No relvado da Alameda Dom Afonso Henriques, onde no último mês milhares de pessoas assistiram aos jogos de Portugal no Euro 2016, três coisas testemunham a festa do futebol de ontem à noite: pauzinhos de gelados, cascas de tremoços e caricas de cerveja. Agora, a menos de uma hora da chegada dos campeões nacionais ao Palácio de Belém, prepara-se a receção dos jogadores. Às 11h30, quando o Observador chegou ao Estádio Sagres, não havia mais do que 20 pessoas à frente do ecrã de transmissão. Quarenta minutos depois já se tinha perdido a conta. E isto torna tudo mais caótico para os responsáveis pelo espaço.

Quem lá chegou cedinho, alguns até sem dormir, foi munido de bandeiras (o vento estava favorável), cachecóis, vuvuzelas, um pano para deitar no chão e mochilas cheias de sanduíches, águas (estão 26ºC em Lisboa) e bolachas. É o caso de João Pinto — e os amigos riem-se, porque o nome é futebolisticamente sonante –, Carlos de Jesus, Valdemar Brito, João Boto, David Santos e Lucas Pereira. Todos têm entre 15 e 17 anos, com exceção de Lucas, que estuda Geografia em Lisboa. Os mais novos não têm muita memória do Euro 2004, o campeonato que Portugal organizou, mas em que morreu na praia frente à Grécia. Só mesmo João Boto é que tem uma memória vaga daquele 4 de julho: “Lembro-me de chorar, estava triste, mas só tinha três ou quatro anos”.

Já a expressão de Lucas, que já tem 22 anos, muda assim que lhe perguntamos o que simboliza esta vitória para ele: “É uma vingança, era como se estivesse escrito nas estrelas. E tudo bate certo: os penáltis com a Polónia fizeram lembrar aqueles com a Inglaterra, o golo do Ronaldo com o País de Gales é igual ao que ele marcou em 2004 com a Holanda e agora o facto de termos ganho frente ao anfitrião”. Aquilo de Ronaldo ter chorado outra vez é que não tem piada nenhuma, concordam todos. “Não sei quem pode substituir o Cristiano quando ele sair”. O Renato?, perguntamos-lhe. “Não, não exageremos. Ele é muito bom, mas o Ronaldo é insubstituível”, diz Valdemar Brito. E agora, o que vem agora? João Pinto dá uma gargalhada: “Então, agora é repetir isto tudo no Mundial de 2018”.

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O grupo de amigos, trajados a rigor. Créditos: Observador.

Mesmo ao lado deste grupo de amigos, uma mãe fala com a filha, toda vestida de cor-de-rosa. “Vês, filha? Portugal foi mesmo campeão”. Tem três anos. A mesma idade com que João Boto chorou quando Portugal perdeu frente à Grécia. Desta vez, dá para fazer a festa: “Eu sou brasileira, mas ela é portuguesa e sentiu tudo. Percebeu o que se passava por causa da agitação dos vizinhos, das buzinadelas. Por isso trouxe-a até aqui para ver os heróis dela. Mas não sei se posso esperar tanto tempo”, explica a mãe.

Um agente da PSP destacado esta segunda-feira para garantir a segurança na Alameda diz que tudo se complicou quando foram anunciadas as alterações no mapa de festejos da seleção. Inicialmente, a equipa partiria do aeroporto diretamente para a Alameda e daí para o Estádio Nacional, onde acabaria a festa. Mas com Marcelo Rebelo de Sousa a receber os jogadores portugueses ainda hoje (e não terça-feira, como estava combinado) os planos tiveram de ser alterados. “Está a ser caótico”, diz a PSP.

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São cada vez mais os portugueses que preparam um piquenique aqui na Alameda, muito próximos ao palco que está a ser montado para a equipa nacional. Créditos: Observador.

A seguir ao aeroporto, a selecção segue para o Palácio de Belém. Depois, rumarão de autocarro pela Avenida da Índia, Avenida 24 de Julho, Avenida Infante Santo, Estrela, Largo do Rato , Marquês de Pombal (onde ontem se fez a festa nacional), Avenida da Liberdade, Restauradores, Praça do Rossio, Praça da Figueira, Martim Moniz, Avenida Almirante Reis e, por fim, Alameda Dom Afonso Henriques (veja aqui o mapa).

Esta mudança de planos baralhou o horário da organização, que explicou ao Observador que a seleção deve chegar ao ponto final da festa a partir das 15h30. O autocarro vai parar atrás do ecrã gigante, obrigando o metropolitano de Lisboa a encerrar a saída mais próxima da Fonte Luminosa. As estradas que ladeiam a Alameda também vão estar encerradas. O palco para onde os jogadores nacionais vão subir está agora a ser preparado: os cães farejadores e os polícias de operações especiais já estiveram no local em busca de explosivos e de indícios de perigo, mas nada preocupou as autoridades. Entretanto, foi também composto um perímetro de segurança em redor do ecrã gigante, com uma grade anti-pânico que mantém o público a apenas dois metros dos heróis do futebol nacional. Daqui, a equipa pode seguir para o Estádio Nacional para acabar a festa, informa a PSP, mas ainda não há confirmação oficial.