Música

O amor de Manuel Fúria não acaba aqui

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O funeral da Amor Fúria acontece na segunda-feira, no oficial fechar de portas da editora de gente como Os Golpes, Os Velhos, Capitães da Areia ou Feromona. O fundador diz-nos que tudo continua.

David Caetano

Autor
  • Miguel Branco
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Há mortes e mortes. E esta, segundo Manuel Fúria – fundador do selo em 2007 –, é tudo menos eutanásia: “A Amor Fúria morre de causas naturais”. Acreditemos que morrer, neste caso, resultará em novas vidas. Entrevistámos o músico e editor na sua sala de ensaios, daqueles lugares onde a desarrumação, os instrumentos e ligações elétricas fazem paisagens interessantes, mas “só para quem não está aqui todos os dias a ensaiar”, garante.

Conversa-viagem pela memória coletiva de um conjunto díspar, que, em modo independente, quis plantar um lugar digno na cultura pop em Portugal e em português. Pensemos em nomes como Os Golpes, Feromona, Smix Smox Smux, Os Velhos, Capitães da Areia ou Os Quais, acervo que agora servirá o funeral da Amor Fúria, “um funeral à Nova Orleães”. A Real Orquestra do Campo Grande com Manuel Fúria, João Gil, Pedro Lucas e Tiago Brito será a lápide colocada em palco na próxima segunda-feira no Musicbox, em Lisboa.

Noite das Bruxas, noite de enterro, nada mais certo. Antes quisemos saber o porquê de tudo isto junto do chefe de equipa, o Manuel que deu nome à editora.

A que se deve esta morte da Amor Fúria?
É uma morte que resulta de causas naturais. É relativamente comum este tipo de estrutura durarem um tempo específico, raras são as exceções de editoras independentes que mantém uma consistência para além daquele seu tempo inicial e de maior vigor. Não temos a mesma idade, energia ou disponibilidade que tínhamos, esta estrutura sempre se alicerçou num lado romântico, sobretudo de fazer canções, nunca vivi da editora, vivo da música que faço.

Mas que causas naturais são essas?
Parece-me que começou a existir uma falta de renovação dentro da editora, o ritmo editorial não corresponde às nossas exigências e expectativas, estamos numa fase de muito menos fulgor e próxima da morte, portanto mais vale fazê-lo em grande do que deixar que definhe.

Mas nem todas as editoras têm direito a um funeral…
Acho que a Amor Fúria viveu fundamentada nos seus objetivos de promover uma cultura popular portuguesa, inventar uma cultura popular portuguesa – popular de pop, claro – e também baseada nas nossas idiossincrasias, portanto para nós faz sentido que o final seja em grande, ou que haja um lado celebratório, aproveitar o fim para fazer uma última grande encenação pop. Diria que é especial na medida das nossas características, se calhar, se fossemos outras pessoas deixaríamos isto morrer como normalmente acontece. Entretanto passam cinco anos e pensas que nunca mais ouviste falar daqueles tipos, devem ter acabado.

Este é um funeral festivo, no entanto.
As cerimónias fúnebres, quando alguém parte deste mundo, são uma celebração dessa mesma pessoa.

Só que é raro aquele onde se ouve Os Golpes ou Feromona.
Sim, tem um lado mais festivo, se calhar é mais parecido com um funeral de Nova Orleães do que com um funeral do Minho.

Com espaço de sobra para a nostalgia, a proximidade do fim, certo?
Claro, até porque isso já está a acontecer, mesmo antes de subirmos ao palco. A propósito deste fim metemos uma banca na Flur, com o catálogo todo. Fui aos armários da Amor Fúria e comecei a ver os cartazes, o material todo que temos acumulado, recortes de jornais… claro que a nostalgia está presente mas a vida é assim.

Na carta despedida diz: “Editámos discos, organizámos concertos, inventávamos palavras”. Quais palavras?
Aportuguesámos muita coisa. Escrevemos sempre “pop roque” numa interpretação portuguesa da fonética da palavra, com Q e E no fim. O disco dos Smix Smox Smux tem uma canção que se chama “Uísque”, à portuguesa, com U. Em vez de disc jockeys dizemos alternadores de discos, “meio disco” em vez de EP, há uma terminologia própria. E quando digo “inventámos palavras” também é uma figura de estilo, é uma alegoria para outras coisas.

Coisas como inventar uma nova ordem, como agitar a música portuguesa na altura?
Sinto que mudou, ainda que seja complicado neste momento, quando ainda estamos tão perto dos acontecimentos, ter uma perspetiva rigorosa para poder tirar esse tipo de conclusões. No entanto, sinto que na fase do nosso maior fulgor, provavelmente entre 2008 e 2013, abanámos um pouco o mercado, fizemos as coisas de forma diferentes, não sei quais serão os frutos disto, não sei o que pode gerar para daqui a vinte anos. Sempre assumimos essa lógica mais portuguesa e não a cópia de modelos internacionais. Houve uma grande aposta na canção, a canção como o formato nobre da cultura pop.

