A bienal de arte contemporânea “Ano Zero” começa no dia 31 e junta nome consagrados e jovens artistas que, em mais de 20 exposições, vão dialogar com o edificado de Coimbra, reagindo à inscrição da cidade como património mundial.

Na primeira edição da bienal, vão estar mais de 40 artistas, entre os quais os portugueses Julião Sarmento, Francisco Tropa, António Olaio ou Rui Chafes, e nomes internacionais como os americanos Matt Mullican e Lawrence Weiner ou a brasileira Adriana Varejão.

A bienal, que pretende ser uma resposta da arte contemporânea à inscrição da Alta, Sofia e Universidade como património mundial, vai abordar o património, espalhando as intervenções e obras de arte por diferentes espaços e edifícios da cidade, disse à agência Lusa o diretor da bienal, Carlos Antunes.

Segundo o responsável, há a preocupação de fazer com que os edifícios em que as exposições se realizem “não sejam uma caixa branca”. Há uma adaptação das obras com o espaço onde vão estar inseridas. Durante este evento, “há várias provocações” por a arte contemporânea ser um “lugar da transgressão”, reagindo a uma classificação que “é uma inscrição tendencialmente conservadora e de cristalização do património”, sublinhou Carlos Antunes, considerando a bienal que dirige uma espécie de “cavalo de Troia à escala da cidade” – um lugar de fratura.

Ao mesmo tempo, o evento reflete também sobre a própria “fragilidade do património”, resgatando o poema do francês Mallarmé para o nome da sua edição de estreia – “Um lance de dados” – que aponta para “as questões do efémero, do acaso e do circunstancial”.

Na Sala da Cidade, o escultor Pedro Cabrita Reis destruiu “criativamente” a estrutura temporária de exposições que estava naquele antigo refeitório de frades; na Sala do Exame Privado da Universidade de Coimbra, o angolano Binelde Hyrcan apresenta uma parábola sobre as condições socioeconómicas do seu país; e Lawrence Weiner relaciona-se com o poema de Mallarmé com uma escultura que aborda a palavra, a ter lugar na Biblioteca Geral.

Na Biblioteca Joanina, surgem “provocações”, como um vídeo do falecido artista belga Marcel Broodthaers, em que este surge “a escrever um texto no seu jardim e a água transforma aquele texto num desenho”, demonstrando neste contexto “o potencial de fragilidade da Joanina”, explanou Carlos Antunes. Também nesse espaço secular, vai estar uma peça de quatro vídeos de Adriana Varejão, intitulada “Transbarroco”, em que está explícita a relação nada pacífica da artista brasileira com “o barroco e a dimensão colonial”.

Apesar de a maior parte das exposições estarem apenas em exibição até ao fim da bienal, 29 de novembro, há obras que ficam na cidade. “Não queremos que seja uma festa de outubro a novembro. Queremos deixar algo que vai transformar a cidade”, sublinhou Carlos Antunes, apontando para o caso da obra de Francisco Tropa, uma escultura que funciona como um museu.

A obra, intitulada “Museu”, com dimensões de cerca de três por seis metros, vai ser instalada junto ao Estádio Universitário, e vai ter um diretor, um conservador e um curador.

Durante a bienal, haverá ainda um encontro de colecionistas ibéricos e diversas atividades paralelas. O evento conta com um bilhete único de 15 euros. A bienal é organizada pelo Círculo de Artes Plásticos de Coimbra (CAPC), em conjunto com a Universidade de Coimbra e a Câmara Municipal de Coimbra.