Rádio Observador

Saúde

Como vive uma celíaca? Em Portugal ainda não é fácil

1.172

Viver sem glúten. É esse o desafio de um celíaco. Mas como é viver assim num país ainda pouco preparado? Uma nutricionista, também celíaca, responde a essa questão.

Rita Morais é nutricionista, mas também celíaca. Descobriu que sofria da doença em 2012.

Facebook/CMPOH

Autor
  • Leonor Santos

Comer ou não comer produtos com glúten. Podia ser mais uma dieta da moda, mas não é. Há quem não possa mesmo ingerir esta substância. Falamos de regras alimentares e de cuidados nutricionais redobrados, o contrário trará consequências graves para a saúde. Mas o que é ser celíaco e como é ser celíaco em Portugal? Embora as prateleiras dos supermercados comecem a oferecer vários produtos isentos de glúten, a verdade é que quem sofre com esta patologia pode ver-se confrontado com vários obstáculos no seu dia-a-dia.

Pensemos numa situação tão simples quanto esta: vamos almoçar fora hoje? Para um celíaco esta pergunta não tem uma resposta fácil. Em Portugal existem apenas três restaurantes e três pastelarias certificadas pela Associação Portuguesa de Celíacos (APC). Até já podem existir mais locais preparados, mas não são assim tantos.

O Observador falou com uma nutricionista, Rita Morais, da Clínica Médica e Paramédica de Oliveira do Hospital (CMPOH), que para além de ser uma profissional na área da dietética e da nutrição, também é celíaca. Com ela vamos perceber, na primeira pessoa, como é viver com uma doença que condiciona algumas escolhas, e não só na alimentação, e o que é que ainda falta fazer para que a doença não seja subestimada.

Ser celíaco

De acordo com a Associação Portuguesa de Celíacos (ACP) estima-se que a doença afete 1 a 3% dos portugueses. Apenas 10 a 15 mil casos já foram diagnosticados, mas existem muitos mais, já que esta é, segundo a associação, uma doença “largamente subdiagnosticada”. Estima-se que o número real de celíacos possa oscilar entre os 70 e os 100.000, em Portugal.

Mas o que é ser celíaco? A nutricionista Rita Morais explica o que é recorrendo para isso a duas fontes: à sua experiência profissional e às suas vivências.

Ser celíaco é ser uma pessoa igual a todas as outras, com a particularidade de ter uma doença autoimune em que o único tratamento passa pela alimentação, com a exclusão total do glúten, proteína presente em alguns alimentos, como o pão, farinhas de trigo, centeio, cevada, aveia, massas, bolos, bolachas, cereais, enchidos, etc.”.

A nutricionista conta que a certa altura da sua vida o seu organismo deixou de reconhecer o glúten como algo “normal” na sua alimentação. “É uma doença com componente genética, ou seja, nasci com o gene específico desta doença que foi ativado numa determinada altura”, explica.

rita morais

Rita Morais revela que a doença pode ocorrer em qualquer idade e alerta para uma ideia errada que leva a maioria das pessoas a confundir a doença celíaca com uma alergia ou uma intolerância alimentar. Créditos: facebook/CMPOH

“O diagnóstico é feito pelo médico de família ou outro médico, como um gastrenterologista, através de análises com anticorpos específicos, sendo que se o resultado for positivo deve ser realizada uma endoscopia com biópsia”, explica Rita Morais. A nutricionista esclareceu que por vezes pode ser necessário realizar um teste genético.

Imaginemos uma família com duas crianças, uma delas é celíaca e a outra não. Ao invés de todos os anos serem realizados estes testes com anticorpos, o teste genético pode excluir definitivamente a hipótese de ter a doença ou então revelar que é necessário ficar alerta.”

Os sintomas são diversos e transversais, pelo que muitas vezes as pessoas os confundem com outras possíveis doenças. Dores de barriga, distensão abdominal, perda de peso ou anemia, ainda o cansaço, osteoporose ou infertilidade são alguns desses sinais.

Descobrir a doença e aprender viver com ela

A nutricionista conta que descobriu a doença em 2012, depois de dar sangue. O que a levou ao médico foi o resultado das análises que mostrava uma anemia persistente e alguns sintomas gastrointestinais que se agravaram nessa altura.

Rita Morais aprendeu a viver com a doença mas considera muito importante que se fale sobre ela. “É importante sensibilizar os profissionais de saúde para os sintomas, para o diagnóstico e para a restauração perceber que somos um público que merece investimento”, alertando para os riscos da contaminação da alimentação com glúten.

Imaginem que eu vou comer a um restaurante, peço uma carne grelhada com arroz e o cozinheiro grelha a carne no local onde grelhou umas salsichas ou enchidos com glúten, ou se o arroz levou algum caldo concentrado, ou ainda se ele mexeu o arroz com o mesmo utensílio com que mexeu esparguete. Esta refeição terá glúten por contaminação cruzada”, disse a nutricionista.

