Anda na boca de toda a gente mas não é para comer, dá que mascar e também tem muito que se lhe diga. O conceito na origem da pastilha elástica vem desde tempos imemoriais: há cerca de 3.000 anos os humanos já tinham o hábito de mascar resina, cera ou grão, substâncias consideravelmente diferentes da goma que hoje chegamos a mastigar durante horas a fio, com vários sabores à escolha.

A pastilha elástica faz parte de uma cultura e de um modo de viver tão enraizados que o seu poder é inquestionável. Está presente em filmes — com a personagem de Julia Roberts em Pretty Woman a ser um bom exemplo, embora fosse Kit De Luca quem mais fizesse balões –, em videoclips e letras de música como a dos saudosos Táxi que inspirou o título deste artigo, e parece ser uma amiga indispensável de várias personalidades ligadas ao desporto. Que o diga Jorge Jesus, o treinador português que parece não aguentar um jogo sem mascar uma ou várias pastilhas (e que até é capaz de uma manobra de emergência caso alguma saia disparada).

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A relação entre as pastilhas elásticas e os treinadores de futebol tem aliás vários episódios dignos de nota, o mais extravagante deles todos possivelmente o que envolve a última pastilha mascada por Alex Ferguson no derradeiro jogo à frente do Manchester United. O pedaço de pasta açucarada foi leiloado no e-bay, sendo que a base de licitação começou nuns despretensiosos 32 euros mas veio a acumular qualquer coisa como 458 mil euros.

O hábito estende-se também a figuras de Estado, com o presidente dos Estados Unidos da América a servir de exemplo. Foi em novembro de 2014 que Barack Obama irritou a população chinesa por ter mascado pastilhas elásticas durante a reunião da Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC), realizada em Pequim. O ato tido como má educação por parte do chefe de Estado fez com que muitos chineses levassem a sua indignação para o Sina Weibo, o equivalente chinês ao Twitter. E tudo por causa de uma pequena, pequenina, pastilha.

Mascas tu ou masco eu? Os benefícios

Importa, então, perguntar: porque é que mascamos pastilhas elásticas? Os motivos podem ser muitos — desde aliviar o stress a ajudar a performance numa altura de testes, mas é possível que haja quem as leve à boca só por uma questão de prazer (o que não é particularmente difícil de conceber dado os muitos sabores disponíveis, da tradicional menta à mescla de aromas em que as marcas tendem a apostar de uma forma contínua).

Comecemos pelo motivo ligado ao stress. Primeiro importa lembrar que o stress está intrinsecamente relacionado com a nossa capacidade de resposta, que pode ser de ação e de estímulo ou de fuga e contração, tal como explicava Conceição Espada ao Observador em agosto do ano passado. Já antes um conjunto de investigadores descobriu que o simples ato de mascar uma pastilha elástica é capaz de reduzir os níveis de stress. O estudo em questão data de 2008 e foi liderado pelo investigador australiano Andrew Scholey, professor de ciências comportamentais e cerebrais na Universidade de Swinburne, em Melbourne. Foi Scholey quem mostrou que o hábito de mascar conseguia diminuir a hormona do cortisol entre os participantes do estudo que, no fim, garantiram estar menos stressados e mais alerta.

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Foto: Paul Hawthorne/Getty Images

Mascar uma pastilha momentos antes de entrar numa sala de testes, pegar na caneta e folhear o enunciado com mais ou menos nervosismo pode ser também uma boa ideia. Outro estudo — desta vez da Universidade de St. Lawrence, em Nova Iorque — sugere que a pastilha ajuda a alcançar melhores classificações se for mascada antes, e não durante, uma prova. Segundo a pesquisa, mastigar a goma elástica ajuda a levar o sangue ao cérebro, o que melhora a memória. Não obstante, o efeito em causa dura apenas alguns minutos.

Mas mais do que ser vista como uma forma de estimular a performance mental, a pastilha elástica parece ser um forte aliado quando queremos tirar uma música desagradável da cabeça — daquelas cujo refrão se cola aos ouvidos e nos obriga a cantarolar uma letra básica como se não tivéssemos vontade própria. Pelo menos isto é o que adianta uma pesquisa que aponta para um fenómeno curioso: o ato de mascar pastilhas recorre ao mesmo mecanismo de audição utilizado pelo cérebro quando este está em modo replay (ou repeat).

A isso acrescenta-se o facto de a pastilha contribuir para uma sensação de saciedade mais imediata. Passamos a explicar: a comunicação entre o estômago e o cérebro demora cerca de 30 minutos a ser estabelecida, motivo pelo qual se costuma aconselhar as pessoas a comer mais devagar, explica ao Observador a nutricionista Lillian Barros. E enquanto a mensagem de que começámos a comer não chega ao cérebro, a pessoa continua de volta do prato, acreditando estar com fome. Nesse sentido, mascar uma pastilha 10 minutos antes de se iniciar uma refeição pode resultar numa transmissão de saciedade mais rápida, o que faz dela uma simpática amiga para quem está em dieta.

Dos dentes ao estômago, uma viagem de (dis)sabores

O certo é que há quem masque mais pastilhas do que o que é considerado normal, pelo que não é muito difícil de encontrar quem seja viciado na goma elástica. É o caso de Maria* que, a chegar aos 30 anos, confessa mastigar cerca de sete pastilhas elásticas por dia quando está em época de exames. Embora passe bem sem mascar o que quer que seja, assim que a altura dos estudos recomeça agarra-se ao pacote de pastilhas porque, garante, este é um hábito que a ajuda a manter-se concentrada. Maria está ciente dos riscos do seu excesso mas, em última análise, esclarece que o benefício em causa é um bem maior.

