Um foco de luz iluminou Miguel Araújo e alguém gritou: “És lindo!”. Trazia ao colo a guitarra – a elétrica, a sua favorita – e logo fez soar os primeiros acordes. Os primeiros de uma noite longa, com um Coliseu a rebentar pelas costuras. Soaram as palmas e António Zambujo apareceu de seguida, vindo do escuro. Tinha uma guitarra acústica e na voz uma homenagem a Amália Rodrigues, com “Foi Deus”.

E, de repente, o palco iluminou-se. “Há gente lá em cima?” Sim, havia. O coliseu dizia-se esgotado, e não era mito. Lisboa esqueceu-se da chuva e do frio por duas horas, e rumou ao Coliseu dos Recreios para o primeiro de 17 concertos dos dois músicos — amigos e companheiros de estrada, que chegam a ser confundidos à entrada dos próprios concertos. “Uma loucura”, como eles próprios lhe chamam. Mas uma boa loucura.

Após uma troca de guitarra, seguiram-se as músicas “Deusa da Minha Rua”, “Recantiga” e o público com a letra na ponta da língua. “Amanhã vou estar a pensar isto já aconteceu antes! É um déjà vu”, disse António em jeito de intervalo, referindo-se ao próximo concerto em Lisboa, já esta quinta-feira. Vieram depois “Zorro” e “José”, uma das músicas do novo disco de Miguel Araújo sobre o mais banal dos Josés, que tinha a “valência” de saber “caminha sobre as patas traseiras”. Na voz esteve António e não Miguel, que cantou em seguida “Valsa do Vai Não Vás”, composta por Samuel Úria. Sempre na companhia de duas guitarras e nada mais.

Sentados em escadas de madeira, ao lado um do outro, Miguel e António não se limitaram a tocar. Conversaram com o público e entre eles, recordaram sempre com um sorriso como tudo começou, como nasceu o gosto pela música que lhes “mudou a vida”, quando um estava ainda no Porto e o outro no Alentejo. António voltou às origens com as músicas que eram cantadas “pelos velhotes” na Adega do Sintra, em Beja, e Miguel à “música da infância” com “Don’t Think Twice It’s Alright” de Bob Dylan. Sempre descontraídos, como se o concerto fosse só mais um dos muitos serões em casas de amigos, que fizeram questão de lembrar.

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“Tu Gostavas de Mim”, escrita por Miguel para Ana Moura, falou de motociclos a vapor e do Boavista Campeão. Com perto de duas horas de concerto, não faltou tempo para homenagens a Max, ao melhor da música brasileira, a Buarque, ao cantor da “dor de corno” e a Chitãozinho e Xororó, com uma interpretação de “Rancho Fundo” de cortar a respiração. E conversa, muita conversa que, de algum modo, nunca foi demais. O público queria ouvir Miguel e António, quer fosse a cantar ou simplesmente a falar.

Numa cena (quase) inédita, António Zambujo concordou em trocar a acústica pela elétrica para uma música. “Consegui convencê-lo a tocar guitarra elétrica!”, exclamou Miguel, passando a Fender para os braços do amigo. “Valha-me São Francisco Gentil!”, deixou escapar António. Mas não precisou da ajuda do santo para “Algo Estranho Acontece”, numa versão que contou com Miguel no contrabaixo.

Em “Os Maridos das Outras”, o portuense decidiu regressar à versão original na companhia de um uquelele. Porque, afinal, o objetivo dos 17 concertos também é esse – mostrar como é que as músicas foram feitas, despedidas de outros arranjos e floreados. De seguida veio “Flagrante”, antes de Miguel e António fazerem as despedidas. Mas o público queria mais, e Miguel sentou-se ao piano. Depois de um falso “Hey Jude”, António cantou “Vem Comigo Ver os Aviões”. E ninguém resistiu. Porque há coisas que fazem sentido juntas. E Miguel Araújo e António Zambujo são uma delas.