Depois de um mandato presidencial de coabitação com o PAICV, se for reeleito, Jorge Carlos Fonseca encontrará um cenário político dominado pelo partido que o apoia (MpD), mas assegura que a sua voz será “sempre autónoma e crítica”.

Com a vitória por maioria absoluta do Movimento para a Democracia (MpD) nas legislativas de março e a recente conquista de 18 das 22 autarquias do país, crescem em Cabo Verde os alertas para os riscos de “colocar os ovos todos no mesmo cesto”.

Em entrevista à agência Lusa, Jorge Carlos Fonseca puxa do percurso político de independência, que passou pelo então PAIGC, pela fundação do MpD e pela dissidência deste, para lembrar que há quase 20 anos que não faz parte de nenhum partido.

“Sendo independente, seria independente com qualquer Governo. O MpD sabe disso. O presidente do MpD e chefe do Governo sabe disso. A minha voz será sempre uma voz autónoma e crítica sempre que necessário”, assegura Jorge Carlos Fonseca.

O atual chefe de Estado, que em 2011 alertava para os riscos de concentração de poderes de uma força política em todas as instâncias, assegura que mantém a mesma posição.

“Há um equívoco que se traduz em pensar que Jorge Carlos Fonseca está no mesmo cesto que o Governo. Não, sou uma personagem independente. Sou muito cioso da minha independência, mas naturalmente que na vida e na política todos temos as nossas opções, as nossas afinidades e proximidades, e o MPD é o partido que me apoiou desde o princípio”, adiantou.

“É preciso sobretudo neste contexto, ter alguém que possa ser um fator de equilíbrio”, reforçou.

Para Jorge Carlos Fonseca, o sistema político cabo-verdiano “é aparentemente sólido e consistente”, mas o país é uma “democracia recente” e “é preciso quem, sendo autónomo e independente, sempre que necessário, ponha em exercício mecanismos de equilíbrio, moderação e arbitragem, para que não haja qualquer derrapagem”.

Jorge Carlos Fonseca admite, no entanto, que se houver um contexto político, “que facilite o diálogo e a cooperação, tanto melhor”.

“Se tiver condições para um diálogo permanente, construtivo, se for facilitado esse tipo de trabalho ou tarefa do Presidente, ótimo. Depois, há desafios, há problemas, as coisas não acontecem sempre como a gente as idealiza, por isso o Presidente da República tem que estar sempre munido dos instrumentos de que dispõe, e usá-los: a palavra, o diálogo permanente com os cidadãos, a crítica, o acompanhamento, a informação e, caso necessário, a fiscalização da constitucionalidade, o veto político, o veto constitucional”, avisou.

O atual chefe de Estado, com mandato suspenso por causa da recandidatura, adiantou que o Governo tem o “caderno de encargos evidente” dos compromissos e promessas eleitorais e prometeu atenção ao seu cumprimento.

“O MpD ganhou as eleições com um programa que prevê um crescimento da economia de 7 por cento até ao fim do mandato, redução do desemprego jovem, da insegurança, promoção do investimento direto estrangeiro, crescimento do turismo, qualificação da educação, mais eficiência no sistema judicial, regionalização?. Naturalmente que o papel do Presidente é acompanhar, observar e, de certa maneira, monitorar a execução desse programa. Não é só acompanhar e criticar, é colaborar também e cooperar com lealdade”, sustentou.

O Presidente, que regista altos níveis de aprovação popular e espera ser reeleito à primeira volta a 02 de outubro, reconhece que um segundo mandato poderá ser “mais confortável” e com “menos pressões”.

“No primeiro mandato tinha sempre assessores, conselheiros ou amigos que me diziam ?acho que não deves ir por aí, porque também tens que pensar que há eleições’. Neste mandato, não tenho esse tipo de preocupações”, adiantou.

No segundo mandato Jorge Carlos Fonseca promete reforçar o método um “Presidente sempre com as pessoas e de uma Presidência de proximidade”.

“A finalidade é exercer uma magistratura de influência construtiva, política e moral, sobre o conjunto da sociedade cabo-verdiana. E como? Influenciando soluções governativas e outras, que resolvam os problemas concretos dos cabo-verdianos: crescimento da economia, redução do desemprego, perspetivas para os jovens, redução significativa da insegurança, reforço do Poder Local e mobilização de recursos internos e externos para que o país aperfeiçoe a sua Democracia e se torne mais sólido o Estado de Direito e sobretudo haja mais qualidade de vida efetiva para os cabo-verdianos”, sublinhou.

“E para isto, há dois combates fundamentais em que quero continuar a participar: reduzir as desigualdades sociais e reduzir as assimetrias regionais”, acrescentou.

As eleições presidenciais em Cabo Verde realizam-se a 02 de outubro com três candidatos na corrida: o atual Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca, o reitor da Universidade do Mindelo, Albertino Graça, e o combatente da liberdade da pátria Joaquim Jaime Monteiro.