O que também vos diferenciou no meio do circuito independente.
Claro, e basta veres que em 2007, quando começámos, as editoras independentes que existiam não primavam propriamente por terem edições em torno das canções, era mais música improvisada ou exploratória. Nós estávamos interessados em acrescentar qualquer coisa ao cancioneiro popular português.

Foi mais ou menos por esses anos que começaram a brotar uma série de bandas nacionais que hoje já têm o seu lugar cativo.
Isso já me parece um fruto direto do nosso trabalho.

Ou seja, não são precisos vinte anos para o afirmar.
Exato. E atenção, não foi uma influência propriamente direta, acho que fizemos algumas pessoas perceberem que não era preciso ter uma autorização de um senhor sentado no escritório de um alto edifício de uma editora multinacional para ter uma existência, basta juntar meia dúzia de pessoas com as quais partilhamos afinidades várias e montar um coletivo, um movimento. Atualmente contam-se bastantes projetos desses, em 2007 talvez tivesses três ou quatro. Isso tem a ver com a nossa experiência e com a FlorCaveira.

Que projetos ou momentos foram mais marcantes na Amor Fúria?
Não posso deixar de falar d’Os Golpes, isso é óbvio, porque é a partir da experiência dos Quatrocentos Golpes que tenho vontade de construir uma editora e o primeiro disco, em 2009, esse tempo foi vivido com entusiasmo, esgotámos o Santiago Alquimista, houve muita gente que não conseguiu entrar… foram tempos de um fervilhar que não vi acontecer novamente. Por outro lado, o primeiro disco que recebemos de fábrica, que foi o meio disco d’Os Quais, lembro-me de estar com o Pedro Almirante Ramos no meu carro a abrir o disco, a tirar o disco do celofane, a ver a bolacha, a pôr aquilo a tocar no auto-rádio… foi um momento que dificilmente vou esquecer. Cada projeto tem o seu lugar no meu coração, é uma maneira um bocado pirosa de expor as coisas, mas é verdade.

Ainda faz sentido ou que ainda há lugar para as editoras?
Com certeza que sim, faz todo o sentido.

Mesmo com a internet?
Se em décadas do século XX, em que reinavam os discos compactos e os LPs, as editoras independentes já tinham problemas… muito mais agora que nunca percebes bem de onde é que a música vem, surge de um lugar atmosférico-nebuloso, está por aí a pairar. E nós temos esse cadeado afetivo com os discos, crescemos dentro de lojas de discos, a namorá-los, a construir uma coleção… obviamente que a internet faz disto um negócio pouco sustentável. Contudo, acho que vai existir sempre espaço para editoras ou para uma visão editorial, de catálogo, de curadoria.

E é impossível obter isso na internet? Se os Radiohead o fazem por opção, uma banda nova, se calhar, não tem outra escolha…
Parece-me legítimo, mas parece-me triste. É isso. A coisa existe, está lá, mais do que uma coisa de legitimidade é uma questão de inevitabilidade, as pessoas passam o dia a olhar para ecrãs, não estão a olhar para o mundo à sua volta. Para mim é triste, se mandasse no mundo acabava com a internet, quando não havia internet não davas pela falta dela, não é como a roda. O mundo funcionava bem, a internet não era muito precisa.

O Manuel Fúria é o mesmo que fundou esta editora?
Sou exatamente a mesma pessoa, tenho as mesmas características, a diferença é a forma como aplico essas características. Talvez seja um pouco menos impulsivo, algo mais sensato, mais maduro, as coisas normais de crescer e de constituíres família. Sou a mesma pessoa num novo conjunto de circunstâncias.

Há um percurso criativo individual que agora muda, não?
Nem por isso, vou continuar a fazer as coisas como sempre fiz, tenho a minha banda Manuel Fúria e Os Náufragos, gravei um disco há um ano que vou editar nos primeiros tempos de 2017, tenho a minha disciplina de compositor e de autor como sempre tive, praticar o instrumento, fazer canções que é o que acho que tenho que fazer. Como músico está tudo mais ou menos na mesma, muda apenas a configuração de como a minha obra é apresentada, deixa de ser a Amor Fúria, passa a ser outra qualquer.

Enquanto editor podem surgir novidades em breve?
É prematuro estar a falar porque não há nada assim com muita consistência para poder falar já, mas sim tenho ideias, estou a montar coisas. Além disso, não nasci para ser editor, nasci para servir a Deus naquilo em que melhor o puder fazer, também não significa que não o venha a fazer outra vez. Aquilo que morre não é a possibilidade de poder trabalhar em edições, morre é a Amor Fúria.

Na tal carta de despedida diz que aquilo que a morte traz de bom é a ressurreição. Aposto que toda a gente está já a pensar em coisas novas, uma espécie de Amor Fúria dois, mas, se calhar, não vai ser assim tão imediato.
Pois, se calhar não. Se calhar vai, também não sei, é um mistério. É apenas algo que está lá escrito.

O funeral da Amor Fúria acontece no Musicbox, em Lisboa, na segunda-feira, dia 31, às 22h. Concerto com a Real Orquestra do Campo Grande e DJ sets com Gonçalo Mendonça e Rui Pregal da Cunha vs. Pedro Ramos.

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