Que bom que é retornar a casa, vindo de longe, em trabalho, regressar e reconhecer os rostos, as vozes, reconhecer o cantos à casa, repousar o corpo cansado num lugar que é nosso, onde nos querem bem e nos sentimos bem. Foi isto que o Benfica, que os futebolistas do Benfica, terão sentido esta noite, no regresso ao Estádio da Luz. Os encarnados estiveram a pré-temporada toda longe de casa, jogaram em geografias distantes, pelas Américas, e quando em Portugal era de madrugada, lá estavam eles, os jogadores do Benfica, a correr, a suar, a preparar-se. Mas a preparação não foi boa, o Benfica não trouxe de volta a Portugal uma vitória que fosse, e quando, no Algarve, o jogo era a doer, contra o Sporting, perdeu.

Mas nem a derrota contra o rival da Segunda Circular afastou os adeptos da Luz. Bem-vindos a casa, disseram eles, muitos deles emigrantes, que, de visita a Portugal, como é comum em agosto, lá se fizeram à viagem, galgaram quilómetros e mais quilómetros de autoestrada, só para ir ver o seu Benfica jogar. O problema é que o Benfica, que Rui Vitória, na antevisão do jogo contra o Estoril, prometeu trazer de volta “aos eixos” e às vitórias, tentava jogar, tentava acertar um, dois passes, tentava atacar, uma e outra vez, mas estava lá, sempre, um jogador do Estoril, em cima, a pressionar, e nada saía bem.

Benfica: Júlio César; Nélson Semedo, Luisão, Lisandro e Eliseu; Fejsa, Pizzi, Gaitán e Ola John; Jonas e Mitroglou.
Estoril: Kieszek; Anderson Luís, Yohan Tavares, Diego Carlos e Mano; Taira, Chaparro e Babanco; Sebá, Gerson e Bonatini.

Fabiano Freitas chegou ao banco Estoril, no decorrer da época passada, substituindo José Couceiro, que foi dispensado, numa liderança, a dois, com Hugo Leal. Leal já se foi, Fabiano está só, mas berra lá para dentro, para o relvado, como se fosse dois, não quer ver o Estoril a recuar, quer, antes, o Estoril lá em cima, a pressionar a bola logo na defesa do Benfica. Os três avançados — os “velocistas” Sebá e Gerso, e Léo Bonatini, que tem apelido italiano, jogou na Juventus, mas é bem brasileiro, de Belo Horizonte – faziam-lhe a vontade, e o Benfica, invariavelmente, no começo, era useiro e vezeiro do chutão para a frente.

O jogo estava rápido, bola cá, bola lá, e Nico Gaitán, de quem se diz que está de saída, continua a ser o craque, e foi da canhota de El Mago que saíram as melhoras jogadas do Benfica. Já o Estoril tinha em Afonso Taira — um menino da linha, filho de um ex-futebolista do Belenenses, José Taira, e com o “ADN” da Academia de Alcochete nas botas –, mas sobretudo em Leandro Chaparro, apelido que podia ser alentejano, mas que o B.I. diz que é argentino, os jogadores que melhor tratavam a bola. Rui Vitória não gostava da pressão do Estoril. Sentava-se, mas logo se erguia, qual mola, do banco, cerrava o sobrolho, deitava a mão ao rosto, deixava-a pousada no queixo, e olhava, lá para dentro, sem dizer uma palavra que fosse, mas com ar de poucos amigos.

O jogo era veloz, mas longe das balizas, e só aos 22′ o Benfica cria a primeira oportunidade de verdadeiro perigo. Eliseu, que regressou hoje à titularidade, ele que foi suplente de Sílvio na Supertaça, deixou a bola, na esquerda, à beirinha da área, e o argentino Gaitán centrou-a, milimétrica, para Jonas, o Pistolas. A pólvora foi seca, e o melhor marcador do Benfica na última temporada atirou, de cabeça, por cima, mas perto, muito perto do poste direito de Pawel Kieszek.

A pressão do Estoril continuava, o Benfica não acertava nas combinações ofensivas, mas a verdade é que voltou a criar perigo aos 31′. Nélson Semedo, o menino que Rui Vitória escolheu para substituir Maxi Pereira, vindo do Benfica “B”, correu, correu que cansou só de ver, pela direita — nisso, no “pulmão”, não fica a dever nada a Maxi –, e ganhou um lançamento. Não lançou longo como o uruguaio o fazia, lançou curto, rápido, tabelou com Ola John, recebeu de volta, e desmarcou Mitroglou na área. O grego, talvez desentrosado com a equipa, talvez sem o ritmo competitivo desejado, rematou, na passada, mas Diego Carlos, o defesa-central do Estoril, evitou que a bola fosse para a baliza.

