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Castigos e sermões no caixote do lixo. Dedos em riste e palavras exaltadas também. Afinal, as birras épicas em casa de amigos podem ser resolvidas de outra forma que não a mais vergonhosa. Podem, até, ser vistas como oportunidades para ensinar algo novo às crianças. Porque esse é o verdadeiro papel do pai, que desde que o filho nasce transforma-se numa espécie de professor dos tempos modernos apto a transmitir aos mais novos ferramentas fundamentais para a vida, como a gestão de sentimentos.

É que berrar perante um prato partido ou uma parede criativamente pintada não vai resultar. As crianças só retêm as mensagens dos pais depois de acalmadas. Porquê? Porque o cérebro delas é diferente do nosso e ainda está em desenvolvimento. Não é que elas queiram portar-se mal, simplesmente não conseguem evitá-lo (salvo algumas exceções, claro).

As ideias em questão têm direitos reservados e pertencem a uma dupla norte-americana. O professor catedrático Daniel J. Siegel e a psicoterapeuta Tina Payne Bryson são os autores de um novo livro chamado Disciplina sem Dramas (Lua de Papel), um bestseller do New York Times que chega às livrarias portuguesas a 22 de setembro.  Numa entrevista dada em primeira mão ao Observador, falámos com Siegel para perceber melhor do que trata a obra que encontra na neurociência o segredo para educar os filhos de uma forma tranquila. 

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O livro custa 15,90€

Antes de mais, imagine que um leitor do Observador está a tentar ler esta entrevista mas que o filho (ou filha) de cinco anos não pára de o incomodar. Que conselho lhe daria para acalmar a criança?
(Risos) Essa questão é muito interessante. O que diria é que o pai deve falar com o filho e explicar: “Eu preciso de ler este artigo. Eu sei que queres brincar comigo, pelo que vamos brincar durante cinco minutos e, depois, vou ler o artigo. E é possível que eu queira ler-te isto, porque há coisas aqui que poderás achar muito interessantes”. Desta forma há comunicação e respeito pelo desejo do filho de estar com o pai, o que é normal. E, por outro lado, o filho aprende a respeitar as necessidades do pai.

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A julgar pelo que escreve no livro, parece que muitos pais confundem os termos “disciplina” com “punição” ou “castigo”. O que é, então, disciplinar?
Em primeiro lugar, disciplina significa ensinar e nós podemos ensinar de várias formas. Quando os pais confundem a palavra disciplina com castigo, a questão que se coloca é como é que eles podem ensinar uma capacidade. O trabalho principal de um pai é ser o professor de capacidades/habilidades. O castigo pode mudar comportamentos a curto prazo, mas não ensina uma habilidade. Castigar não ensina capacidades. Sendo o pai um professor de capacidades, seguem-se as questões: Como é que vai ensinar esta capacidade usando apenas o castigo? O que está a tentar obter ao castigar o seu filho? Todos os pais dizem “estou a tentar que eles parem com o mau comportamento”. Bem, parar o mau comportamento não é o mesmo que ensinar uma capacidade. É apenas uma solução temporária sem um objetivo a longo prazo.

Porque é que acha que há tantos pais desesperados em obter a solução a curto prazo?
Penso que eles não aprenderam outras formas de conseguir o que esperam obter. Acho que estão apenas confusos e desinformados, motivo pelo qual escrevemos o livro, na tentativa de clarificar que quando os pais pensam sobre o que querem alcançar, eles conseguem, de facto, alcançá-lo. Essa é a parte maravilhosa. Até é bastante fazível. O que queremos fazer é ensinar estas habilidades aos pais para que eles consigam transmiti-las às crianças. As crianças precisam mesmo que os pais lhes deem estrutura, precisam que os pais lhes ensinam capacidades que não têm. A disciplina é uma parte maravilhosa no processo de ensinamento.

Uma disciplina eficaz pretende alcançar dois objetivos básicos. O primeiro é, obviamente, conseguir que os nossos filhos colaborem e se comportem corretamente. (…) Com uma criança pequenina, alcançar o primeiro objetivo pode implicar ter de convencê-la a dar a mão para atravessar a rua ou ajudá-la a colocar a garrafa, que está a balançar como se fosse um taco de basebol, de novo na prateleira do supermercado. Com um filho mais velho, poderá significar descobrir uma forma de o levar a cumprir as suas tarefas a tempo e horas ou explicar-lhe o que sente a irmã sempre que este a chama ‘gorda solitária’.” (Disciplina sem Dramas, pág. 15 e 16)

No livro escreve que o cérebro das crianças não está inteiramente desenvolvido, pelo que elas nem sempre conseguem comportar-se bem e de acordo com as expetativas dos pais.
A maior parte do cérebro de uma criança não está bem desenvolvido. Aliás, o cérebro desenvolve-se até aos 20 e poucos anos — está em constante desenvolvimento. A grande questão é porque é que os pais esperam que as crianças ajam como adultos. Penso que isso acontece porque eles não estão bem informados sobre a natureza do cérebro. Em muitos sentidos, a infância tem que ver com explorar o mundo.

Então, isso quer dizer que as crianças estão absolvidas de culpa quando se portam mal?
Não diria que não são responsáveis, mas diria que os seus atos provêm de um lugar de aprendizagem, pelo que o bom comportamento, que é aquilo a que os pais aspiram, resulta de uma assimilação gradual de habilidades. Temos de ter expetativas reais.

