A história não é minha, foi contada ao falecido crítico de cinema americano Roger Ebert por Peter Noble, editor da revista “Screen International”, e reproduzida por aquele no seu livro “Two Weeks in the Midday Sun — A Cannes Notebook”, publicado em 1987 e um dos títulos de leitura indispensável para se perceber o que é o Festival de Cannes. Reza assim: um indivíduo está sentado na esplanada de um café durante o Festival de Cannes, e pergunta a um dos empregados: “Pode dizer-me onde é a casa de banho?”. Resposta: “Monsieur! Só tenho duas mãos!” Mas quando eu cobria Cannes para o “Diário de Notícias”, sucedeu-me uma semelhante. Tinha-me conseguido finalmente sentar num restaurante cheio que nem um ovo, com fila à porta, para comer qualquer coisa a mata-cavalos antes de uma sessão de imprensa, e perguntei a um afogueado empregado que equilibrava três travessas de comida nas mãos, onde ficavam os lavabos. Responde ele, em desespero: “Monsieur, só Deus sabe!”

[Veja o “trailer” do Festival de Cannes 2016]

Todos os anos, durante cerca de duas semanas, o mundo do cinema muda-se de armas e bagagens para a cidade costeira de Cannes (este ano, o festival, na sua 69ª edição, vai de dias 11 a 22), que, sob a invasão dos “festivaliers”, como são conhecidos os que lá se instalam durante esse tempo, vê a sua população aumentar em flecha, e sobe os preços em proporção. Durante o festival de cinema, o maior, mais importante e mais influente do planeta, Cannes é a cidade mais cara da Europa. Toda a gente, do hoteleiro de cinco estrelas ao dono do restaurante manhoso e ao vendedor de comida de rua, quer lucrar o máximo nessas quase duas semanas, e não há espaço nem para um alfinete no “palace” mais luxuoso como na pensão mais suspeita.

[Veja detalhes sobre as instalações do festival]

Quem não teve o cuidado de fazer a sua reserva na devida altura – o ideal é, no final de uma edição do festival, garantir logo o quarto para a do ano seguinte – pode ter que ficar instalado a muitos quilómetros de distância do seu centro nevrálgico, o que significa um pesadelo de pouco sono e de deslocações diárias penosas. Sobretudo se se tem que estar de manhã cedo à porta do Palácio do Festival para a primeira sessão de imprensa dos filmes da Selecção Oficial, na magnífica Sala Debussy. (A célebre passadeira vermelha está reservada para as sessões de gala no Grand Théatre Lumière, onde acorrem os fotógrafos e as televisões aos cachos, bem como os curiosos e os fãs, que, atrás dos gradeamentos de segurança, esperam por vezes horas para verem as vedetas durante alguns segundos.)

[Veja a Selecção Oficial de Cannes 2016]

A organização do festival atribui aos jornalistas cartões codificados por cores. Os mais cobiçados são os brancos, dados apenas aos enviados das publicações mais prestigiadas e com maiores tiragens, ou das revistas de cinema mais conhecidas e influentes, e que lhes permitem entrar primeiro nos visionamentos e conferências de imprensa. A seguir, vêm os cartões com uma pinta cor-de rosa, entregues aos enviados das publicações diárias. Os detentores de cartões com outras cores, representantes das publicações semanais e mensais, têm que ficar a ver os “brancos” e os “cor-de-rosa” entrar primeiro e ocupar os melhores lugares, e quando chega a sua vez, correr a sete pés para apanhar os que sobraram. Isto em teoria, porque já sucedeu nalguns anos onde passavam filmes muito aguardados e que toda a gente queria ver — caso do “Fahrenheit 9/11”, de Michael Moore, no festival de 2004 — ninguém respeitar filas ou cores de cartões, instalar-se o caos e haver cenas de murro e encontrões por um lugar sentado e pessoas projetadas através de portas de vidro.