A primeira ocasião de golo do Estoril foi só aos 34′. Mano, o lateral-esquerdo, sobe no terreno de jogo, desmarca o cabo-verdiano Babanco na velocidade, e este, mais veloz que Luisão, vê-se cara a cara com Júlio César. Não tinha ângulo, mas arriscou rematar à baliza, só que Júlio César, a deslizar pelo relvado, cortou a bola no momento certo. Logo a seguir, a bola vai à barra da baliza canarinha. Foi Luisão, o capitão, de cabeça, como ele sabe, a desviá-la aos 40′. Eliseu faz um centro largo para a área, o baixinho Gaitán ganha, de cabeça, a Mano, e amortece para Luisão. O girafa rematou, mas, desequilibrado, fez a bola subir demais, e foi só um susto para o guarda-redes polaco do Estoril.

Por esta altura o Benfica já era mais dominador, tinha 65 por cento de posse de bola, o Estoril perdeu gás, pressionava menos, mas curiosamente a última chance de golo foi dos canarinhos da Linha. Bonatini arranca, em desmarcação, desde o meio-campo (o Benfica, por este altura, já tinha o quarteto defensivo subido até essa zona do relvado), recebe o passe de Chaparro, e não fosse Júlio César, à andebol, meio com os pés, meio com as mãos, a defender, e podia ter inaugurado, Léo Bonatini, o marcador. O Benfica vai para o intervalo com as orelhas a arder. Ouvem-se assobios no Estádio da Luz.

O jogo retomou numa correria doida. Bola lá, bola cá. Mas foi o Estoril, logo aos 48′, quem quase, quase marcava. Foi por um triz. A defesa de Júlio César é tremenda! Babanco, do Estoril, a jogar sobre o lado esquerdo do meio-campo, consegue chegar à linha, cruza tenso para a área, a bola foge a Luisão e a Lisandro, que bem se esticaram para a cortar, mas a redondinha vai mesmo parar aos pés de Sebá. O ex-futebolista do Porto remata, mas remata na direção de Júlio César, que desvia para longe.

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Nova jogada de perigo, só aos 68′, e para o Benfica. O jogo continuava renhido, veloz, bem disputado de parte a parte, mas, de um lançamento longo para a área, Jonas recebe no peito, rodopia, e amortece para Mitroglou. O grego queria estrear-se a marcar pelo Benfica, a bola foi-lhe para o melhor pé, o esquerdo, viu-se sozinho, com a baliza na mira, mas o remate saiu por cima. Avisou uma vez na primeira parte, outra na segunda, e à terceira marcou mesmo, Mitroglou. Foi aos 74′. Eliseu sobe pela esquerda, deixa para Nico Gaitán, que centra de canhota para a área. Surge, à ponta-de-lança, Mitroglou entre os centrais, salta mais alto, remata, de cabeça, de cima para baixo, como ditam as regras, e faz o 1-0, sem hipóteses de defesa. Os benfiquistas, nas bancadas, e os próprios futebolistas no relvado, respiraram fundo, que o jogo não estava a ser pêra doce, e fez-se, finalmente, a festa na Luz.

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O Benfica estava por cima no jogo. O público gostava do que via. Jonas falhou na primeira parte, mas, ao intervalo, recarregou as munições, e marcou, aos 78′, de grande penalidade. Pawel Kieszek adivinhou o lado, mas Jonas bateu-lhe com força, colocada à esquerda, e a bola entrou mesmo lá para dentro. A falta que deu origem à grande penalidade não tem discussão: Talisca remata, e Mattheus — que é filho de Bebeto, lenda do Brasil que venceu o Mundial ’94 — desviou a bola, na área, com a mão. O Estoril reagiu mal aos dois golos, encolheu-se, o Benfica cresceu, e Vítor Andrade, que entrou na segunda parte — e entrou bem, diga-se, o “Novo Robinho” –, centrou do lado direito para a área, Jonas salta mais alto, e desvia, de cabeça, para o fundo das redes.

Mas não era tudo, e o 4-0 chegou aos 89′. Que jogada! Vítor Andrade, de novo ele na jogada, deixa a bola para Gaitán, o abre-latas deste Benfica, que atrasa de calcanhar para Nélson Semedo. O lateral do Benfica, na área, ziguezagueia, fica de frente para Kieszek, e remata, cruzado e forte, para o golo. O passe de Nico Gaitán, sem retirar o mérito a Semedo, que se estreou na Liga, é meio golo. E que falta fará o argentino na Luz, se sair…

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O Benfica terminou o jogo sob aplausos, os assobios do intervalo não se escutavam mais, o nervosismo caiu, tombado pela canhota de Gaitán e o instinto de Jonas e Mitroglou, e os passes, que falhavam, e as pernas, que tremiam, eram, por fim, confiança e rejubilo. Bem-vindos a casa, dirão os benfiquistas, e agrade Rui Vitória, que, enfim, venceu um jogo pelo Benfica. O Estoril, pelo que fez na primeira parte e no começo da segunda, sempre pressionante, sem temores nem tremores, não ficou, certamente, feliz com a goleada que sofreu. Na próxima jornada, domingo, o Benfica vai a Arouca, e o Estoril recebe o Moreirense.