Só no ano passado, morreram 189 pessoas devido a fadiga laboral no Japão. Trata-se de um fenómeno tão comum que até há um termo para o descrever: karoshi, ou seja, a morte por trabalho excessivo.

Em 2014, o governo japonês lançou algumas medidas para tentar combater esta causa de morte, mas sem sucesso. Os números oficiais do Ministério do Trabalho japonês apontam para 189 mortes, incluindo suicídios, devido a excesso de trabalho. Especialistas, contudo, apontam para números reais muito maiores, na ordem dos milhares.

Apesar de agora se estar a registar uma subida nos números, o problema do karoshi já terá sido pior. As décadas de 70 e 80, lembra o El Mundo, ficaram marcadas pelo boom económico japonês. Nesse tempo, estima-se que cerca de 10 mil pessoas morriam anualmente devido ao excesso de trabalho, embora não haja números oficiais relativos a este período.

“O governo organiza conferências e afixa cartazes sobre o problema, mas é propaganda. A questão real é reduzir as horas de trabalho e não estão a fazer o suficiente”, explica Hiroshi Kawahito, secretário-geral do Conselho Nacional de Defesa de Vítimas de Karoshi, à Agência Reuters. O responsável põe em causa a veracidade dos dados oficiais divulgados pelo governo, apontando para números muito superiores.

TO GO WITH STORY "FINANCE-ECONOMY-JAPAN-HEALTH-PSYCHOLOGY" by PATRICE NOVOTNY Japanese lawyer Hiroshi Kawahito speaks at a press conference in Tokyo on October 17, 2008, while a portrait of Japanese nurse Ai Takahashi, a victim of "karoshi" or death by overwork is displayed. Pushed to their limits, thousands of Japanese are literally working themselves to death each year, a scourge the Asian power has started to address but is seen getting worse in the global economic crisis. AFP PHOTO / JIJI PRESS (Photo credit should read STR/AFP/Getty Images)

Hiroshi Kawahito é um advogado japonês e tem sido um dos principais rostos da luta contra o karoshi. (STR/AFP/Getty Images)

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Vários fatores contribuem para este problema. Primeiro, a legislação, que permite que, através de um acordo entre funcionários e patrões, se possam fazer horas extraordinárias sem nenhum tipo de limite.

Por outro lado, a própria mentalidade japonesa privilegia o trabalho. “A norma social no Japão estipula que os trabalhadores deem prioridade às suas responsabilidades laborais, acima da família ou das obrigações comunitárias”, disse à Reuters a especialista em saúde Rika Morioka.

Quem trabalha mais e quem trabalha menos?

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  • México – 2.246 horas
  • Costa Rica – 2.230 horas
  • Coreia do Sul – 2.113 horas
  • Grécia – 2.042 horas

  • Portugal – 1.866 horas

  • Japão – 1.719 horas

  • Dinamarca – 1.457 horas
  • Noruega – 1.424 horas
  • Holanda – 1.419 horas
  • Alemanha – 1.371 horas

Horas anuais. Dados de 2015 da OCDE

As estatísticas oficiais revelam que, por cada pessoa que se quer incorporar no mercado de trabalho japonês, existem 1,28 empregos disponíveis. Mas o Japão não é o país em que se trabalha mais, revelam os dados da OCDE, estando até abaixo de Portugal na lista dos países em que se passa mais horas no emprego (ver caixa).

A Watami Foodservice, uma cadeia de restaurantes, é um dos casos mais conhecidos pelo karoshi. Pelo segundo ano consecutivo, a companhia foi a vencedora do “Prémio para as Empresas Negras”, atribuído por um grupo de jornalistas, ativistas e professores universitários às piores empresas do país. A cadeia de restaurantes reuniu 72% dos votos dos especialistas, que analisaram critérios como excesso de horas de trabalho, abusos de poder, salários baixos, hostilidade em relação aos sindicatos, a recusa em pagar horas extraordinárias ou a arbitrariedade em relação aos funcionários temporários.

Depois de, em 2008, uma funcionária da Watami Foodservice, Mina Mori, de 26 anos, se ter suicidado, a companhia nunca mais se livrou da fama. Mina tinha trabalhado durante dois meses a fazer 140 horas extraordinárias por mês. A empresa recusou encontrar-se com os pais e pedir-lhes perdão, até dezembro de 2012, altura em que pagou à família uma indemnização de 970 mil euros.

Texto editado por Filomena Martins