Rádio Observador

Cancro

Será que o pó de talco causa cancro do ovário?

O talco foi associado ao risco de cancro do pulmão em pessoas que trabalham com este minério, mas a relação com o cancro do ovário ainda não está perfeitamente estabelecida. A OMS recomenda não usar.

O pó de talco é usado para absorver humidade

Austin Kirk/Flickr

Jacqueline Fox morreu em outubro de 2015, com 62 anos, vítima de cancro do ovário. A doente considerava que o aparecimento do cancro se deveu ao uso de pó de talco da Johnson & Johnson durante 35 anos. O júri do estado americano do Missouri concordou e ordenou à empresa que pagasse uma indemnização de 72 milhões de dólares (cerca de 65 milhões de euros). Mas a comunidade científica ainda não chegou a consenso sobre esta relação causa-efeito.

A meu ver a decisão do tribunal falha por dois motivos: primeiro, a evidência de uma associação causal entre o uso de pó de talco genital e o risco de cancro do ovário é fraca; segundo, mesmo que a associação fosse real, a força da associação é demasiado fraca para se poder dizer, no balanço das probabilidades, que um cancro que surja numa mulher que use pó de talco é causado por este”, afirma Paul Pharoah, professor de Epidemiologia do Cancro, Universidade de Cambridge (Reino Unido).

O investigador britânico refere que já existem estudos que pretendem estabelecer uma associação entre o uso de pó de talco e o cancro do ovário, referindo-se mesmo um aumento do risco em 20% nos casos das mulheres que usam pó de talco na zona perienal. “A associação biológica é plausível”, diz o investigador, mas refere que por enquanto os estudos ainda apresentam algum enviesamento.

“Houve um estudo epidemiológico que revelou que o talco é um fator de risco para o cancro”, diz ao Observador Daniel Pereira da Silva, presidente do Grupo Português de Estudos do Cancro do Ovário. “Mas ser fator de risco não quer dizer que provoque [cancro]”, alertou. “Não conheço nenhum trabalho que demonstre uma relação de causa-efeito entre o talco e o cancro do ovário.”

“Acho que é mais provável do que improvável que haja uma associação entre a utilização genital do pó de talco e o risco para certos tipos de cancro do ovário, mas é preciso lembrar a dimensão desse risco”, conclui Paul Pharoah. O investigador dá um exemplo: uma mulher de 20 anos no Reino Unido tem uma probabilidade de 18 em 1.000 de vir a ter cancro do ovário, em qualquer momento da sua vida. Se for real este aumento de 20% no risco, a probabilidade de ter cancro no ovário sobe para 22 em 1.000. “[Comparativamente] uma mulher com um problema no gene BRCA1 tem um risco de vir a ter cancro no ovário de 400 em 1.000.”

SANTA CRUZ DE LA PALMA, SPAIN - MARCH 03: A child plays with talcum powder on the ground during Los Indianos carnival on March 3, 2014 in Santa Cruz de La Palma, Spain. The origin of the 'Dia de los Indianos' (Day of the Indians) carnival is rooted in the emigration of people from the Canary Islands to Latin American countries, in particular Cuba, and their subsequent boastful return after discovering wealth across the ocean. (Photo by Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images)

O Carnaval “Los Indianos” de Santa Cruz de La Palma, nas Canárias, Espanha, inclui brincadeiras com pó de talco – Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images

Como evitar o cancro do ovário?

Existem vários tipos de cancro do ovário, sendo os mais comuns os cancros epiteliais – 75% dos casos -, refere Daniel Pereira da Silva. É provável que a ovulação tenha um papel central no aparecimento do cancro do ovário, mas a verdade é que ainda se sabe muito pouco sobre estes cancros e a sua origem.

“Os cancros do ovário são muito agressivos, com uma elevada taxa de mortalidade, mas são muito raros”, diz ao Observador Fernanda Águas, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia. O maior problema é que ainda não existe um rastreio para estes tipos de cancro e os sintomas não são específicos. Quando é detetado, normalmente já é muito tarde para uma intervenção.

