Uma isolada e pequena vila, Salinas, no sul da República Dominicana, é palco de uma complexa, misteriosa e estranha manifestação da natureza e da ciência. Quem nasce rapariga morre rapaz. Sem cirurgias, trata-se de um problema científico.

Estas crianças são conhecidas, pelos locais, por “guevedoces”, que pode ser traduzido por “pénis aos doze”. Isto porque aquelas que nascem raparigas sofrem uma transformação que as torna rapazes durante a puberdade. Segundo conta o Telegraph, estes casos foram descobertos nos anos 70 pelo endocrinologista Julianne Imperato, que viajou à República Dominicana depois de ter ouvido rumores da existência deste fenómeno.

Esta situação explica-se através de uma anomalia genética rara. E ela surge pela falta de uma enzima que previne a produção de uma forma específica de hormona masculina, chamada testosterona-dihydro. Como explica o mesmo jornal, todos os bebés, por volta das oito semanas de gestação, que possuam o cromossoma Y começam a produzir esta hormona em grandes quantidades, o que leva a formação do órgão sexual masculino.

No caso dos guevedoce, a enzima que previne o surgimento da hormona não existe. Por isso nascem raparigas e com, o que parece ser, o órgão sexual feminino. E continuam assim até à puberdade, altura em que é, novamente, produzida uma enorme quantidade de testosterona provocando o nascimento do órgão masculino e tornando-lhe a voz mais grossa. Ou seja, aquilo que deveria acontecer na barriga da mãe acontece 12 anos depois.

O Telegraph recolheu alguns testemunhos de casos destes. Um deles chama-se Johnny, que também já foi rapariga, e que recorda que “costumava usar um pequeno vestido vermelho.”

Eu nasci em casa em vez do hospital. Eles não sabiam qual era o meu sexo. Eu ia para a escola e vestia a minha saia. Nunca gostei de me vestir como uma rapariga. Quando me deram brinquedos de miúdas nunca brinquei com eles. Tudo o que eu queria era brincar com os rapazes.”

Johnny refere ainda que quando mudou ficou “feliz com a vida.”

Uma pequena rapariga chamada Carly está, neste momento, a passar pelo mesmo processo. E admite, em declarações ao Telegraph, que se sente “um homem agora.”

Catherine (rapaz que manteve nome feminino) com a sua prima Carla BBC/Jon Sayers

Catherine (rapaz que manteve nome feminino) com a sua prima Carla
BBC/Jon Sayers

Quando se dá esta transformação, muitos trocam os nomes, anteriormente femininos, para nomes masculinos. Mas é comum encontrar homens ainda com nomes de mulher.