecer as reuniões do Pê-Nê-Rê-Nê (Partido Nacional da Região Norte): este homem não é do Norte! Mas a frase que mais pegou foi a deixa não havia necessidade (inspirada na mãe de Herman), com que o Diácono Remédios, provedor dos bons costumes, interrompia as cenas mais picantes, para logo a seguir a sua mente perversa elaborar algo ainda pior (qualquer dia…). E já agora, onde é que estava no 25 de abril?

8. Eu é que sou o Presidente da Junta – Herman Enciclopédia

Ainda em Herman Enciclopédia, não podíamos deixar de recordar uma personagem que apareceu pouco e da qual apenas recordamos os óculos fundo de garrafa e a voz entaramelada pelo álcool. No entanto, bastou-lhe uma frase repetida à exaustão para merecer entrar nesta lista das expressões hermaníacas que ficaram para a história: eu é que sou o Presidente da Junta!

9. Resmas de gajas – Nelo, Herman SIC / Hora H

Da passagem de Herman pela SIC (2000-2008), o sketch mais bem conseguido juntava um casal sui generis: o efeminado Nelo e a intelectual Idália, sempre pronta a corrigi-lo. Entre as mil comparações com que Nelo depreciava a mulher no final de cada rábula (por exemplo, óscares de gajas atrás de mim e logo me vai sair esta menção honrosa do festival de cinema da Porcalhota), as palavras resmas e paletes foram escolhidas pelo público para se tornarem formas comuns para designar uma grande quantidade de qualquer coisa.

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