Atalhemos caminho para a praia, sem toalha e bronzeador: hoje há um milagre soalheiro na cidade do Porto. É de fazer a peregrinação. Brian Wilson vai interpretar Pet Sounds do princípio ao fim. Um bordado musical cheio de pormenores e subtilezas, onde comparecem sons de campainhas de bicicletas e de latas de coca-cola. E de animais, que considera, tal como a sua mãe, terem as mesmas emoções que os seres humanos.

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Esse mesmo álbum que encerrou o período em que os Beach Boys se dedicavam ao “bonitinho”, com discos feitos de hits ao gosto estival do ouvinte. Se quisermos, há “bonitinho” em Pet Sounds mas é um “bonitinho” muito trabalhado, com muitas camadas e pormenores, unificados por um conceito ambicioso.

Quem dissesse há uns anos que Brian Wilson, com quase 74 anos, iria subir a vários palcos do globo para cumprir tamanha façanha seria internado numa cave forrada com capas de discos de James Last. Mas a verdade verdadinha é que o homem recompôs-se, mandou o psicólogo que o manipulava química e psicologicamente fazer pesca submarina, susteve os medos com adequada medicação e um relacionamento sólido e está com vontade de passar 38 minutos a recriar canções como “Wouldn´t It Be Nice” e “God Only Knows”. E, sim, outras menos famosas para o ouvinte médio, como “Hang on To Your Ego”.

Aproveitemos esta proximidade da palavra ego para desfilar umas palavras sobre o ego de Wilson — compositor, produtor, baixista — que começou por aparentar ser um surfista ligeiro e engatatão como os outros rapazes da praia mas que, a partir de certa altura, perseguiu o objectivo de dar uma pequena lição estética a um outros moços que moravam no país do tijolo: uns tais de Beatles, que cortaram a primeira fatia do bolo do seu desvario musical com Rubber Soul.

Com uma bagageira de discos para adolescentes domados por crises “como um gelado com uma bola ou duas?”, os Boys, dirigidos pela ambição de Brian, entraram no campeonato para além do pronto-a-ouvir enquanto se vai, de braço de fora, fazer umas carreirinhas e mostrar a musculatura às moças da sua idade e à professora de Biologia. Dennis e Carl Wilson, seus irmãos, o primo Mike Love e o comparsa Al Jardine, a rapaziada que o acompanhava, não alinhou logo no gesto, tiro arriscado para um grupo que vivia da previsibilidade sonora para a juventude.

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Mas Brian, devoto de jazz e ferrenho do quarteto vocal The Four Freshmen desde a infância, insistiu. Ainda só com 23 anos, pisou estúdios, experimentou soluções musicais (e LSD), chamou músicos de génio e um letrista de talento (Tony Asher), pôs as gentes a tocarem e cantarem de todas as maneiras e depois, como uma criança superdotada, começou a fazer colagens com o material capturado, criando trilhos sonoros complexos mas ao mesmo tempo amáveis e generosos. Em 1966 o álbum foi editado, fazendo o público que o acompanhava pousar, de boca aberta e escândalo, o daikiri de esplanada. E espicaçando os meninos de Liverpool a entrarem na sua feira popular psicadélica chamada Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

Depois da sofisticada caixa de bombons, ainda chegou às lojas “Good Vibrations”, soberba musiqueta que põe todo e qualquer cidadão com sentimentos a mexer o pé, seja na pista de dança seja na Loja do Cidadão. O inglês Kingsley Abbott, autor de um livro sobre Pet Sounds, em entrevista à Folha de São Paulo, conta que o disco ainda é capaz de seduzir as novas gerações não só pela sua qualidade musical incrível mas também por trazer “letras abertas, emocionais” e que falam sobre “aquele sentimento universal da adolescência, meio agridoce”.

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A vida de Brian Wilson, com picos de felicidade e euforia artísticas, foi, sabemo-lo, essencialmente acre. Numa entrevista dada depois do visionamento do filme sobre a sua vida, “Love & Mercy”, de 2014, comentou: “Achei muito difícil de assistir. Mas não foi tão mau como a minha vida”. A sombra da sua biografia começou com uma má relação com Murry Wilson, um pai severo, controlador e violento (há quem diga que a surdez parcial do músico se deve a uma sova paterna).

Sim, há uma doença psiquiátrica grave na ficha clínica deste homem californiano, habituado a dunas e areais, bem distantes dos ambientes depressivos fabris nos quais cresceram figuras trágico-geniais como um Ian Curtis. O sol não impediu os seus ataques de pânico e a sua esquizofrenia, que o fazia ouvir vozes, ter alucinações e fazer retiros caseiros de anos. Foi por isso que SMiLE, já composto durante a digressão de Pet Sounds, levou tanto tempo a sair da toca (só em 2004), seguindo-se-lhe That Lucky Old Sun (2008).

Do final dos anos 60 até aos anos 80, o inferno da doença foi crescendo e Brian como que habitou o fundo de um oceano escuro, sem raios de sol a poderem lá chegar. Agora anda pelo mundo, a cantar e tocar uma obra-prima que trabalhou com amor e obsessão. E que hoje pode fazer miúdos e graúdos entoar em uníssono o mesmo Fungagá da Bicharada. Como é que é isto se tornou possível? God Only Knows.

Nuno Costa Santos, 41 anos, escreveu livros como “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” ou o romance “Céu Nublado com Boas Abertas”. É autor de, entre outros trabalhos audiovisuais, “Ruy Belo, Era Uma Vez” e de várias peças de teatro.