Perante uma plateia de finalistas da Universidade de Harvard, Natalie Portman confessou as dúvidas que ainda pendem sobre si: “Tenho de admitir que hoje, 12 anos depois da minha licenciatura, ainda estou insegura sobre o meu próprio valor.” Portman foi convidada, no final de maio, para ser a oradora numa cerimónia de graduação na instituição que em 2003 a recebeu enquanto estudante. Apesar da veia motivadora do discurso, a atriz norte-americana deixou a descoberto inseguranças profissionais difíceis de associar ao sucesso por ela já alcançado.

Com um Óscar no currículo (pela sua participação em Cisne Negro) e uma carreira reconhecida em todo o mundo, Portman é, muito provavelmente, mais uma das celebridades que se encaixam naquela que é descrita como a síndrome do impostor — apesar de não ser oficialmente reconhecida no mundo da psicologia, é um fenómeno frequentemente associado a questões de desempenho, isto é, quando em causa está uma componente de avaliação.

A síndrome, explica a psicóloga Filipa Jardim da Silva, não é o mesmo que baixa autoestima: “Apesar de as pessoas com pouco amor-próprio serem muito críticas com elas próprias, têm momentos em que conseguem reconhecer o seu sucesso. Quem sofre da síndrome em momento algum consegue fazê-lo.” São, pois, pessoas que acham que as coisas boas da vida derivam apenas de circunstâncias alheias às suas próprias capacidades, motivo pelo qual sentem-se frequentemente na pele de uma fraude que, a qualquer momento, vai ser descoberta.

Não há estatísticas que o comprovem, mas a profissional da Oficina de Psicologia garante que, a par de se esbarrar com o fenómeno em consultas e formações empresariais, a síndrome afeta mais as mulheres do que os homens. Fora do contexto profissional, e dentro do feminino, as mulheres também sofrem ao nível da imagem — sentem-se inseguras em relação ao que vestem e ao peso que têm. Em última análise, está tudo relacionado com a não autoaceitação.

A síndrome em questão não é algo que, à partida, uma pessoa admita com facilidade, até porque uma coisa é o discurso externo, outra é o interno. Por esse motivo, Filipa Jardim da Silva enumerou um conjunto de características que podem ajudar a perceber quem se encontra nesta situação:

  • Alguém que tem prazer no que faz, mas que sente uma insatisfação crónica;
  • Alguém que sente que não merece elogios pelo sucesso alcançado;
  • Um perfecionista crónico, que nunca descansa;
  • Alguém que, em momento algum, é capaz de atribuir o sucesso a si próprio, que tende a explicar tudo o que de bom lhe acontece de forma racional e/ou com recurso a atribuições externas — “Tem que ver com os outros, com sorte ou com as circunstâncias dos meios”;
  • Alguém que se sente uma fraude e que tem medo de ser descoberto — “Eu não sou o que pareço ser e as pessoas, mais dia menos dia, vão descobrir o que realmente sou”;
  • Uma pessoa que sente um certo vazio e que acha que, ao final do dia, ainda tem muito por conquistar.