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Em cima da mesa do Conselho de Ministros não há garrafas de água. O primeiro-ministro é o ex-presidente da Câmara de Lisboa. Era o que faltava haver outra marca na mesa que não a famosíssima água “del cano”. É apenas um detalhe, mas ilustra bem o nível de presença de António Costa neste Governo: vai aos mais pequenos detalhes. É um controlador. Quer saber tudo. Não só no Governo, mas também no Partido Socialista, a cujo congresso este fim de semana se dirige pela primeira vez desde que é primeiro-ministro. Esta sexta-feira discursa ao PS por volta das 22 horas na FIL, em Lisboa.

O primeiro-ministro não se fica por receber ministros em São Bento. Vai mesmo aos ministérios para reuniões com as equipas governativas, que chegam a incluir também os diretores gerais da área. É muito raro ter uma abertura de agenda, os dias estão sobrelotados. Normal para um primeiro-ministro, sim, mas pior para um primeiro-ministro que se equilibra em cima de uma nervosa geringonça? Nem por isso, até porque essa coordenação está entregue ao secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares e, por exemplo, os líderes dos dois principais partidos que dão apoio ao Governo só foram vistos por São Bento uma vez (e em separado).

Catarina Martins e Jerónimo de Sousa já se reuniram com António Costa na residência oficial do primeiro-ministro. Foi logo no início da caminhada conjunta, mas essa não é uma prática que o socialista queira manter. A coordenação da geringonça foi deixada no Parlamento “porque é no Parlamento que o acordo existe”, repete-se em São Bento. Pedro Nuno Santos foi o socialista que António Costa escolheu para ficar no olho desse furacão. Ele sim, desdobra-se em reuniões com os partidos que assinaram acordos (ou “posições conjuntas”) com o PS apenas há seis meses, tempo suficiente para o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares ter desistido das reuniões conjuntas que chegaram a estar previstas quando tudo começou.

Já se conheciam há muito no partido, mas a aproximação maior surgiu nos últimos tempos. Afinal Pedro Nuno Santos tinha as características que Costa viu como importantes para assumir o papel de coordenador da geringonça: é um socialista da ala esquerda, é leal, tem relações muito próximas com a geração que hoje está à frente do Bloco de Esquerda. Depois das eleições, quando preparava o acordo político, António Costa chamou-o para junto de si e acabou por ser Pedro Nuno a representá-lo nas reuniões técnicas que se seguiriam. O líder socialista é conhecido, entre amigos, como alguém que se rodeia de quem tem de se rodear para atingir determinado objetivo. Neste momento decisivo, calhou ser Pedro Nuno. Mas a colaboração intensa de uma determinada fase pode desaparecer se outro objetivo se sobrepuser.

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É descrito como “pragmático”, mas isso também pode criar mal entendidos. Por vezes, há alguns desses colaboradores-imprescindíveis-em-dada-fase que de repente passam para segunda linha e começam a acreditar que alguma coisa se passou. Nem por isso. Costa é assim mesmo. Precisa de ouvir muito para decidir, mas a decisão é tomada por ele, sozinho, muitas vezes sem deixar transparecer para onde vai pender durante o intenso processo até formar uma opinião.

A imagem do centralizador é a que mais se cola a Costa no Governo, mas não é unânime. E muito menos é unanimemente elogiosa. Há quem o critique por isso e ainda esta semana, no Público, o seu ex-diretor de campanha Ascenso Simões advertia que “um governo não é feito de uma só pessoa, um partido não é feito de uma só voz” e criticava a Costa, neste mesmo contexto, o facto de manter a “síndrome do alcaide”. Já quando visto em comparação com José Sócrates, Costa é percebido como um primeiro-ministro que confere algum “grau de autonomia, desde que no limite do acordo com os partidos da esquerda”. Os dossiês temáticos são apresentados pelos ministros e, muitas vezes também as soluções. A mesma fonte garante que a este nível há grandes diferenças com os governos de José Sócrates, onde o controlo era muito maior até ao nível setorial, com as soluções ditadas de cima para baixo, entre gabinete do primeiro-ministro e ministérios.

Com quem se aconselha Costa

A fórmula de apoio deste Governo saiu da sua cabeça, depois de um intrincado resultado eleitoral. Na coordenação que Costa idealizou para a “geringonça”, a ideia era haver um encontro semanal entre o Governo e as quatro forças partidárias (PS, PCP, BE e Verdes) que têm de se entender no Parlamento. No entanto, os encontros conjuntos foram muito poucos e já acabaram, sem que os participantes queiram explicar porquê. O Observador questionou o Governo e a única resposta que obteve foi que as reuniões com os parceiros parlamentares são múltiplas, “quase todos os dias”, “mas sim, bilaterias”. A geringonça funciona em três pernas, mas têm de se mover à vez para evitar tombos, por tropeção nos próprios pés.

Costa está em comunicação permanente com toda a gente, mas há um dia em que junta em São Bento o núcleo político do Governo. As reuniões de coordenação acontecem todas as terças-feiras, normalmente de manhã e contam com algumas presenças fixas, como os ministros António Vieira da Silva, Eduardo Cabrita e Augusto Santos Silva e o líder parlamentar do PS, Carlos César. Todos socialistas de primeira linha em quem Costa se habituou a confiar ao longo do percurso político. Também está sempre a ministra da Presidência do Conselho de Ministros, Maria Manuel Leitão Marques. Pedro Marques, o ministro do Planeamento e das Infraestruturas é outra presença frequente e às vezes também se junta ao grupo a secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes.