A frustração dos pais diminui radical e drasticamente quando fazemos a distinção entre um não conseguir e um não querer. Por vezes, partimos do princípio de que os nossos filhos não querem portar-se da forma como pretendemos quando, na verdade, eles simplesmente não conseguem, pelo menos nesse momento em particular.” (Disciplina sem Dramas, pág. 44)

Imaginemos uma situação em que uma criança se recusa a sentar-se à mesa para jantar e, nessa insistência, esgota a paciência do pai. Nestas ocasiões, um pai pode escolher entre agir e reagir. Que diferença está aqui em causa?
Se o pai apenas for reativo em vez de recetivo, se apenas reagir sem estar disponível para perceber o que se passa com a criança, ela vai desenvolver aquilo a que se chama de estado reativo. Quando um pai reage, isso faz com que a criança apenas reaja de volta e não aprenda nada, fechando-se. Mas se um pai é recetivo, isso permite que o filho se relacione com a figura parental e entre no estado recetivo, ideal para receber os ensinamentos que os pais lhe querem passar.

Explicam também que o cérebro reage à ameaça. Ou seja, quando um pai fala de uma forma mais agressiva com um filho que se portou mal, o cérebro da criança vai ativar circuitos defensivos que respondem à ameaça…
O cérebro tem dois estados fundamentais. Um é chamado reativo e o outro recetivo. Quando nós ativamos repetidamente o estado reativo da criança, ativamos uma de quatro situações: a tendência para lutar (raiva), a tendência para fugir (medo), a tendência para congelar (quando paramos e não sabemos o que fazer e ficamos em branco) e, finalmente, a tendência para… uma espécie de desmaio. Se fizermos com que a nossa criança esteja num estado reativo, o mais provável é que ela lute, fuja, paralise ou até desmaie perante um sentimento de desamparo completo. Estas partes do estado reativo aumentam se pusermos o nosso filho num estado prolongado de isolamento social. Nós somos seres muito sociais e não há necessidade disso.

Ao disciplinarmos os nossos filhos no modo piloto automático, reagimos frequentemente muito mais em função do nosso estado de espírito do que em função das necessidades que o nosso filho está a sentir nesse preciso momento.” (Disciplina sem Dramas, pág. 42)

Todas essas situações em que uma criança se comporta menos bem são uma oportunidade para os mais pequenos aprenderem coisas novas, correto?
Sim. É por isso que o nosso principal trabalho enquanto pai é ser um professor em vez de um castigador. E estes momentos difíceis são, em vários sentidos, as melhores oportunidades. Em vez de olhar para as situações como um fardo, o que é terrível, os pais podem vê-las como um convite para pensar de forma criativa e amável sobre o facto de serem os professores dos filhos. Em vez de uma guerra, a situação transforma-se numa dança colaborativa. Esta simples mudança de atitude tem, na verdade, influências profundas na forma como vivemos a condição de pais.

Há uma constante ao de longo de toda a interação disciplinadora: a comunicação clara e a ligação profunda entre os pais e a criança. O relacionamento supera todo e qualquer comportamento. Contudo, ligação não é o mesmo que permissividade. Estabelecer uma ligação com os nossos filhos durante um ato disciplinador não significa deixá-los fazer tudo o que entenderem. Na verdade, é exatamente o oposto. Amar verdadeiramente os nossos filhos é dar-lhes o que necessitam; significa, em parte, impor-lhes limites claros e consistentes e, desse modo, dotar a sua vida de uma estrutura previsível.” (Disciplinar sem Dramas, pág. 21)

Mas, perante o mau comportamento continuado de uma criança, quais diria serem os principais passos que um pai deve seguir?
Nessa situação, o pai deveria falar com a criança e demonstrar-lhe a forma como as coisas devem ser feitas. E o que é bom em relação a isso é que é que possível criar uma atitude de respeito que permita à criança pensar que está habilitada a comunicar bem como o pai e a pôr em palavras o que sente. Está habilitada porque aquela pessoa, que é o pai, a respeita. Isso são tudo coisas muito importantes.

Qual é a sua opinião sobre castigos?
Se apenas dermos castigos sem ensinar capacidades, estamos a perder oportunidades. Isso é pouco produtivo e cria um estado de reatividade em vez de colaboração e conexão.

Mas existem momentos em que os castigos são utéis ou necessários?
O que quer dizer com castigo?

O facto de, por exemplo, uma criança não poder ir brincar por se ter portado mal.
Mas aí estamos a falar de uma consequência relativamente a um comportamento, uma consequência que ensina algo. Um castigo é uma experiência durante a qual se inflige dor, como pôr uma criança num quarto sozinha durante uma hora. Isso seria um castigo porque está-se a infligir dor social pelo facto de fazermos com que a criança não esteja connosco durante uma hora. Nos Estados Unidos, esta é a forma como os pais estão a usar o conceito de time out. E é demasiado. Os investigadores que os criaram queriam que os time out durassem três a cinco minutos e fossem feitos sem hostilidade — isso sim, funciona. O que acontece muitas vezes é que os time out são feitos com muita hostilidade, como um ato de desespero e não era isto o que os investigadores tinham em mente.

Os castigos e as reações são, na verdade, frequentemente contraproducentes, não só no que toca a formar o cérebro como, também, no que toca a conseguir que as crianças cooperem.” (Disciplina sem Dramas, pág. 18)

No meio disto tudo, qual a importância de uma criança aprender a gerir emoções?
Gerir emoções é uma das habilidades mais importantes que podemos ensinar a uma criança. Porquê? Porque as emoções estão no centro de tudo o que fazemos. Aprender a estar ciente das nossas emoções e geri-las são das coisas muito importantes que podemos ensinar.