Facebook APC

A doença celíaca permite uma vida praticamente normal, sendo no entanto necessário estar atento e perceber que a patologia acompanhará a pessoa durante toda a sua vida. Créditos: facebook/APC

Quando questionada sobre como é que a descoberta condicionou a sua vida, a nutricionista é clara.

“Na verdade não tem condicionado, melhorei imenso de saúde, deixei de ter anemia passado uns meses. Andava muito cansada, nunca mais voltei a ter queixas gastrointestinais e vi a minha qualidade de vida e rendimento físico a melhorarem”, disse, tentando simplificar como se vive com uma doença que rejeita o glúten na sua totalidade.

Basta cumprir o tratamento, já viram a sorte? Tratar uma doença com a alimentação. Tenho aprendido imenso com outros celíacos, com os pais dos celíacos, com a associação portuguesa de celíacos, tenho feito muita formação para nutricionistas e estudantes de nutrição, são uma peça chave no tratamento e até nos sinais de alerta para o diagnóstico da doença”, acrescentou.

A nutricionista revela que tem sido uma aprendizagem contínua, afirmando que “nem tudo é espetacular mas há sempre uma forma de dar a volta.”

Almoçar ou jantar fora? Uma tarefa difícil

A verdade é que se há uns anos ainda eram muitos poucos os produtos disponíveis para celíacos, sendo possível encontrá-los apenas nas lojas de dietética, agora os supermercados estão recheados. Mas Rita Morais alerta:

“É preciso ter muita atenção, ir às compras com calma e com tempo para podermos escolher os alimentos mais baratos, sem glúten e saudáveis, claro”, disse, relembrando que ainda assim estes produtos têm um preço muito superior aos produtos ditos “normais”.

Sobre os verdadeiros condicionalismos na alimentação a nutricionista não tem dúvidas. “É o comer fora de casa, na escola, no trabalho, em festas, aniversários, férias”, explicando que é necessário alguma planificação e uma boa dose de disposição e paciência.

Quando eu tenho um aniversário levo tudo aquilo que é habitual encontrarmos nessas festas: biscoitos, salgados e até bolo. Como e mais importante ainda, mantenho o convívio com os meus colegas e amigos”, explica Rita Morais.

Facebook APC 2

Jantar ou almoçar fora pode mesmo ser uma aventura. Há muitos locais que estão a apostar cada vez mais em menus alternativos e adaptados a todos, celíacos ou não, mas ainda são poucos. Créditos: facebook/ACP

Tento sempre marcar o restaurante com antecedência. Ultimamente recebo uma recetividade e conhecimentos diferentes, mas já tive diversas situações caricatas, mas que colocam a saúde do celíaco em jogo”, revela Rita Morais.

Sobre a nova ação da cadeia de restaurantes McDonalds, que recentemente lançou um menú adaptado a celíacos, a nutricionista considera que a empresa, embora seja uma cadeia de fast food, tentou construir uma alternativa importante.

“É menos uma refeição que em caso de SOS não terei que levar de casa ou ficar preocupada se terei onde comer ou se vou apenas comer o snack que levo na mala”, esclareceu a nutricionista.

“Portugal ainda não é um país para celíacos”

A presença ou não do glúten na alimentação começou a ser tida em conta não só pelos celíacos, mas pela população em geral. Numa altura em que se fala tanto de alimentação, do que se deve ou não deve comer, do que pode ou não ser prejudicial à saúde, as pessoas estão cada vez mais sensibilizadas para esses momentos de escolha, mas estará o país preparado? A nutricionista considera que “Para comer fora num restaurante que tenha formação e seja certificado ainda não”, mas frisa a importância de não e desistir.

Temos de continuar a passar a palavra, para continuarmos a crescer. Ainda há muito trabalho a ser feito. Ainda não somos um país para celíacos. A formação é sem dúvida a aposta. Seria um excelente passo, por exemplo, as escolas de hotelaria reforçarem a formação no que toca à doença celíaca e às alergias alimentares”, explicou Rita Morais. 

A nutricionista defende que é necessário um maior investimento, já que a maior sensibilidade para os diagnósticos mostra que a prevalência da doença está a aumentar. Rita Morais revela que contacta cada vez com um maior número de casos.

Como as pessoas começam a conhecer-me enquanto nutricionista e celíaca, contactam-me muito para esclarecer questões, para partilhar frustrações e situações positivas e para terem uma consulta de nutrição clínica sem constrangimentos porque conhecem o meu trabalho”, disse.

Facebook APC CMPOH

Rita Morais participou recentemente no 42º Encontro Nacional de Celíacos. Créditos: facebook/ACP

Ainda sobre a doença, a nutricionista considera que ela não pode ser um obstáculo.

“Não compliquem e não se isolem. Devem procurar ajuda na Associação Portuguesa de Celíacos, somos muitos a passar pelo mesmo e ainda por cima fazemos atividades espetaculares, como Encontros Nacionais, Campos de Férias”, disse Rita Morais. 

  • texto editado por Filomena Martins

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)