[Veja o cartaz do festival deste ano, a 69ª edição]

Se como diz o “cliché”, a primeira vítima da guerra é a verdade, no Festival de Cannes é o sono. Dorme-se muito pouco, sobretudo se escrevemos para uma publicação diária e temos que mandar serviço todos os dias. É preciso saltar da cama bem cedo, para se garantir um bom lugar nas projeções de imprensa matinais, logo às 8h30, e recolhemos sempre tarde, porque passam filmes das várias secções o dia todo, há conferências de imprensa e entrevistas, e acaba-se sempre por jantar fora de horas. E há aqueles suicidas que, à noite, vão às festas de lançamento e promoção dos filmes, e depois aparecem nos visionamentos com uma ou duas horas de sono em cima e o ar de quem saiu de uma fita de “zombies”. A meio do festival, uma boa parte dos jornalistas já dorme a sono solto nas sessões de imprensa.

[Veja uma animação sobre Cannes e os inícios do festival]

Quando escrevo que o mundo do cinema vai em peso para Cannes, não estou a exagerar. Está lá mesmo toda a gente, seja no festival propriamente dito, seja no Mercado do Filme, que decorre ao mesmo tempo e onde se comercializam todo o tipo de filmes feitos nos quatro cantos do globo terrestre, dos mais prestigiados ao lixo de série Z. Em 2015, foram vistos em Cannes mais de 1300 filmes, contando todas as projeções do festival e as do Mercado do Filme, reservadas aos profissionais do setor. Só jornalistas e críticos, estiveram presentes mais de 4500, representando 89 países. Junte-se a estes os atores, realizadores, produtores, argumentistas, pessoal da publicidade e “marketing”, exibidores, distribuidores, vendedores, etc. – sem falar nos milionários, estilistas, “playboys”, políticos, modelos e “famosos” sortidos e em vários graus que o festival atrai com mel às moscas — e temos uma autêntica Babel, mas onde toda a gente acaba por se entender porque fala a mesma língua: cinema, do mais desalmadamente comercial ao mais impenitentemente artístico.

[Veja o genérico oficial do Festival de Cannes]

Durante o festival, as três grandes publicações internacionais da especialidade, “Variety”, “Hollywood Reporter” e “Screen International”, às quais se junta a local “Le Film Français”, fazem edições diárias gordíssimas de publicidade e com mais informação do que um ser humano normal pode processar, para as quais instalam redações próprias em Cannes. E toda a cidade, com destaque para a Croisette, o longo passeio à beira-mar, fica forrada a cartazes de todos os tamanhos, feitios e qualidade gráfica, promovendo filmes de todos os orçamentos e das mais desvairadas proveniências. Há desde a mais recente superprodução de Hollywood cravejada de estrelas, até à mais obscura fita filipina de terror vale-tudo-até-tirar-olhos-fígado-e-baço, passando pela estopada de “arte e ensaio” búlgara de fazer adormecer o insone mais desesperado.

[Veja imagens do Mercado do Filme paralelo ao festival]

Nos dois últimos dias do festival, quando já passaram todos os filmes da Competição, não há quase nada para ver nas secções paralelas e só falta saberem-se os prémios e o vencedor da Palma de Ouro, o Mercado do Filme já encerrou, as festas, receções e “cocktails” acabaram e grande parte das pessoas já se foi embora, Cannes esvazia-se de “festivaliers” e torna-se uma cidade mais calma e mais humana, no meio do ambiente de gigantesca feira do cinema que se desfaz. Até os vendedores ambulantes, os saltimbancos, os “performers” de rua, as “starlets” seminuas, os pedintes, os carteiristas e os maluquinhos desapareceram, embora o férreo dispositivo de segurança se mantenha igual até ao fecho do certame. Já nos podemos sentar onde quisermos nos restaurantes, cafés e esplanadas e não temos de esperar uma eternidade pelos pedidos. Mas dormir a sério, fica para a viagem de avião de volta a casa.