Como tudo na vida, mascar a goma que não raras vezes dá origem a um balão gigante, imperfeito e de um tom rosa ostentoso também tem desvantagens. Que o diga o dentista Diogo Pachica, que dificilmente aconselha os seus pacientes a saborear pastilhas — e não, o motivo não são as cáries, sobretudo tendo em conta que a maioria das pastilhas vendidas hoje em dia não tem açúcar. “Há pessoas que mastigam três, quatro vezes ao dia. Estão sempre a fazer a estimulação dos músculos do maxilar, pelo que ficam com a cara mais redonda”, diz o profissional de 28 anos que trabalha em Lisboa numa clínica privada. Pachica compara o trabalhar constante dos músculos do maxilar com uma pessoa que passa o dia todo no ginásio, mas não só:

É a mesma coisa com as pessoas que rangem os dentes: estimulam durante horas o que só precisa de ser estimulado uma hora por dia. O nosso corpo não foi feito para mastigar horas a fio.”

O dentista não fala apenas das consequências negativas associadas à pastilha, esta que, não sendo um substituto da escova de dentes, pode ser mastigada (de vez em quando) depois de almoço por promover a limpeza da boca. Isto porque o mascar provoca saliva que, por sua vez, vai atuar como mecanismo de defesa ao soltar a placa bacteriana, bem como os restos de comida que ficam presos entre os dentes.

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Já Ana Sofia Martins, também ela dentista, prefere fazer uma advertência, ao desaconselhar o uso de pastilhas elásticas a quem tem bruxismo (o que pode ser considerado como o ato involuntário, ou não, de ranger os dentes) e problemas na articulação e/ou oclusão (dificuldades de encaixe do maxilar).

Mas não é só ao nível dos dentes que podem surgir prejuízos, pelo menos a julgar pelo senso comum que, durante anos, associou a pastilha a problemas estomacais como as úlceras. E será que é mesmo assim? “Basicamente, o efeito [negativo] que [a pastilha] mais produz é a acumulação de deglutição de ar. Ao mascarmos estamos a engolir ar que vai para o estômago. Isso dá muitas vezes uma sensação de estômago cheio”, argumenta a gastroenterologista Lurdes Gonçalves, com 13 anos de serviço na respetiva especialidade.

Gonçalves desmistifica a ideia de que ao mastigarmos estamos a produzir ácido no estômago habituado a dissolver os alimentos que ingerimos, coisa que a médica Rosa Ferreira confirma. “Não está provada a associação de pastilhas elásticas a úlceras. A mastigação da pastilha apenas aumenta o volume gástrico devido à quantidade de líquido dentro do estômago, que diz respeito à saliva que engolimos. As pessoas que mascam têm um pouco mais de líquido no estômago, mas em termos de pH não altera nada”, assegura a também a secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia.

E o que acontece quando engolimos uma pastilha? O produto acaba por ser simplesmente digerido, diz Rosa Ferreira, contrariando o mito de que se colaria às paredes do estômago. Quanto à diarreia, esta apenas surge quando alguém passa literalmente um dia inteiro de pastilhas elásticas na boca — o que poderá, sem dúvida, dificultar a comunicação com terceiros.

Como é composta a pastilha elástica?

Regressemos aos factos históricos para, depois, tentar explicar o que ainda é um segredo bem guardado. O hábito de mastigar sem engolir não tem nada de novo e não está relacionado com qualquer tendência. Uma pesquisa na internet revela que esta é uma prática milenar associada aos maias e aos gregos que mastigavam a seiva das árvores, bem como aos nativos americanos, escreve o site Live Strong. Terão sido estes últimos que levaram a mania às bocas dos seus colonizadores — a coisa pegou e manteve-se até aos dias de hoje.

A versão comercial da pastilha elástica só chegaria mais tarde ao dia-a-dia dos comuns mortais, ao ser introduzida no estilo de vida dos norte-americanos em meados do século XIX. De lá para cá, as resinas naturais foram sendo substituídas por novos produtos, cada vez mais aperfeiçoados para durar mais tempo e saber melhor, e atualmente a goma que mascamos é sintetizada a partir de derivados do… petróleo.

É assim que entra em cena a “goma base”, à qual se adicionam aromatizantes, adoçantes e conservantes. A sua composição permanece um segredo dos fabricantes, que não são obrigados a descriminar a respetiva receita, segundo se afirma no programa A Química das Coisas, um projeto criado no âmbito do Ano Internacional da Química 2011. É por isso que, pegando numa qualquer embalagem de pastilhas elásticas, encontra-se a expressão “goma base”sem serem especificados quais os ingredientes que a compõem.

O certo é que há cerca de um ano escrevíamos que a pastilha elástica tinha semelhanças com um pneu de bicicleta e uma bola de rugby, no sentido em que utiliza — no seu estado não tóxico — borracha butílica. E caso isso lhe faça confusão, pode sempre começar a mascar pastilhas biodegradáveis, feitas à base de produtos naturais como a seiva das árvores da selva tropical maia.

*Nome fictício, esta pessoa não quis ser identificada.