Existem alguns fatores de proteção conhecidos para os cancros do ovário, como a pílula contracetiva, a gravidez ou o aleitamento, indica Paul Pharoah. Os fatores de risco podem estar associados à terapia hormonal de substituição, ao excesso de peso e a casos de endometriose (quando o tecido do interior do útero cresce noutras partes do corpo), refere o investigador. “Fumar está associado a um dos mais raros tipos de cancro do ovário – cancro do ovário mucinoso.”

Outro fator de risco importante são as mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 – os genes mais estudados em relação ao cancro da mama. “Há que ter particular atenção quando há casos na família, o que pode justificar medidas específicas”, refere Daniel Pereira da Silva.

O pó de talco, o amianto e o cancro do ovário

O pó de talco é feito de talco, um mineral composto por magnésio, sílica e oxigénio que absorve a humidade. Na sua forma natural, algum talco contém amianto, um carcinogénico conhecido, mas todos os produtos comerciais vendidos nos Estados Unidos estão livres de amianto desde os anos 1970, refere a Sociedade Americana do Cancro.

Numa tentativa de verificar se existe uma relação entre o pó de talco, e em particular o amianto, e o cancro do ovário, a equipa de Alison Reid, investigadora na Universidade da Austrália Ocidental, compilou os estudos publicados entre 1950 e 2008. No artigo publicado em 2011, na revista Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention, os autores concluem que não existe prova científica de que o amianto seja uma causa de cancro do ovário.

Photo taken on July 20, 2011 shows the largest talc quarry in Europe at an altitude of 1800 metres near the village of Luzenac, southern France. Talc (hydrated magnesium silicate) is a very soft mineral that is the main component of talcum powder. After being quarried, the rock is crushed into powder form and is also used in paper, plastics, cosmetics and paints. AFP PHOTO / ERIC CABANIS (Photo credit should read ERIC CABANIS/AFP/Getty Images)

A exploração de talco, o minério, em Luzenac, no sul de França. A rocha é depois esmagada em pó ou usada no fabrico de papel, plásticos, cosméticos e tintas – ERIC CABANIS/AFP/Getty Images

Em relação à associação entre a exposição ocupacional ao amianto e o cancro do estômago, existe um aumento moderado do risco, como refere o artigo publicado em 2015 na revista British Journal of Cancer. Já o risco de cancro do pulmão por exposição à inalação, no caso dos mineiros e das pessoas envolvidas no fabrico do pó, está mais bem demonstrada, refere a Sociedade Americana do Cancro. Contudo, a utilização de pó de talco por motivos cosméticos não foi associada a cancro do pulmão.

O Cancer Research UK acrescenta ainda que não há evidência científica que o pó de talco que é usado nos contracetivos, como os preservativos, aumente o risco de cancro dos ovários – e aqui o pó de talco está muito mais próximo dos ovários da mulher do que se fosse aplicado na região perineal.

Ainda assim, Daniel Cramer, epidemiologista na Universidade de Harvard, defende, desde 1982, que a exposição ao pó de talco aumenta o risco de cancro do ovário. Este investigador foi o consultor científico pago no caso contra a Johnson & Johnson, refere a Reuters. Mas os estudos em que são identificados os casos de doença e encontrados os fatores em comum, e nos quais o investigador se baseou, são muito suscetíveis ao enviesamento – é fácil que as doentes já não se consigam lembrar bem de quando e como usaram a substância (neste caso o pó de talco).

Apesar dos estudos científicos pouco conclusivos e em alguns casos quase contraditórios, a Agência Internacional para a Investigação em Cancro, da Organização Mundial de Saúde incluiu o “uso de pó de talco na região perineal” no grupo 2B, o grupo das substâncias “possivelmente carcinogénicas para humanos”. O pó de talco não é um produto de primeira necessidade, portanto quem tem dúvidas ou preocupações não o deve usar, diz, citada pela Reuters, Ranit Mishori, professora de Medicina Familiar na Universidade de Georgetown.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: vnovais@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)