Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Sayeeda Warsi, antiga líder do Partido Conservador britânico, anunciou que vai deixar de apoiar a campanha do “sair”. Warsi diz que a campanha se distanciou dos pontos positivos da saída da União Europeia, e acusa-a de “ódio e xenofobia”, de acordo com o The Guardian.

Líderes da campanha do “sair” já vieram dizer que Warsi nunca foi uma apoiante ativa da campanha. Para a antiga secretária de Estado, e primeira mulher muçulmana a fazer parte de um governo britânico, o cartaz polémico da campanha do foi a gota de água.

O cartaz, lançado na última quinta-feira pelo líder do UKIP (Partido da Independência do Reino Unido), Nigel Farage, mostra uma fila de imigrantes na fronteira entre a Croácia e a Eslovénia, com as palavras “Ponto de rutura”. Em baixo, lê-se: “A União Europeia deixou-nos ficar mal. Devemos libertar-nos da União Europeia e tomar o controlo das nossas fronteiras”.

UK Independence Party Leader (UKIP) Nigel Farage poses during the launch of a national poster campaign urging voters to vote to leave the EU ahead of the EU referendum, in London on June 16, 2016. Britain goes to the polls in a week on June 23 to vote in a referendum on whether to remain in or leave the European Union. / AFP / Daniel Leal-Olivas (Photo credit should read DANIEL LEAL-OLIVAS/AFP/Getty Images)

O líder do UKIP (Partido da Independência do Reino Unido) em frente ao cartaz que fez Warsi desistir do apoio à campanha do “sair”

De acordo com Sayeeda Warsi, a imagem está a “perpetuar um conjunto de mentiras sobre quem são aquelas pessoas e para onde vão, sugerindo que estão a vir para o Reino Unido”.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

“Porque é que pessoas como eu, instintivamente eurocéticas, que sentem que a União Europeia necessita de reformas, sentem que têm de deixar o «sair»?”, questionou a antiga líder conservadora em entrevista à rádio BBC 4. “Porque dia após dia o que ouvimos é que os refugiados estão a chegar, os violadores estão a chegar, os turcos estão a chegar”, concluiu.

Numa altura em que chegam apoios ao “ficar” de várias partes, desde o magnata Richard Branson à Premier League, Warsi defende que a “campanha xenófoba e racista pode ser politicamente experiente ou eficaz a curto prazo, mas causa danos a longo prazo às comunidades”.

George Osborne, o Chanceler do Tesouro, considerou o cartaz “nojento e vil”. Nigel Farage, após as muitas críticas, já contra-atacou: “Quando desafias o estabelecido neste país, vêm atrás de ti e chamam-te todo o tipo de coisas”.

Relação tensa com o partido

A relação de Sayeeda Warsi com o próprio partido tem sido marcada por vários pontos de tensão. Na eleição para o mayor de Londres, Warsi mostrou-se publicamente contra o candidato conservador Zac Goldsmith, e garantiu que “políticas tóxicas divisionistas não devem ser permitidas para se ter sucesso, e apesar de gostar de ver um mayor que fosse um candidato conservador, foi um alívio que a sua campanha não tenha tido sucesso”.

A saída de Warsi do governo também não foi pacífica. Descontente com a política do governo em relação ao conflito Israel-Palestiniano de 2014, Warsi demitiu-se em choque com David Cameron.

Warsi deixou também fortes acusações a Michael Gove, antigo ministro da Educação britânico, e Lorde Chanceler. De acordo com a antiga líder conservadora, Gove disse “mentiras sobre o acesso da Turquia à União Europeia”.

Daniel Hannan, um dos membros do comité da campanha pelo “sair” já reagiu ao anúncio de Warsi, questionando se ela alguma vez tinha sido uma apoiante da campanha pelo Brexit. “Quando convidei Sayeeda Warsi para se juntar à campanha, ela recusou. É justo. Mas de que forma isto é uma «deserção»?”, escreveu Hannan no Twitter.

“Tive conversações bem claras em que disse que tinha preocupações sobre as pessoas que se estão agora a envolver na campanha, levando a mensagem do que o «votar sair» significava para um caminho em que eu não estava confortável. Infelizmente, essas vozes moderadas foram abafadas”, contou Warsi ao Today.

Futebol e automóveis a favor do “ficar”

Os clubes da Premier League, a principal liga profissional de futebol do Reino Unido, já anunciaram que preferem a permanência do país na União Europeia.

O presidente executivo da Premier League, Peter Scudamore, explicou: “A razão que nos levou a concluir que ficar é a melhor opção é a nossa perspectiva, pois somos exportadores globais, olhamos para fora”.

As empresas de automóveis também já se manifestaram a favor do “ficar”. Mike Hawkes, líder da associação de fabricantes de automóveis, que une os diretores da Toyota, Vauxhall, Jaguar, Land Rover e BMW, explicou que “ficar vai permitir ao Reino Unido manter a influência da qual depende o sucesso do seu setor automóvel”.

De Richard Branson, o milionário que fundou o império da editora Virgin, chega outro importante apoio ao “ficar”. Branson declarou que, “como empreendedor, tenho sido conhecido ao longo da minha carreira por correr riscos, mas sair da União Europeia não é um dos riscos que eu gostaria que o Reino Unido corresse. Não o queria como investidor, nem como pai, nem como avô. Estou profundamente preocupado com o impacto de sair”.