— Na maior parte dos cenários não é o homem que tem a bola que decide para onde a bola vai, mas sim os jogadores que não a têm. Os seus movimentos determinam o próximo passe” – Johan Cruijff

O Cruijffismo é o Barcelona e o Barcelona é o Cruijffismo. Pep Guardiola diz que não seria ninguém no futebol se não fosse Cruijff. Luis Enrique, segundo a autobiografia da lenda holandesa, foi convencido por Cruijff a deixar o Real Madrid e a mudar-se para o Barcelona. Tudo gira à volta do mesmo: bola, ideias, protagonismo, identidade e futebol de ataque. É isso o Barcelona. Agora, os velhos conhecidos e amigos, que partilharam os cantos e os conceitos de Camp Nou entre 1996 e 2001, regressam ao quintal especial: Pep Guardiola (Manchester City) vs. Luis Enrique (Barcelona) esta quarta-feira, às 19h45.

18 Mar 1996: A portrait of Johan Cryuff the manager of Barcelona

Johan Cruijff em 1996 (Getty Images)

Luis Enrique chegou a Camp Nou em 1996, mas já não foi treinado pelo holandês que o quis, mas sim por uma dupla conhecida dos portugueses: Bobby Robson e José Mourinho. Os dois jogadores coincidiram na Catalunha cinco anos. Por lá venceram muitas coisinhas. A primeira vez que jogaram juntos foi na primeira mão da Supertaça Espanhola, que seria também o primeiro troféu da dupla.

Para começar a temporada, Robson escolheu Vítor Baía, Amor, Sergi, Popescu, Nadal, Pep Guardiola, Luís Figo, Giovanni, Luis Enrique, Ronaldo e Hristo Stoichkov. O rival era o Atlético Madrid de Radomir Antic, que não foi capaz de travar a fúria blaugrana: 5-2 (Ronaldo, Giovanni, Pizzi, De la Peña, Ronaldo; Pantic, Esnáider). Se os entusiastas da nova vaga de treinadores ficam a salivar mentalmente com estes tesourinhos, que tal informar que a estreia da dupla Guardiola-Luis Enrique coincidiu com o primeiro jogo de Ronaldo Fenómeno. O brasileiro fez miséria. É ver em baixo, senhores, é ver…

Na segunda mão os colchoneros até levaram a melhor (3-1), mas foi insuficiente. E foi assim que Pep Guardiola e Luis Enrique festejaram pela primeira vez. A brincadeira repetir-se-ia mais seis vezes. É fazer as contas: duas La Ligas (97/98 e 98/99), duas Taças de Espanha (96/97 e 97/98), uma Taça das Taças (1-0 vs. PSG, 1997) e uma Supertaça Europeia (2-0 vs. Dortmund, 1997). Nesta última final, Luis Enrique marcou o primeiro golo da noite.

A dupla conheceu um desfecho prematuro com a saída de Pep para o Brescia de Roberto Baggio e Pirlo, em 2001. Luis Enrique ficou pelo Barcelona até 2004, altura em que pendurou as botas. Um ano depois terminaram ambos um dos cursos exigidos para a carreira de treinador, sendo que Pep foi o número 1, lembra o jornal catalão Sport.

A carreira de ambos voltou a cruzar-se em 2008, quando Pep Guardiola deixou o Barcelona B para assumir a principal equipa do Barça, após a saída do holandês Frank Rijkaard, mais um sucessor do Cruijffismo. Guardiola subiu os bês para a Terceira Divisão. O seu sucessor foi Luis Enrique, que por lá ficou três anos e garantiu o mesmo: uma subida de divisão, desta vez para o segundo escalão, o que não acontecia há 11 anos. Os caminhos de ambos iam vincando as mesmas pisadas. E glórias.

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Guardiola seguiria a sua vida, depois de 14 troféus ganhos em 19 possíveis no Barça, para o Bayern Munique e agora Manchester City. Luis Enrique chegaria à cadeira de sonho, abracemos uma expressão tão familiar, em 2014 e seria mais um conto de fadas. Tal como Pep, Luis Enrique conseguiria um triplete logo no ano de estreia. Vai no terceiro ano e tem duas dobradinhas no bolso. Isto não é brincadeira nenhuma, hein?

Os dois imitaram o mestre maior da história do FC Barcelona, Johan Cruijff: ganhar muitos títulos a jogar futebol de alto gabarito, obrigando a Europa inteira e arredores a olhar para o relvado que aqueles onze homens pisavam. Johan conquistou 11 competições: quatro campeonatos (90/91, 91/92, 92/93 e 93/94), uma Taça dos Campeões Europeus (92), uma Taça das Taças (89), uma Taça de Espanha (90), uma Supertaça Europeia (92) e três Supertaças Espanhola (91, 92, 94).

