O ex-jogador de futebol português Luís Figo desistiu da sua candidatura à presidência da entidade que rege o futebol mundial, a FIFA. As eleições estão marcadas para o final do mês, 29 de maio, em Zurique. O anúncio foi feito esta quinta-feira, 21 de maio, através de um comunicado enviado à Associated Press, onde Figo refere-se à FIFA como uma ditadura: “Testemunhei consecutivos episódios, em todo o mundo, que deveriam envergonhar qualquer pessoa que deseje que o futebol seja livre, limpo e democrático”.

A notícia que circulava na imprensa internacional nas últimas 24 horas, com algumas publicações a darem conta dos rumores, foi confirmada e surge horas depois de o holandês Michael van Praag ter também desistido da corrida, revelando o apoio ao jordano Ali bin Al Hussein, que se mantém na luta com o atual presidente, o suíço Joseph Blatter.

No início do ano era notícia que o antigo capitão da seleção nacional ambicionava o cargo de presidente da FIFA por estar “preocupado com o futebol” e por não gostar do que “tem visto ser associado à imagem da FIFA nos últimos anos”.

A decisão de se juntar à corrida foi comunicada em primeira mão à CNN:  “É um desafio fantástico tentar convencer as pessoas a seguirem-me e apoiarem-me. Tenho falado com muitas pessoas importantes no futebol — jogadores, treinadores, presidentes de federações — e todos pensam que algo tem de ser feito”, explicou à cadeia de televisão norte-americana.

A ditatura da FIFA: Comunicado na íntegra de Luís Figo

“Concorrer à presidência da FIFA resultou de uma decisão pessoal, tomada depois de ouvir muitas pessoas pertinentes na esfera do futebol internacional.

Procurei o apoio necessário, formalizei a minha candidatura à presidência e as reações no mundo do futebol foram esmagadoras — ao nível público e privado –, que fiquei seguro de ter tomado a decisão correta.

O reino de um desporto que me deu tudo para me tornar no que sou hoje, e ao qual agora oferecia algo em retorno, está com fome de mudança. A FIFA precisa de mudar e eu sinto que a mudança é urgente.

Guiado por esse desejo, pelo apoio formal que reuni e pela incrível onda de apoio de jogadores de futebol, ex-jogadores, treinadores, árbitros e administradores, imaginei e apresentei um plano de ação — o meu manifesto eleitoral para a presidência da FIFA.

Viajei e conheci pessoas extraordinárias que, apesar de reconhecerem o valor do muito que já foi feito, também concordaram com a necessidade de mudança, uma que limpe a reputação da FIFA como uma organização obscura que é muitas vezes vista como um lugar de corrupção.

Mas ao longo dos últimos meses, não só testemunhei esse desejo (de mudança), como testemunhei consecutivos episódios, em todo o mundo, que deveriam envergonhar qualquer pessoa que deseje que o futebol seja livre, limpo e democrático.

Eu vi com os meus próprios olhos presidentes de federações que, depois de um dia a comparar os líderes da FIFA a demónios, de seguida foram ao palco e compararam essas mesmas pessoas com Jesus Cristo. Ninguém me disse isto. Eu vi-o com os meus próprios olhos.

Os candidatos foram impedidos de abordarem as federações em congressos, enquanto um dos candidatos sempre discursou a partir da sua própria tribuna. Não houve um único debate sobre as propostas dos candidatos.

Alguém acha que é normal que uma eleição para uma das organizações mais relevantes no planeta vá adiante sem um debate público? Alguém acha que é normal que um dos candidatos não se dê ao trabalho de apresentar um manifesto eleitoral que possa ser votado a 29 de maio? Não deveria ser obrigatório apresentar tal manifesto para que os presidentes das federações fiquem a saber no que vão votar?

Isso seria normal, mas este processo eleitoral é tudo menos uma eleição.

Este processo (eleição) é um plebiscito para entregar o poder absoluto a um homem — algo que me recuso a aceitar.

É por isso que, depois de uma reflexão pessoal e de partilhar opiniões com os outros dois candidatos neste processo, acredito que o que vai acontecer a 29 de maio, em Zurique, não é um ato eleitoral normal. E porque não o é, não contem comigo.

Quero deixar claro que tenho um profundo respeito por todo o mundo do futebol, de Àfrica, onde recebi muita motivação, a Ásia, onde tenho e vou manter excelentes relações, pela América do Sul, onde uma nova geração está a emergir, e América Central e do Norte, onde tantos que queriam falar foram silenciados, e ainda pela Oceânia, cujo desenvolvimento deveria devia ser olhado por todos nós de forma diferente. E finalmente pela Europa, onde senti que havia espaço para um debate normal e democrático, graças aos esforços do presidente [Michel] Platini.

Os meus sinceros agradecimentos a todos, porque eu quero deixar claro que eles não são o comité eleitoral e que não são eles que desejam que a FIFA fique cada vez mais fraca.

Da minha parte, vou respeitar as ideias que deixei escritas e que têm circulado. Estou firme no meu desejo de ter uma participação ativa na regeneração da FIFA e vou estar disponível para quando for provado que não estamos a viver numa ditadura.

Não tenho medo das urnas, mas não vou em frente com isto nem vou dar o meu consentimento a um processo que termina a 29 de maio e do qual o futebol não vai sair o vencedor.

A minha decisão está tomada. Não vou fazer parte do que está a ser chamado de eleição para a presidência da FIFA.

Ofereço meus mais profundos agradecimentos a todos aqueles que me apoiaram e peço-lhes para manter vivo o desejo de uma regeneração que, embora possa levar algum tempo, vai chegar.”