Vincent é um bebé sueco de nove meses que simboliza um laço para três gerações da sua família, diz a BBC. Ele nasceu do útero transplantado da própria avó para a mãe. A história é contada pela Associated Press.

Aos vinte anos, a mãe de Vincent desenvolveu um cancro no útero que a obrigou a retirar o órgão. Já na casa dos trinta, e depois de casar, ela e o marido decidiram que queriam ter um filho. Recorreram ao médico Mats Brannstrom, que transplantou o útero da mãe da mulher no corpo da paciente.

Entretanto, realizou-se uma fertilização in vitro (com óvulos da mulher e espermatozóides do marido) e o zigoto foi colocado no útero. À quarta tentativa, tudo correu bem: há nove meses nasceu um menino saudável.

“Não consigo descrever quão feliz estou. É tudo o que eu queria e um pouco mais”, disse a recém-mamã à Associated Press. De acordo com esta agência, o médico responsável pelo procedimento já conseguiu trazer ao mundo quatro bebés de mães que sofreram um transplante de útero. O quinto vem a caminho. Mas Vincent é especial: “é um útero que une três gerações”, sublinha.

Os cinco bebés são o resultado de uma experiência que o próprio médico iniciou há dois anos. Mats Brannstrom transplantou nove úteros e apenas dois tiveram de ser removidos. A mãe de Vincent foi a primeira mulher a participar na experiência.

De acordo com as declarações de Teresa Almeida Santos, presidente da Sociedade Portuguesa da Medicina de Reprodução, ao Observador este procedimento só é possível na Suécia e na Turquia, países onde já se terão realizado entre dez e doze transplantes bem sucedidos.

Mas será que os ovários – órgão com a função de fornecer a célula reprodutora feminina – continuam operacionais após a remoção do útero? Sim, explica a médica: “se o cancro em causa não obrigar a sessões de quimioterapia, não é necessário que os óvulos sejam congelados antes da intervenção cirúrgica”. Aos 20 anos, aliás, os ovários saudáveis raramente são removidos: “se esses órgãos tivessem sido eliminados do corpo da mulher, ela entraria em menopausa hormonal”, algo que é desnecessário se o único órgão afetado for o útero, relata a médica.

A mulher continua então a ovular, mesmo sem ter útero e, por consequência, não tem menstruação. Para onde viaja o óvulo se não existem trompas de Falópio que o encaminhem para o útero? Teresa de Almeida Santos diz que a célula é reabsorvida pelo corpo humano, à semelhança do que acontece nas mulheres que fizeram laqueação das trompas. “Quando as duas trompas são seccionadas, o óvulo também não tem modo de chegar ao útero, por isso é eliminado pelo corpo humano”, explica a médica.

Um dos cuidados a ter durante uma gravidez gerada num útero transplantado é assegurar que o feto recebe os nutrientes e a irrigação vascular suficientes para se manter saudável. O médico responsável pelo procedimento garantiu que a circulação sanguínea estava normal durante todas as gestações que acompanhou.

Texto editado por Pedro Esteves