Não tem cara de quem está apressado, nada. Mas Rui Vitória antecipa-se, obriga toda a gente a ter pressa e rouba oito minutos à hora marcada. A sala está pronta, câmaras lá atrás, alinhadas, apontadas para o palco, para a cadeira que vai dar pouso ao treinador do Benfica. Ele entra na sala, atrás de Rui Costa. É rápido a soltar um “boa tarde” para o ar, audível para que todos o oiçam. Está sorridente, cobre a cara com um ar de quem está bem-disposto quando sobe ao palco. Puxa a cadeira, senta-se, ajeita a gola do pólo, confere se está tudo bem com o botão. Passa as mãos pela cara, como se as tivesse molhadas para derramar água na face. É o único sinal de cansaço que deixa passar.

Está ali para responder a perguntas, falar sobre o que os jornalistas querem ouvir. Muitos, ou a maioria, quer escutar o que Rui Vitória tem para dizer sobre Jorge Jesus. Mas o treinador não estava ali para isso. A simpatia na cara, a postura descontraída, larga tudo. Um jornalista pede-lhe para comentar as palavras do treinador do Sporting e ele ri-se, ao de leve, enquanto solta um suspiro dos longos. Um suspiro de quem estava à espera de conseguir fintar o tema. Responde com o discurso pausado, carrega em algumas sílabas, aumenta o volume do tom de voz. “Se quem está à espera do que quer que seja da minha parte sobre esta questão, podem abandonar a sala porque neste momento eu não quero falar”, atira, executando um pequeno aceno, como quem dá o tema por fechado. Depois, regressa ao modo sereno.

Amanhã vamos apresentar, com certeza, uma equipa que sabe a responsabilidade do jogo, jogadores com muita capacidade e que vão para o jogo com muita vontade de vencer. E isto tenho que deixar bem claro: a minha confiança é muito grande.”

Só com a insistência no antecessor, com as perguntas sobre Jorge Jesus, é que Rui Vitória oscila na postura calma e ponderada que faz por ter. Preocupa-se com tudo o que o rodeia, isso nota-se: a mão direita que pega no microfone e o ajeita a cada resposta que dá, sem falta; os olhos que fitam, sem desviar, os de cada pessoa que lhe faz uma pergunta. O técnico encarnado, seja em esforço ou não, insiste em ser cordial com quem convive. Prova-o antes da conferência de imprensa arrancar e de dar a primeira resposta: “Antes de mais, boa tarde a todos, obrigado por estarem presentes.” É assim que abre a conferência de imprensa antes do primeiro jogo a sério pelo Benfica — a Supertaça, que se joga no domingo, a partir das 20h45.

Antes, longe de uma das salas do Estádio do Algarve, é ele o primeiro a pisar a relva. Aparece à frente, a liderar, a apontar o caminho da comitiva do Benfica que, ao final da tarde, vai experimentar o tapete verde. Aparece sorridente, mostra muito mais os dentes ali do que diante dos jornalistas. Entra no campo, caminha com uma mão no bolso, a outra coça uma orelha antes de pentear o cabelo amansado pelo gel. Rui Vitória só para de andar quando chega perto de uma das grandes áreas. Aí separa-se um pouco dos jogadores e fica uns segundos a pensar para os seus botões enquanto olha para uma das bancadas do estádio. Está pensativo. Minervino Pietra, o adjunto, interrompe-lhe os pensamentos e mete conversa. Falam, riem-se, e aumentam a dose quando Eliseu e Samaris se aproximam. A conversa parece animada.

O treinador do Sport Lisboa e Benfica, Rui Vitória (C), conversa com (E-D) Victor Lindeloff, Konstantinos Mitroglou, Ola John e Mehdi Carcela-Gonzalez durante o passeio de adaptação ao relvado do Estádio Algarve onde será diputada a 9 de agosto a Supertaça Cândido de Oliveira frente ao Sporting Clube de Portugal, 08 de agosto de 2015, em Faro. JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Fica com eles uns dois minutos antes de voltar a dar corda às pernas. Caminha até um grupo que conta com Lindelöf, Carcela, Ola John e Mitroglou, o grego que só está entre eles há dois dias. Por cada cinco segundos de atenção que lhes dedica, de frente, gasta uns 10 ou 15 a olhar em volta, para os restantes jogadores. Faz isto constantemente, com um braço atravessado e colado ao peito, a servir de apoio ao outro que lhe leva uma das mãos ao queixo. Está a matutar alguma coisa. Olha para o relógio, repara que está ali há quase dez minutos e, por isso, começa a encaminhar-se, devagar, para o túnel de acesso aos balneários. Quando se vira de costas e se apercebe que os outros o seguem, acelera o passo. Já não sorri tanto, talvez por saber que, a seguir, vinha a conversa com a imprensa.

Está mais concentrado quando tem os jornalistas à frente. Tem o ar de quem sabe bem a responsabilidade que é estar ali, a mandar na equipa do Benfica. “Três perguntas, tenho que arquitetar bem aqui o meu cérebro”, confessa, a rir-se, quando alguém mistura três questões numa só. Tanto nessa como nas outras respostas usa as mãos como amigas. A direita, sobretudo. Ergue-a, abana-a enquanto fala, inventa gestos para reforçar palavras. Quando o tema passa a ser a confiança que nota na equipa antes da final, cerra um punho no início da resposta, abrindo os dedos por cada ponto que pretende passar. Depois, estica o indicador e usa-o para tocar três vezes na mesa enquanto sublinha “a vitória” e “a ambição” que pretender ver nos encarnados.

Oiça, o meu foco é muito grande naquilo que é o jogo de amanhã. Espero que seja um belíssimo espetáculo, que ganhe o Benfica naturalmente. O resto não me interessa para nada. Que fique claro isto: quem me conhece sabe a minha forma de estar no futebol, respeito toda a gente. Eu respondo e falo com quem quero, como quero e quando a minha cabeça decide.”

Rui Vitória apercebe-se quando os 10 minutos da conferência estão quase a terminar. Ouve uma das últimas questões com as palmas das mãos encostadas, diante do queixo. Parece que reza para não o chatearem mais com perguntas ou com o que acha sobre o que Jorge Jesus disse. Enfia alguns rodeios nas derradeiras respostas que dá, vai buscar as palavras “ambição”, “vencer”, “confiança”, as que pretender passar para os jornalistas e talvez implantar na cabeça dos jogadores. O assessor do Benfica, sentado ao seu lado, anuncia ao microfone que tudo acabou.

O treinador levanta-se, arrasta a cadeira para a posição em que a encontrou, lança o “boa tarde” de despedida para o ar. Enquanto desce do palco volta a ajeitar na gola, a mexer no último botão do pólo, vê-se está tudo bem. Rui Vitória parece querer controlar tudo o que pode dominar. No domingo não poderá fazer nada para que a bola faça o que ele quer. Estará no banco de suplentes, sentado ou em pé, a dar ordens e instruções. O resto fê-lo nos éne treinos que já teve e agora é esperar que tudo corra como quer: “Porque para ganharmos alguma coisa não podemos só querer que os outros percam.”