O Programa Integrado para a Redução da Mortalidade Materna e Infantil (PIMI), em curso desde 2013 nas regiões sanitárias de Cacheu, Biombo, Oio e Farim, termina este ano.

“Depois do fim, há a previsão de que se retome este projeto em meados do próximo ano, mas alargando e uniformizando a intervenção a todas as regiões da Guiné-Bissau. Foi um desafio que a própria União Europeia nos lançou e acho que vamos aceitar o desafio, mas há entraves”, disse à agência Lusa o administrador executivo e diretor de projetos do Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF).

Ahmed Zaky afirmou que a Comissão Europeia (CE) está disposta a financiar o projeto com 12 milhões de euros, montante que pode ser ampliado, mas recordou que o órgão executivo da União Europeia só financia a 80%. Normalmente, recordou, o IMVF conta com a parceria da cooperação portuguesa para financiar os 20% que faltam. Na primeira fase do projeto, o instituto contou com um financiamento de quase quatro milhões de euros da CE, e obteve o apoio do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua e da Fundação Calouste Gulbenkian para o restante.

No entanto, Zaky teme que o desinvestimento português na cooperação impeça um apoio equivalente do Camões na próxima fase. “Coloca-nos sob uma pressão financeira bastante grande para complementar o necessário para ir a jogo e aceitar este desafio. Supondo um programa de 12 milhões de euros, nós tínhamos de garantir dois milhões de euros”, afirmou.

O IMVF admite solicitar o apoio de outros países, mas Zaky afirma: “Seria uma pena não associar a cooperação portuguesa a um programa desta envergadura”. Recordou que a ex-primeira-ministra Margaret Thatcher dizia que cada libra investida na cooperação trazia duas libras para a economia britânica e sublinhou que neste projeto, financiado a 80% pela CE, todos os produtos e bens são adquiridos a empresas portuguesas. “Desde as viagens aos equipamentos e consumíveis, às pessoas recrutadas, que são todas portuguesas. Isto em termos de retorno para a economia… Sem falar da responsabilidade histórica [de Portugal]”, disse.

Iniciado em julho de 2013, o PIMI visa melhorar os cuidados de saúde prestados a grávidas, puérperas e crianças até aos cinco anos, com vista a reduzir as taxas de mortalidade materna e infantil, “que sao aberrantes”, disse Ahmed Zaky.

Segundo o último relatório da UNICEF, com dados de 2015, a Guiné-Bissau está entre os 15 países com maior mortalidade infantil, com 93 crianças a morrerem antes de completarem cinco anos em cada 1000 nados vivos, enquanto a taxa de mortalidade materna aponta para 549 mortes em cada 100 mil nascimentos.

Perante “indicadores de saúde que estão entre os piores do mundo”, o PIMI passou pela formação de mais de 230 profissionais de saúde em várias áreas, como cesariana ou ecografia obstétrica, disse Zaky.

“Conseguimos que as pessoas se apropriem da intervenção. Que saibam que não é só um ato, mas que o ato clínico tem de ter qualidade, tem de ter sentido”, acrescentou. O programa passou também pela reabilitação e equipamento de unidades de saúde, nomeadamente centros de saúde e hospitais. “Estamos a falar de infraestruturas sem agua e sem luz. Tínhamos de inventar inovações”, exemplificou Zaky.

Médico de profissão, o administrador do IMVF disse que antes do PIMI “só havia um banco de sangue” para toda a população da Guiné-Bissau, de 1,7 milhões de pessoas. “Quando 42% da mortalidade materna era por hemorragia pós-parto, [a questão do banco de sangue] era uma das coisas chocantes que tínhamos de resolver”, contou Zaky, que lembrou as dificuldades de fazer funcionar bancos de sangue sem água e sem luz e de contornar as crenças à volta da doação de sangue.

A utilização de painéis solares e a sensibilização da equipa nacional de futebol para participar numa campanha de apelo à doação de sangue foram algumas soluções encontradas. “É um esforço em várias frentes, mas sempre com um fio condutor: desbravar e eliminar todos os fatores que impedem ou dificultam o acesso aos cuidados de saúde materno-infantis para as crianças, as grávidas e as mães no pós-parto para conseguirmos no fim diminuir as taxas de mortalidade”, afirmou o responsável. Num balanço dos três anos de projeto, o administrador disse que o PIMI “foi uma intervenção que colheu muito bem”.

Sediado em Lisboa, o IMVF é uma organização não-governamental para o desenvolvimento com 64 anos que trabalha em todo o espaço da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa em setores como a saúde, a educação e a segurança alimentar.