A 30 de outubro de 1938, uma invasão marciana aterrorizou a Costa Leste dos EUA. Ao longo de uma hora, Orson Welles engendrara uma adaptação radiofónica muito vívida do romance de ficção científica A Guerra dos Mundos, de HG Wells. Chama-se a isto a magia da rádio. Vinte anos depois, o radialista Matos Maia atreveu-se a fazer uma versão portuguesa na Rádio Renascença. Faltava meia-hora para o programa terminar quando a PSP entrou pelo estúdio adentro e o levou preso para interrogatório. Chama-se a isto a mentira da rádio. Depende da vontade de acreditar.

“Special Correspondents”, o novo filme de Ricky Gervais que estreou esta sexta no Netflix, ziguezagueia sobre a linha ténue que separa uma coisa da outra e ainda mete a verdade a ir ao encontro de ambas. Trata-se de um remake escrito e realizado pelo britânico a partir da comédia francesa “Envoyés Très Spéciaux”, em que um repórter de rádio vaidoso (Erica Bana, a vencer a sua expressão de cepo no registo cómico) e um técnico de som falhado (Gervais com pena de si próprio) são obrigados a forjar a cobertura de uma guerra no Equador em direto, a partir de um quarto em Nova-Iorque.

A premissa é deliciosa e promete uma comédia de enganos das antigas. Porém, este que é o terceiro filme do co-criador da série “The Office”, sucede ao constrangedor “A Invenção da Mentira” e por isso vemo-lo com o coração nas mãos, um pouco como um benfiquista se sente quando o Eliseu tem a bola nos pés. Ricky Gervais faz gala de os seus filmes não serem apenas comédias, mas também um pouco críticos, um pouco trágicos, um pouco românticos. Mas é essa criação por aspersão que acaba por não acertar em coisa alguma, como aconteceu também em “A Invenção da Mentira” ou na sua série cómico-trágica “Derek”. Quando flirta com o drama, Gervais calça mocassins com berloques. Tem mau gosto. Já nos momentos cómicos é um senhor — na escrita, no timing, na direção de atores que mostra um lado hilariante de Vera Farmiga no papel da mulher oportunista de Gervais.

O filme acaba por ser pouco mais que divertido, emocionalmente descompensado e narrativamente desestruturado. Comprova-se que o homem não sabe segurar hora e meia de cinema. É que o que separa a mentira da magia, no cinema como na rádio, não é só a nossa vontade de acreditar, é também o talento para nos fazerem acreditar. E Gervais, a pisar ovos com os seus mocassins de berloques, não convence.

Ana Markl é guionista, apresentadora no Canal Q e animadora de rádio na Antena 3