A troca de tiros acordou os moradores do bairro de Saint-Denis, em Paris. O barulho foi ensurdecedor durante toda a madrugada de quarta-feira – menos de uma semana depois dos atentados terroristas em França. Saint-Denis estava em pânico. Pelas seis da manhã, Hasna apareceu numa das janelas do apartamento vigiado pela polícia francesa nos subúrbios da cidade.

“Ajudem-me, ajudem-me!”, gritou. 

“Onde está o teu namorado? Onde está?”, perguntou um dos polícias.

“Ele não é meu namorado!”, replicou a rapariga.

Quando as forças de segurança irromperam pelo local logo depois, Hasna esperaria dentro do apartamento. O pedido de ajuda seria um isco para atrair a polícia que procurava um grupo terrorista naquela casa, onde estava também o cabecilha dos atentados de sexta-feira, 13. Os extremistas islâmicos preparavam novos ataques. Um dos terroristas, ainda não identificado, ativou o colete de explosivos que o envolvia. Rebentou o chão e uma parede da casa. Quando se fez explodir, também levou Hasna para a morte.

Inicialmente, acreditava-se que Hasna Aitboulahcen era a primeira mulher bombista suicida na Europa. Mas as autoridades francesas revelaram novas informações esta sexta-feira, 20. Jean-Michel Decugis, chefe do serviço da Justiça e Polícia francesa, avançou ao canal francês iTele que o bombista-suicida era, afinal, um homem. O terrorista ainda não foi identificado: “É uma informação muito importante. Contrariamente ao que tinha sido anunciado anteriormente, o bombista suicida do apartamento de Saint-Denis não era uma mulher. Hasna, que se pensa ser prima do cérebro dos atentados de Paris, não se fez explodir. Quem o fez foi um terceiro terrorista, apanhando também a mulher. Portanto, a informação de que era a primeira mulher bombista suicida em França é falsa, esta mulher não se fez explodir”.

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Hasna Aitboulahcen escondia-se naquela casa com outros terroristas do Estado Islâmico. Um deles era Abdelhamid Abaaoud, alvo da polícia, por ser o homem apontado como o estratega dos ataques sanguinários em Paris. Hasna Aitboulahcen era sua prima e terá sido uma das muitas jovens muçulmanas recrutadas pelo terrorista.

Tinha 26 anos. Nasceu a 12 de agosto de 1989, em Clichy, Hauts-de-Seine, nos arredores de Paris, depois dos seus pais, nascidos em Marrocos, se instalarem em França anos antes, em 1973. “Expressiva, cheia de vida, gostava de usar chapéus de cowboy” e a sua alcunha era “cowgirl”. A descrição que os antigos vizinhos de Hasna fazem dela ao The Telegraph não cola com a de uma jihadista. “Um pouco ignorante”, é outro dos adjetivos a que recorrem. Hasna aparecia em fotografias nas redes sociais, descontraída, numas até a tomar banhos de imersão com espuma. Também bebia álcool. Mas esses foram outros tempos. Hasna foi radicalizada entretanto e, de um momento para o outro, começou a partilhar fotografias a usar o hibaj, um véu muçulmano que deixa a face a descoberto, e que não vestia até então.

bombista suicida em Saint-Denis, Paris

A terrorista morreu em Saint-Denis, Paris

O irmão de Hasna, Youssouf AitBoulahcen, não lhe conhecia qualquer interesse pelo Corão ou por religião, de acordo com o Daily Mail. Mas há um mês Youssouf viu-a vestir o niqab, o véu muçulmano que só deixa os olhos a descoberto, pela primeira vez. Os irmãos, que estiveram cinco anos afastados um do outro, tinham uma relação difícil. “Ela estava a viver no próprio mundo. Não estava interessada em estudar a sua religião, nunca a vi abrir o Corão. Estava sempre ao telefone, no Facebook e no Whatsapp”, recordou Youssouf, falando abertamente da relação “complicada” entre ambos. Apesar de nunca terem criado muitos laços um com o outro, Youssouf diz que era uma rapariga entusiasmada com a vida, mas um pouco instável, com muitas quebras que “a puxavam para baixo”.

