Nem ai, nem ui. Renato Sanches é tão sereno sobre os relvados de França quanto é sentado na cadeira do cabeleireiro, horas e horas a fio, a coser as rastas, uma por uma, com uma fina (e dolorosa) agulha de croché. Assim que chega, senta-se, coloca os auriculares nos ouvidos e pouco ou nada fala.

Gonçalo Pereira coseu-lhe as rastas vezes sem conta, pois Renato visitava-o de duas em duas semanas. Andreia Paradanta, a namorada, apenas por uma vez lhes tocou. “Houve uma vez que o Renato chegou ao cabeleireiro todo apressado, a dizer que tinha que ir jogar a meia-final da Youth League, e como eu estava a meio de um serviço, foi a Andreia a fazê-las nesse dia”, conta Gonçalo. E Andreia, menos próxima de Renato do que ele, atira: “Se há coisa que te posso dizer sobre o Renato é que o rapaz tem a cabeça ‘rija’. É que fazer rastas pode ser – e muitas vezes é — um processo longo e doloroso. Às vezes estás quatro ou cinco horas sentado, a ser picado com uma agulha e com o cabelo a ser puxado. Há uns que choram enquanto lhes cosem o cabelo. Mas o Renato nunca diz nem ai, nem ui. A única coisa que ele dizia quando eu lhe cosi as rastas era: ‘Não te preocupes, podes coser à vontade!'”

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Gonçalo cosia as rastas a Renato de duas em duas semanas no cabeleireiro Rasta Care (Créditos: D.R.)

Andreia e Gonçalo vivem hoje na remota Aldeia da Ponte, a poucos quilómetros da Guarda, mas ainda a menos da fronteira com Espanha. Dizem dela que é “o princípio do mundo” e não fim. São os dois rastafáris e, também por isso, resolveram deixar para trás o reboliço de Lisboa e mudar-se para lá. “A nossa mudança para aqui também tem a ver, claro, com aquilo em que acreditamos. Aqui, estamos mais próximos da natureza. Mas outra razão que nos levou a mudar foi o emprego. Em Lisboa, por exemplo, somos tantos a concorrer ao mesmo lugar, que muitas vezes tu não ficas com esse lugar, não por não seres capaz, mas porque olham para a tua aparência primeiro. Aqui não, aqui procuram conhecer-te e não deixam de te contratar só porque tens rastas”, explica Andreia.

Ambos têm 26 anos e fizeram as primeiras rastas, “quase por brincadeira”, ainda na adolescência. Gonçalo trabalha hoje na construção civil e Andreia num bar. Mas as rastas tornaram-se em tempos um negócio para os dois. “Nós começámos a perceber, aí por volta dos 24 anos, que isto poderia ser um negócio. Antes de vir para cá, trabalhei num cabeleireiro, o Rasta Care, mas as primeiras vezes que ganhámos dinheiro a fazer rastas até foi em festivais. Nós reparámos que nos festivais tu tinhas sempre pessoas com cartazes a dizer que faziam rastas. E pensámos: ‘Porque não fazer também?’”, relembra Gonçalo.

Mas não há um certo preconceito para com quem tem rastas? “Hoje em dia toda a gente nos procura. Já fiz rastas a uma criança de cinco anos e a uma velhota de sessenta e tal. Acho que é uma moda. Se há preconceito? Não sei. Talvez haja. Antigamente havia: dizia-se que quem usava rastas era rebelde, não trabalhava e passava o dia a fumar droga. Mas, felizmente, como cada vez mais pessoas usam rastas, o preconceito vai desaparecendo”, garante Gonçalo, que é depois interrompido por Andreia: “Espero que o Renato [Sanches] consiga ajudar a mudar essa mentalidade!”

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Antes faziam rastas diariamente. Hoje, “uma ou duas por mês” já é muito. Deixaram tudo (e Lisboa) para trás e mudaram-se para a Guarda (Créditos: D.R.)

Então, voltemos a ele. “Quando eu conheci o Renato pela primeira vez ele devia ter uns 16 ou 17 anos. E curiosamente nem foi no cabeleireiro onde trabalhava, o Rasta Care. Foi no Bairro 6 de Maio, na Amadora. Um tio dele é de lá e arranjou-nos um banquinho, o Renato sentou-se e foi aí a primeira vez que lhe fiz as rastas. Mas ele já usava rastas desde puto. Aquilo de certeza que foi começar a andar, fazer as rastas e ir para o Benfica”, graceja Gonçalo.

Renato Sanches não era, naturalmente, tão mediático quanto é hoje. O central sportinguista Rúben Semedo, que também fazia as rastas com Gonçalo, era-o bem mais à época. “Claro que ele não era a estrela que é hoje. Mas atenção: o miúdo já era uma estrelinha. Com aquela idade, ainda estava no primeiro ano de júnior e já jogava pelos bês do Benfica. Acho que ele só ia aos juniores para jogar a Youth League. E acabou a época a treinar com os seniores, ainda com o Jorge Jesus lá. Uma vez chegou ao cabeleireiro o Hélder Costa, que está emprestado pelo Benfica ao Mónaco, viu o Renato lá sentado – o Hélder é mais velho – e disse: ‘Este aqui vai ser o melhor de nós todos!’”

Durante as cinco horas que as rastas demoravam a ser cosidas, Gonçalo e Renato conversavam sobre tudo e não apenas sobre futebol. E Gonçalo recorda a “maturidade” que o adolescente Renato tinha então: “Ele, apesar de ser um puto na altura, tinha uma maturidade enorme. Lembro-me que lá no 6 de Maio, o Renato chega uma vez carregado de sacos. Ele já era patrocinado pela Adidas na altura. E distribuiu ténis, camisolas, tudo o que consigas imaginar, por amigos e pela família, que não tinham muitas posses. Isso não é a atitude de uma miúdo daquela idade; é uma atitude de adulto.”

Gonçalo não cose as rastas a Renato desde que se mudou para a Guarda. Mas continua a acompanhá-lo de perto, pelos jornais e pela TV. “Quando conheci o Renato pela primeira vez eu sabia mais ou menos quem ele era. Porque já havia uns vídeos dele no YouTube. E fiquei muito contente por o Rui Vitória ter apostado nele. E o Ancelotti também vai apostar; aliás, ele já disse que o Renato era o melhor deste Euro. O Fernando Santos é que, enfim, foi um bocadinho teimoso e só apostou nele agora. Mas ainda vai a tempo. Honestamente? Ele é um craque do caraças, pá. E ele sempre me disse que tinha este sonho de chegar ao plantel do Benfica e à Seleção.” Gonçalo só tem um amargo de boca quando fala de Renato Sanches: “Eu sou do Sporting, e disse-lhe muitas vezes para ele mudar de clube, que ainda ia muito a tempo. Mas ele não mudou…”, graceja.

Andreia não sabe se Renato é rastafari como eles ou não. Mas lembra: “Eu acho que, para os Rastafaris, e ao contrário do que as pessoas possam pensar, as rastas acabam por ser um símbolo de união, de amor universal, de tolerância e de empatia pelo outro. Ele [Renato Sanches] até pode não ser um rastafari como nós, mas com o imenso amor pelas rastas dele, que têm de estar sempre impecáveis, já é um bocadinho.”