A teoria, já se sabe, é guardar a bola e levá-la de uma baliza à outra, até ao golo. Ou, mais importante, defender o futebol de ataque. Luis Enrique talvez tenha oferecido à sua equipa mais riqueza tática, mais variantes. Bom, mas o Observador não é treinador, por isso vamos ler quem sabe da coisa: Arsène Wenger.

“Parece que têm menos posse de bola porque perderam um jogador como Xavi, que só num jogo fazia mais de 100 passes e permitia-lhes sempre ter posse de bola”, explicou o treinador francês do Arsenal, em fevereiro de 2016. “Neste momento acho que têm uma equipa que, a qualquer momento, pode marcar, até mesmo quando são dominados são muito perigosos. Isso aconteceu na final da Liga dos Campeões contra a Juventus. (…) É aí que eles são perigosos. Têm menos posse de bola na génese do seu jogo, mas são mais rápidos na transição.” Fala quem sabe.

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De facto, o Barça de Guardiola mastigava mais o jogo. O catalão era e é obcecado pela segurança. Ele exige ter todos os jogadores depois do meio campo antes de arriscarem. Depois sim, quando atingem o meio campo, os extremos e avançados têm ordem para inventar e deixar fluir aquela magia toda que lhes sai das botas. Guardiola costuma dizer que o trabalho dele é fazer os jogadores chegarem ao último terço, a partir daí é com os jogadores. Com Luis Enrique o Barça parece menos paciente, mais imprevisível e mais rico em opções. O que Wenger mencionou é um bom exemplo: este Barça tem contra-ataque, com Messi, Suárez e Neymar. Guardiola explorou e aprendeu essa faceta na Bundesliga. E na Premier League agora.

“Pep é um bom amigo e é fácil falar coisas boas dele. Eu penso que ele é o melhor treinador atualmente”

Esta será a terceira vez que se encontram. Na primeira vez, Luis Enrique desfez-se em elogios ao seu amigo. “É um jogo especial porque está Pep pela frente. É a primeira vez do clube contra ele. É também a minha primeira vez contra ele, será especial”, disse Luis Enrique. “Quando há um sorteio destes, penso na pouca sorte de quem vai jogar contra o Barça, mas neste caso é totalmente diferente. Há uma equipa do outro lado que aspira ao mesmo que nós e tem o melhor treinador, porque conquistou uma infinidade de títulos, porque gosto da ideia de como o fez, do futebol de ataque. É capaz de adaptar-se a outro país e falar noutro idioma, transmitindo o que quer. E porque é meu amigo e eu penso sempre que os meus amigos são os melhores.”

E o que aconteceu nos dois primeiros duelos entre Luis Enrique e Guardiola como treinadores rivais? Digamos que foi pesado para Pep. Na primeira mão das “meias” da Liga dos Campeões 2014/15 os blaugrana venceram por 3-0 o Bayern Munique, com golos de Messi, Messi e Neymar. Pesado, ¿eh?

Na segunda mão os alemães estiveram melhor e venceram por 3-2, cortesia de Mehdi Benatia, Robert Lewandowski, Thomas Müller e um bis de Neymar. Luis Enrique levou a melhor e fecharia essa caminhada em beleza: 3-1 vs. Juventus na final.

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E agora? Bom, agora Pep está no Manchester City, uma equipa que tem queda para calhar com o Barça nos sorteios. Dois anos depois Luis Enrique volta a desfazer-se em elogios: “Pep é um bom amigo e é fácil falar coisas boas dele. Eu penso que ele é o melhor treinador atualmente. E digo isto sem ver as suas sessões de treino, digo-o pelo que ele transmite”, disse o treinador dos catalães na antevisão do Barça-City. “Não tenho a capacidade para analisar se ele é o melhor treinador da História porque não sei como treinavam há 30 anos, mas ele é um dos treinadores que definiram o futebol moderno. No fim de contas, não é um jogo entre os treinadores, são os jogadores que decidirão o jogo.”

Pep deu-lhe troco, na mesma língua da simpatia e cortesia. “Esperemos que Luis Enrique fique muito tempo no Camp Nou. Eu quero sempre que as coisas corram bem aos amigos.”

Dito isto tudo, finalizamos com a fotografia que o jornal catalão Sport usou para ilustrar a amizade de ambos. Em Portugal e tudo…

Captura de ecrã 2016-10-18, às 21.14.52

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