É uma das entrevistas mais estranhas dos últimos tempos, com perguntas sexistas e respostas sarcásticas à mistura, que vale a pena ser vista. A 22 de julho, a modelo que agora também é atriz, Cara Delevingne, deu uma entrevista ao programa matinal norte-americano Good Morning Sacramento a propósito do filme que protagoniza, Cidades de Papel (chegou aos cinemas portugueses a 23 de julho). Apesar de já terem passado alguns dias, a gravação não deixa de ser atual dado o seu elemento de estranheza — foi tão, tão, estranha que continua a dar que falar nas redes sociais e na imprensa internacional.

Mas o que aconteceu efetivamente? A culpa, dizem alguns, será dos entrevistadores, que começaram por se enganar, em direto, no nome da atriz (chamaram-na de Carla). Seguiu-se uma pergunta que talvez fizesse muito boa gente revirar os olhos: “Teve oportunidade de ler o livro ou será que nem tem tempo para se sentar e ler nos dias que correm?” A questão estereotipada q.b. fez com que a modelo puxasse do humor e sarcasmo britânicos, respondendo ironicamente que não tinha lido o livro ou o guião e que apenas tinha improvisado. Era o começo de uma entrevista desastrosa que, segundo a internet, já tem vencedores e vencidos.

A entrevista tem pouco mais de três minutos, tempo durante o qual Cara responde com um ar pouco feliz e de língua afiada. Perante isto, os apresentadores do programa perguntam-lhe porque está “pouco entusiasmada” por ali estar, afirmando que parece irritada — a estreia do filme acontecera no dia anterior. E como acaba um rol de questões constrangedoras e que chegam a dificultar o visionamento do vídeo que, entretanto, se tornou viral? Com a entrevistadora a sugerir que Cara vá dormir uma sesta e beber um Redbull.

https://www.youtube.com/watch?v=AOICSX_C8QQ

Dada a descrição dos acontecimentos, não é de estranhar que o assunto ainda esteja nas bocas do mundo, com a imprensa a dar voz a ambos os lados da barricada — aos entrevistadores e à entrevistada. Mas, em última análise, parece ser Cara quem está a receber a maior quantidade de apoiantes, ela que já se serviu do Twitter para se defender. Em ocasiões diferentes, publicou as seguintes mensagens: “Algumas pessoas não percebem o sarcasmo ou o sentido de humor britânico” e “eu trabalho mesmo muito e amo o que faço, pelo que não sinto a necessidade de pedir desculpas por ser humana”.

O próprio autor do livro no qual se baseou o filme em questão, John Green, parece concordar com a modelo. No seu blogue, o escritor fez saber que considera os apresentadores do programa televisivo rudes e que os habituais questionários, quando a promover uma longa-metragem, ajudam a desumanizar as pessoas. Green defendeu, assim, a protagonista do filme, dizendo que aos atores são feitas as mesmas questões num registo contínuo assim que um filme chega às salas de cinema e os interrogatórios mediáticos começam. Perante tais situações, o mais comum é existirem respostas estanques, as quais ajudam a proteger os artistas. Mas, no caso de Cara, a modelo prefere não fazê-lo:

“Ela recusa-se a satisfazer questões preguiçosas e recusa-se a transformar-se num autómato para conseguir suportar os longos dias de [entrevistas]. Eu considero-o admirável. Cara Delevingne não existe para alimentar as vossas narrativas ou o vosso feed de notícias, e é precisamente por isso que ela é [tão] interessante.” O escritor dá ainda a entender que enquanto ao ator protagonista de Cidades de Papel, Nat Wolf, perguntam quando é que leu o livro, a Cara perguntam se leu mesmo o livro.

Já a muito conhecida atriz Whoopi Goldberg protestou contra a atitude de Cara. Num programa do canal ABC, Goldberg apontou o dedo à atriz de 22 anos, sugerindo que a jovem devia aguentar este tipo de entrevistas. “Ela não é uma atriz famosa. Ela é uma novata. Eu sou famosa”, disse. “Isto não é fácil, mas somos privilegiados pelo que fazemos. Temos tanta sorte. Se é suposto fazermos isto, temos de arranjar uma forma de o aguentar. Não temos permissão para ser pessoas ruins — eles [os entrevistadores] também estão a fazer o seu trabalho.”

Posto isto, o Washington Post escreve que não é raro entrevistas deste calibre tornarem-se virais, mas que o mais normal é serem as estrelas a receber as críticas. O blogue do jornal dedica um artigo ao assunto, onde argumenta que Cara foi, sem qualquer sombra de dúvida, sarcástica, ainda que muitas pessoas se mostrem zangadas com o facto de os entrevistadores terem ofendido a artista ao fazerem perguntas padronizadas. “Enquanto muitos criticaram Delevingne por não alinhar, muitos outros pensam que ela não tinha qualquer obrigação de agir de uma determinada maneira de forma a agradar aos apresentadores.”

A publicação Esquire, por sua vez, argumenta que os apresentadores norte-americanos devem um pedido de desculpas à atriz, apresentada como culpada em alguns títulos de revistas: “Cara Delevingne irrita apresentadores durante uma entrevista desastrosamente estranha” (US Magazine) e “Cara Delevingne dá entrevista dolorosamente estranha” (USA Today).

O juízo final é seu, pelo que o melhor é voltar a ver a entrevista. Ainda assim, lembra o escritor John Green, haverá sempre questões mais importantes do que uma entrevista viral. Quer ela seja estranha ou não.