Se já ficamos maravilhados com um pôr-do-sol, imagine o que seria ver dois, três ou cinco sóis a desaparecerem no horizonte. A ideia pode parecer saída de um filme de ficção científica, como o pôr-do-sol duplo em Tatooine, o planeta natal de Anakin e Luke Skywalker (na Guerra das Estrelas), mas a verdade é que existem sistemas estelares múltiplos, alguns com planetas a orbitar em torno deles. O sistema de cinco estrelas recém-descoberto poderia dar largas à imaginação, mas os investigadores acham pouco provável a existência de planetas neste sistema. A ação da gravidade de cinco estrelas em movimento tornariam a órbita de qualquer planeta completamente instável.

Em 2013, uma equipa de investigadores havia descoberto um sistema de quatro estrelas. Agora, a mesma equipa descobriu que existia uma quinta estrela neste sistema, conforme publicou na revista científica Astronomy & Astrophysics. Se já ficou zonzo só de imaginar as cinco estrelas a orbitar em torno de um ponto comum, fique sabendo o processo é mais complexo do que um grupo de crianças de mãos dadas a girar numa roda.

O sistema de cinco estrelas tem dois sistemas de estrelas binárias, ou seja, dois grupos que têm, cada um, duas estrelas que giram em torno uma da outra, como se dançassem à volta de um ponto que fica algures entre as duas. Estes dois sistemas binários orbitam depois em torno um do outro, ou em torno de um ponto comum entre os dois sistemas.

Isto era o que se conhecia até 2013. Agora, a equipa de Marcus Lohr, da Open University no Reino Unido, verificou que um dos sistemas binários tem uma outra estrela que descreve uma órbita em torno de um dos sistemas binários. Muito confuso? Espero que a imagem o ajude a perceber esta dança das estrelas.

Uma representação artística do sistema de cinco estrelas com as potenciais órbitas desenhadas a tracejado - Marcus Lohr

Uma representação artística do sistema de cinco estrelas com as potenciais órbitas desenhadas a tracejado – Marcus Lohr

Para Pedro Russo, astrofísico e comunicador de ciência no Observatório Astronómico da Universidade de Leiden, que não esteve envolvido no estudo, o mais impressionante é a forma como os investigadores descobriram esta quinta estrela. Para começar cada sistema binário tem uma curva de brilho própria – o brilho varia ao longo do tempo da mesma maneira, como quando uma estrela eclipsa a outra. Depois cada estrela é identificada pelo espetro de luz que é recebido na Terra, como um bilhete de identidade estelar.

Quando descobriram que nos dois sistemas binários havia eclipses estelares, os investigadores aperceberam-se, pelos espetros de que haveria uma quinta estrela naquele conjunto, refere em comunicado de imprensa a Royal Astronomical Society. Uma estrela que orbita a cerca de dois mil milhões de quilómetros do sistema binário.

Segundo a BBC, não é a primeira vez que se encontra um sistema com cinco estrelas, mas é a primeira vez que se encontra um com esta disposição. Na verdade os sistemas estelares múltiplos são muito mais comuns do que anteriormente se pensava – cerca de um terço, refere a Royal Astronomical Society.

“Este é um sistema estelar realmente exótico. Em princípio não há razão para acreditar que pode ter planetas a orbitar cada par de estrelas”, disse Marcus Lohr, citado pelo Phys.org. “Qualquer habitante de um desses planetas teria um céu que envergonharia os produtores da Guerra das Estrelas – em alguns momentos haveria nada menos que cinco sóis de diferentes brilhos a iluminar a paisagem.”

Impressionantes são também as distâncias entre as estrelas. Enquanto o sistema binário simples terá um diâmetro total pouco maior do que o do nosso Sol, com as estrelas tão próximas que podem até ter a camada mais exterior da atmosfera em contacto, o outro sistema binário tem as estrelas separadas em cerca de três milhões de quilómetros (cerca de duas vezes o tamanho do Sol). Os dois sistemas binários distam entre si 21 mil milhões de quilómetros, uma órbita muito maior do que a de Plutão em torno do Sol (que não chega a 12 milhões de quilómetros).

Como todas as estrelas orbitam no mesmo plano, a equipa de Marcus Lohr acredita que todas as estrelas se terão formado a partir da mesma nuvem de gás e poeiras há cerca de 10 mil milhões de anos. É nestas nuvens que, quando há alguma perturbação, os gases e poeiras se começam a agregar (acreção) e à medida que vão aumentando a massa, vão aumentando a gravidade e vão atraindo mais matéria. O aumento da pressão e densidade no centro destes “agregadores” de poeiras e gases pode provocar reações nucleares e assim se formam as estrelas.

A massa que não foi incorporada nas estrelas vai orbitar em torno da estrela num disco de poeiras e gases. Da colisão destas poeiras que depois se vão juntando e aumentando a massa e, nalguns casos, atraindo também alguns gases, formam-se os planetas. E foi assim que terá nascido o nosso sistema solar.