Todos os anos a vacina para a gripe é diferente. Como os vírus da gripe mudam fácil e rapidamente, a cada ano é preciso preparar uma vacina nova que seja o mais eficaz possível.  E se pudéssemos criar uma vacina que desse para todos os tipos de vírus, independentemente da estirpe ou da mutação? Ainda que numa fase preliminar, a equipa de Gary Nabel e Barney Graham, investigadores nos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, propõe uma vacina dirigida a uma região específica do vírus que sofre mutações com menos frequência.

As vacinas da gripe sazonal são preparadas anualmente com base nas estirpes mais frequentes durante a época anterior da gripe (que dura até fevereiro), porque essas serão provavelmente as mais semelhantes com as estirpes que atacarão na época seguinte (a partir de novembro), explica a plataforma online Gripenet. “A vacina contra a gripe que é produzida todos os anos não é a melhor vacina possível, mas apenas uma aproximação baseada nas estirpes do ano anterior. No entanto, sabe-se que evita o aparecimento de sintomas em 70% dos casos.”

As mutações nos vírus acontecem sobretudo nos genes que codificam a produção dos sítios onde se ligam os anticorpos – o exército de defesa do organismo -, por isso é que o organismo está pouco ou nada preparado para combater novas mutações. Os anticorpos, apesar de estarem guardados em memória, não conseguem atacar os novos vírus – é como tentar usar uma chave antiga numa fechadura que foi mudada.

A proposta da equipa norte-americana, agora publicada na revista científica Nature Medicine, é usar nanopartículas que se liguem a uma parte específica da hemaglutinina (HA) – uma glicoproteína na superfície do vírus – e depois estimular o sistema imunitário para atacar esta zona. A HA tem como principal função ligar o vírus à célula hospedeira (que ele usa para se multiplicar). É na “cabeça” desta proteína que se ligam os anticorpos, por isso os investigadores querem ligar as nanopartículas ao “pescoço”.

“Estes são resultados empolgantes, vindos de um número de investigadores muito respeitados, conhecidos pela atenção séria que dão aos pormenores”, diz Garry Lynch, professor honorário na Universidade de Sidney, num comentário ao artigo. “Mais importante, estes estudos trazem agora as provas sólidas necessárias de que os anticorpos dirigidos a áreas altamente conservadas da proteína hemaglutinina na superfície dos vírus da gripe podem conferir proteção alargada a todas as estirpes do vírus.” O especialista em antigénios (zonas reconhecidas pelos anticorpos) conservados do vírus da gripe confirma que estes resultados vêm apoiar aqueles que a sua equipa de investigação também tem alcançado.

Os investigadores norte-americanos recriaram a região conservada da hemaglutinina da estirpe H1N1 do vírus da gripe, ligaram-na a nanopartículas e juntaram um promotor da resposta imunitária. Com esta mistura vacinaram ratos e furões. Depois, inocularam os animais com uma dose potencialmente letal da estirpe H5N1 do vírus da gripe. Embora os anticorpos induzidos pela vacina não tenham sido capazes de neutralizar o vírus H5N1, a vacinação protegeu a maior parte dos animais da morte por gripe, segundo o comunicado de imprensa da Nature. Os anticorpos gerados pelos ratos serviram de vacina a outro grupo de ratos que também sobreviveu a uma infeção portencialmente letal de H5N1.

Embora impressionado com os resultados, Garry Lynch, que não participou no estudo, lembra que é preciso testar esta vacina também com outras estirpes do vírus e, naturalmente, é preciso perceber se ela funciona com humanos. “Admiravelmente, este estudo não mostra proteção completa nos furões, o modelo animal mais próximo para uma infeção e doença humana, o que sugere portanto que outros alvos são necessários.” O cientista sugere que se encontrem anticorpos, ou repostas mediadas por células, contra outras regiões conservadas (que não sofrem mutações) no vírus.

Para Garry Lynch, um dos fatores de maior relevância é o próprio sistema imunitário humano. Como os humanos já estiveram expostos ao vírus da gripe, já terão anticorpos contra aquela região específica da HA, como a equipa da Universidade de Sidney terá demonstrado. Logo, uma vacina específica para essa região, dada a humanos que até já podem ter alguns anticorpos contra ela, funcionaria de forma diferente do que num animal com um sistema imunitário virgem. “Esperamos mais desenvolvimentos maravilhosos nesta área para que uma vacina contra a gripe verdadeiramente universal seja concretizada.”