Mas Youssouf reconhece-lhe uma infância difícil: “Ela era vítima de violência desde miúda, maltratada e rejeitada, nunca recebeu o amor que precisava”, conta. Eram quatro irmãos: dois rapazes e duas raparigas. Quando Hasna tinha cinco anos, acabou por passar algum tempo com uma família adotiva. O irmão recorda que era uma miúda feliz nesses tempos. Mas tudo mudou na adolescência, quando descarrilou. Com 16 anos, em 2006, a sua família teve direito a um apartamento de acolhimento, disse à Associated Press, Jean-Luc Wozniak, o presidente da Câmara de Creutzwald, a cidade que faz fronteira com a Alemanha onde os Aitboulahcen ficaram instalados. “Ficou irresponsável, fugia e andava com más companhias”, recorda o irmão da terrorista.

Hasna acabou por sair da casa dos pais, em data incerta, e terá ido para Clichy-sous-Bois, o distrito parisiense que, em 2005, foi palco de vários tumultos: milhares de carros foram incendiados e vários edifícios foram destruídos. 

Hasna ia muitas vezes Creutzwald, cidade com 13 mil habitantes, para visitar o pai. Deixou lá alguns conhecidos que nunca adivinhariam a sua vida paralela: “Era extroverdida, um pouco perdida. Não parecia uma bombista suicida, até bebia álcool!”, disse um deles ao jornal Républican Lorrain. O seu pai, já com 75 anos, deixou a cidade há cerca de seis meses para regressar a Marrocos.

Mas há cerca de cinco anos que Hasna não metia os pés na cidade, pelo menos sob os olhares dos vizinhos. O site de notícias DH avança, contrariando a história contada pelo irmão de Hasna, que chegou a ver as alterações no seu perfil no Facebook desde essa época: tinha mudado e era agora uma radical.

A mudança foi, aparentemente, repentina. Ao mesmo tempo que deixou de ir a Creutzwald, apareceu nas fotografias já de véu muçulmano e a promover armas de fogo. Na sua página, também escrevia elogios a Hayat Boumeddienne, a mulher de Amedy Coulibaly, o extremista islâmico que matou várias pessoas num supermercado judeu, em Paris, logo depois do ataque ao Charlie Hebdo. Hayat Boumeddienne viajou para a Síria depois desse ataque e Hasna também terá tentado mudar-se para lá. De acordo com o site de notícias, escreveu na sua página da rede social a 11 de junho deste ano: “Irei brevemente para a Síria, em poucos dias partirei para a Turquia”.

Mas como acabou por não viajar, por razões ainda desconhecidas, terá “oferecido os seus serviços para cometer ataques terroristas em França”, disseram fontes policiais ao canal de televisão francês iTele. Integrou o Estado Islâmico, mas em território europeu. Hasna estaria sobre vigilância das autoridades francesas por tráfico de drogas e atividades terroristas.

Em França, chegou a ser manager da empresa Beko Construction, em 2013. De acordo com o The Financial Times, a empresa foi fundada dois anos antes, em Clichy-sous-Bois, e transferida para o nome de Hasna em maio de 2013. Mas apenas por sete meses, segundo os tribunais, porque acabou por entrar em falência em 2014.

“Disse-lhe para parar tudo isto, mas ela não me ouvia. Sempre ignorou todas as vezes que tentava aconselhá-la, dizia-me que não era pai nem marido dela, e só tinha de a deixar em paz”, conta ainda o irmão de Hasna. Acabou por sair de casa, há cerca de três semanas, para ir viver com uma amiga da família, em Drancy, outro subúrbio de Paris: “Nas poucas ocasiões em que conseguia falar com ela, disse-lhe para se portar melhor, para ter uma atitude melhor, e para ser mais relaxada com as roupas rígidas que passou a usar”. E acrescentou: “No domingo de manhã ela devolveu-me uma chamada que lhe tinha feito e parecia que tinha desistido da vida”.

Youssouf meteu-se no carro e apressou-se a ir ter com ela, mas esperou 15 minutos e Hasna nunca abriu a porta: “Ela telefonou-me e eu disse-lhe para não me ligar nunca mais depois da inconveniência que já me tinha causado, recorrendo a mim para nada. Desliguei-lhe o telefone na cara”. Quando ligou a TV na  quarta-feira, as notícias esmagaram Youssouf: a sua irmã fez-se explodir em nome do Estado Islâmico.

“Ela foi de um projeto de vida para outro, sem sequer se questionar”, desabafa Youssouf, sem ter muitas mais palavras.

Artigo atualizado às 18h00 de sexta-feira, 20 de novembro, face às recentes informações já confirmadas de que o bombista suicida era um homem.