Sob suspeita está o contrato de confidencialidade que o fabricante norte-americano de automóveis eléctricos obriga os seus clientes a assinar, antes de suportar parte dos custos de reparação dos triângulos da suspensão dianteira, cujas rótulas se podem desgastar prematuramente, provocando quebras e consequentes despistes. E a bolsa reagiu de imediato, com as acções a caírem ligeiramente, mas com um horizonte de maiores perdas de valor, caso se confirme a tentativa de manipulação por parte do construtor.

O Model S, de 2013, tem estado envolvido em alguns acidentes provocados por quebra da suspensão dianteira, cujas consequências variam entre o susto e ligeiros toques, noutros veículos e postes de iluminação, quando a circular a baixa velocidade em cidade, e graves acidentes, com perdas de vidas, se a deslocar-se a velocidades superiores.

Esquema em 3D da suspensão dianteira do Model S

Segundo o Tesla Motors Clus, o fórum que une os proprietários desta marca de veículos eléctricos, a situação não fica a dever-se ao uso abusivo nem à falta de manutenção, mas sim ao desgaste acelerado da rótula do triângulo da suspensão, como aliás a Tesla reconhece numa informação difundida aos serviços de manutenção dos seus automóveis, em Março de 2015, onde admitia que existia uma deterioração excessiva nas peças mencionadas, em modelos fabricados em 2012 e 2013 e, por isso mesmo, fora do período de garantia.

1027773094

O SUV da Tesla também terá, alegadamente, a necessidade de substituir a peça defeituosa

Apesar de a marca norte-americana anunciar que os seus veículos não necessitam de manutenção, os modelos envolvidos (S e X, o SUV do fabricante) precisam e muito. É que a substituição da peça defeituosa – não que a Tesla admita que há defeito, por enquanto – ronda os 3100 dólares, nos EUA. A marca mostra-se aberta a suportar metade, caso o cliente assine um contrato de confidencialidade, que curiosamente apelida de “acordo de boa vontade” (“goodwill agreement”). Nele, a Tesla obriga o cliente a pagar 150 mil dólares se comentar com alguém a situação. De acordo com o blog automóvel Daily KanBan, este documento visava evitar que os clientes contactassem a National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA), entidade americana a quem cabe receber as reclamações dos condutores e decidir sobre a sua importância e veracidade após investigação. Quando as queixas são julgadas procedentes, as multas a que os fabricantes ficam sujeitos atingem valores assustadores. Para eles, claro, não para os clientes.

Elon Musk

Elon Musk

A NHTSA anunciou que não tem recebido queixas sobre os problemas dos Tesla, mas já está a investigar o assunto, a começar pelo “goodwill agreement” imposto aos clientes. Terá sido este anúncio que levou Elon Musk, fundador da Tesla bem como da Space X, o fabricante privado de foguetões que revolucionou a indústria espacial, a afirmar que a sua marca de automóveis vai rever o texto do contrato, deixando claro que podem partilhar as queixas com a agência federal americana.

Resta saber se a investigação vai confirmar a deterioração excessiva do triângulo da suspensão e a tentativa de encobrimento. A acontecer, será mais uma dura machadada na reputação de um construtor que tem revolucionado o automóvel eléctrico. E nas suas finanças.