Eduardo Stock da Cunha já pediu ao presidente-executivo do Lloyds, António Horta Osório, se o seu empregador permite que a sua comissão de serviço no Novo Banco se estenda “até ao verão” – porque até lá pode haver “alguma novidade”, indicou o gestor. Contudo, Stock da Cunha avisa que, falando na venda do banco, esperar um montante próximo dos 4.900 milhões em capital que foi injetado “não faz sentido”. Sobre a ideia de nacionalização, defendida por alguns partidos e por Vítor Bento, Stock da Cunha diz que tem “os dias ocupados a 120% com trabalho, muito trabalho“, pelo que não tem tempo para traçar cenários.

“Eu tenho a felicidade de ter a minha vida ocupada a 120% com o meu trabalho no Novo Banco”, afirmou Eduardo Stock da Cunha na conferência de imprensa de apresentação de resultados anuais, esta quarta-feira. “Tenho a felicidade de ter trabalho todos os dias, de estar num projeto fascinante. Não sou indiferente às notícias mas a minha única preocupação é cumprir os objetivos que traçámos”, acrescenta.

Stock da Cunha acrescentou: “quer o banco seja vendido ao BPI, Santander, BCP, Caixa, não perco um segundo a pensar nisso“. O presidente da comissão executiva do Novo Banco diz que “se soubesse hoje que o banco ia ser nacionalizado daqui a três meses ou vendido a esta ou aquela entidade, iriamos fazer o nosso trabalho todos os dias de igual forma”.

Um alerta feito por Eduardo Stock da Cunha é que “não faz sentido” comparar aquele que poderá ser um preço de venda da instituição com os 4.900 milhões que o Fundo de Resolução lá injetou (com 3.900 milhões emprestados pelo Estado a esse organismo). O presidente-executivo do Novo Banco recorda que não há bancos na Europa — nomeadamente na vizinha Espanha — que ainda valham o mesmo que valiam em agosto de 2014. Aliás, recorda Stock da Cunha, há bancos que viram as suas ações caírem 40% nos últimos dois meses.

Ainda assim, Stock da Cunha diz que já ouviu de Horta Osório que “em princípio” não haverá qualquer impedimento a que o gestor fique no Novo Banco mais alguns meses — já que a sua licença sem vencimento termina daqui a algumas semanas. Para isso, é claro, diz, “é preciso que o acionista queira, porque se quiser que me vá embora amanhã, vou embora já amanhã para perto das minhas filhas”.

Dívida senior: Investidores receberem ações seria “mais simpático”

Sem criticar diretamente o Banco de Portugal, Eduardo Stock da Cunha reconheceu que se aos investidores nas obrigações senior do Novo Banco tivesse sido proposto uma troca de dívida por ações isso teria sido “mais simpático”. “Mas os critérios do Banco de Portugal não são critérios de simpatia” mas, sim, aquilo que a autoridade de resolução acredita ser a melhor forma de gerir o processo.

Stock da Cunha confia que o Banco de Portugal “se tenha munido” da defesa jurídica, perante a provável litigação por parte dos donos das cinco obrigações que voltaram para o BES.

José Veiga e Cabo Verde: “Não somos justiceiros”

Eduardo Stock da Cunha mostrou-se contrariado por dedicar muita atenção ao caso da venda (fracassada) do banco de Cabo Verde. Contrariado porque, numa conferência de imprensa que durou duas horas, acabou por dedicar longos minutos a um banco que vale “0,2% dos ativos” do Novo Banco.

Proporcionalmente, “se trabalharmos 250 dias por ano, tendo em conta os ativos do Novo Banco, não deveria perder mais do que uma manhã por ano” a um ativo como o Novo Banco de Cabo Verde, cuja venda ao empresário José Veiga foi bloqueada pelo Banco de Portugal.

Stock da Cunha garante que “cada um fez o seu papel” num processo “competitivo e não-discriminatório” e que, no respeito da sua missão fiduciária, apenas cabia ao Novo Banco encontrar investidores para comprarem este ativo (como outros) ao melhor preço possível.

“Nós não somos justiceiros”, afirmou Stock da Cunha, recordando que para a venda deste ativo em particular foi contratado um assessor financeiro que encontrou vários interessados mas apenas uma oferta não-vinculativa e outra vinculativa”. A vinculativa era a de Veiga. 

Daí passou-se para a fase seguinte do processo, que era obter a aprovação das autoridades relevantes — para uma “venda de um banco não residente em Portugal a uma entidade não residente em Portugal”.  Aliás, recorda Stock da Cunha, “o que não faria sentido era nós fazermos, nessa fase do processo, um juízo sobre se gostávamos ou não de um candidato, por ser do Benfica ou por ser do Sporting, e decidir vender ou não vender conforme esse facto. Isso não se coadunaria com a nossa missão fiduciária de vender ao melhor preço”. 

De qualquer forma, “o negócio gorou-se, não vejo qualquer problema por isso. Não é da venda de um banco que vale 14 milhões que vai depender a sobrevivência do Novo Banco”, atirou Stock da Cunha.