Os partidos à esquerda no Parlamento voltaram a fazer esta sexta-feira mais uma tentativa de convencer a maioria a travar o processo de privatização da TAP. A deputada do BE Mariana Mortágua acusou o Governo de “privataria”, o PCP acusou a maioria de não ler – “ou não ligar nenhuma” – as alternativas que os comunistas propõem, enquanto PSD e CDS lembraram que o PS em tempos foi favorável à privatização e que, quando está em jogo a “caça ao voto”, “perde a coerência”. Estiveram em discussão três projetos de resolução do PS, PCP e Verdes, e um projeto de lei do Bloco de Esquerda, mas foram todos chumbados.

“O que se passa neste país só tem um nome, é  ‘privataria’, é um assalto ao país”, atirou a deputada bloquista Mariana Mortágua, classificando a ação do Governo como um “ato de cobardia política”, por “fazer sempre valer a sua posição através do medo, ao dizer que, se não houver privatização, a TAP vai ao charco” e por fazer das greves “o seu bode expiatório”.

A troca de acusações, no entanto, foi mais acesa entre PCP e CDS, depois de o deputado centrista Hélder Amaral ter criticado a “esquerda radical e a esquerda fashion” (PCP/Verdes e BE) por “dizerem sempre a mesma coisa” nas várias iniciativas legislativas que têm apresentado na Assembleia sobre esta matéria. Perante a acusação, o deputado comunista Bruno Dias pediu a palavra para questionar a bancada do CDS sobre se tinha “lido” o projeto de resolução do PCP que estava a ser discutido: “Não leu ou leu e tem medo de falar sobre as medidas que nós apresentamos, e que são a prova de que há mesmo uma alternativa a esta privatização?”, questionou. A provocação não caiu bem ao deputado centrista que garantiu a leitura e, inclusive, pediu aos serviços da Assembleia que distribuíssem os documentos.

Antes, já os comunistas e o deputado ecologista José Luís Ferreira tinham criticado o Governo por “impor uma operação relâmpago de entrega da TAP”, “um erro histórico” com a “maior empresa exportadora de Portugal, que envolve direta ou indiretamente mais de 20 mil postos de trabalho”, numa “cegueira neoliberal” que “olhou sempre para esta empresa estratégica como simples mercadoria para venda”.

A moeda de troca do PSD e CDS perante as acusações da esquerda foi disparar contra o PS que, segundo começou por dizer o deputado social-democrata Luís Vales, “sempre quis privatizar a TAP”. “A anterior decisão da privatização da TAP foi tomada num Conselho de Ministros em que António Costa participou”, disse. O argumento foi repescado pelo deputado do CDS Hélder Amaral, que disse mesmo que “o PS sempre quis mas nunca teve foi a competência para fazer a privatização da TAP”.

“Já começou a caça ao voto e, quando começa, faz logo duas baixas no PS – a coerência e a responsabilidade”, disse o centrista, acusando o PS de só estar contra a privatização da companhia aérea por uma questão de eleitoralismo.

Negando o argumento, o deputado socialista Rui Paulo Figueiredo respondeu que, “no máximo, o PS defendeu uma privatização parcial e, mesmo que tivesse mudado de posição – coisa que não fez -, é preciso uma grande lata para o CDS, do ministro irrevogável Paulo Portas, se referir a outras posições“.

Na quinta-feira, o Governo decidiu em Conselho de Ministros passar à fase de negociação com dois dos três candidatos à compra de 66% do grupo TAP, Gérman Efromovich e David Neeleman, afastando o consórcio de Miguel Pais do Amaral, por incumprimento dos “requisitos mínimos legalmente exigidos pelo caderno de encargos”.