Há um trio que não falha: nem nestas reuniões, nem nos Conselhos Ministros. Pedro Nuno Santos, a secretária de Estado Adjunta do primeiro-ministro, Mariana Vieira da Silva, e a chefe de gabinete de Costa, Rita Faden. São os únicos três não-ministros que assistem às reuniões do Conselho de Ministros. As últimas duas revezam-se mesmo, no papel de sombra de Costa, onde quer que ele vá.

Mariana Vieira da Silva é a distribuidora de jogo. Está sempre com António Costa. O seu gabinete em São Bento tem janelas para o pátio da entrada do Palácio e basta levantar a cabeça para saber que Costa está a sair ou já chegou da iniciativa a), para a reunião b) e que depois tem um almoço c). Sabe tudo e, não raras vezes, acompanha o primeiro-ministro que lhe confia a coordenação de toda a comunicação do Governo. A relação tornou-se mais próxima no último ano, apesar de Mariana estar por dentro do partido e do meio político desde o berço (é filha do também governante e experimentado socialista José António Vieira da Silva). Costa chamou-a para a direção do gabinete de estudos que preparou o programa eleitoral e não mais prescindiu dela. É através de Mariana que divulga as linhas de orientação política aos vários gabinetes. Sempre que necessário, a secretária de Estado Adjunta do primeiro-ministro junta os assessores de comunicação para afinar discurso e também para antecipar problemas políticos em cada uma das áreas, que depois transmite a Costa.

É peça fundamental na rede próxima de Costa, bem como Rita Faden (está na fotografia em baixo, atrás, de casaco azul, a falar com o ministro Augusto Santos Silva) que já tinha estado com Costa na Administração Interna, onde foi diretora-geral. Mas há outra mulher central neste círculo de poder: Conceição Santos (Sãozinha no meio socialista). Foi a secretária de António Guterres, depois acompanhou Costa desde que foi líder parlamentar do partido — foi também com ele para o Ministério da Administração Interna e, entretanto, para a Câmara de Lisboa –, agora voltou a São Bento no mesmo papel de secretária pessoal, a mais próxima de António Costa (na fotografia em baixo, é a mulher que está junto do primeiro-ministro).

É neste círculo que se pensa e organiza a política de António Costa. Ao todo, no seu gabinete há 24 pessoas (uma chefe da gabinete, sete assessores, oito adjuntos, um técnico especialista e sete secretárias pessoais), de acordo com as nomeações publicadas no portal do Governo. Mas a rede de contactos de Costa é extensa e variada, muito devido ao percurso político e governativo (onde se inclui a gestão da autarquia de Lisboa). O primeiro-ministro fala diretamente com comissários europeus e líderes políticos internacionais. Para os contactos internacionais foi importante a passagem pelo Comité das Regiões, a que pertenceu enquanto autarca e onde têm assento 350 representantes (eleitos de autoridades regionais e locais) de todos os países europeus. Antes disto já tinha conhecido, por exemplo, o ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble, quando os dois foram responsáveis, nos respetivos países, pela Administração Interna.

Os dias no gabinete são de corrupio, sem buraco livre na agenda. Normalmente, António Costa chega a São Bento (quando não tem agenda fora) por volta das 9h30 e sai entre as 20h30 e as 21 horas. Recebe quase todos os dias ministros por ali, conhece todos bastante bem e é informal no trato, mas na reunião de Conselho de Ministros — que decorre semanalmente no edifício da Presidência do Conselho de Ministros — impera a formalidade. “Sr. ministro”, “Srª. ministra”. A descontração só tem lugar no intervalo para café a meio da reunião que nunca começa sem chegar o primeiro-ministro.

No gabinete, a exigência constante que faz é para que possa estar sempre em cima de tudo, sobretudo na preparação dos debates quinzenais no Parlamento, e pressiona muito os colaboradores para a ação. Dos tempos da Câmara Municipal de Lisboa há relatos de ataques de irascibilidade, sobretudo quando as questões não seguiam ao seu ritmo. No Governo tem revelado menos irritações, pelo menos ao nível do que se passava nos Paços do Concelho. Mas mantém outros hábitos desses tempos, com presenças em lançamentos de filmes e exposições ou concertos. Tudo isto extra-agenda do primeiro-ministro. Na câmara, tinha muitas vezes de marcar presença em algumas destas iniciativas, e acabou por manter esse ritmo, explica fonte do Governo.

Mas desde o início de abril que Costa não tem um fim de semana totalmente livre, embora seja raro chamar o pessoal a São Bento nestes dias. Já aconteceu, mas apenas uma vez até agora: no domingo em que anunciou a venda da participação no Banif ao Santander Totta. A dez minutos da meia-noite, o primeiro-ministro admitia, a partir da sala de imprensa da residência oficial do primeiro-ministro, que a solução do Banif “tem um custo muito elevado para os contribuintes, mas é a que melhor defende o interesse nacional”. Também não será este mês que voltará aos fins de semana calmos, ainda que se adivinhem bem menos pesados do que esse do final de dezembro. Este mês, por exemplo, vai estar no segundo jogo da seleção nacional no Europeu de futebol de 2016, em Paris, contra a Áustria, no sábado dia 18. Este fim de semana, o jogo será outro, num palco de que gosta e que ainda não pisou desde que vestiu o fato de chefe de um Governo. Não se adivinham grandes fintas, a bola socialista está, por enquanto, controlada por Costa.