Cinema

“O Herói de Hacksaw Ridge”: Mel Gibson ganha a guerra

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Dez anos após "Apocalypto", Gibson volta à realização com um filme baseado numa história real e passado na II Guerra Mundial, sobre um objetor de consciência. Eurico de Barros dá-lhe quatro estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

Todos os filmes de Mel Gibson enquanto realizador centram-se no mesmo tema: um homem enfrenta corajosamente forças muito superiores a ele, em nome das suas convicções ou daqueles que lhe são mais próximos e queridos, estando pronto para fazer o sacrifício último em nome de umas ou de outros. É assim com o professor desfigurado e estigmatizado pela sociedade de “Um Homem Sem Rosto”; com William Wallace, o herói nacionalista escocês de “Braveheart: O Desafio do Guerreiro”, em confronto com o trono inglês; com Jesus Cristo em “A Paixão de Cristo”, face ao poder de Roma e à execração de muitos dos Seus; e com o nativo maia da América pré-colombiana de “Apocalypto”, que arrisca a vida para proteger a família dos que os querem escravizar e oferecer em sacrifício.

Desmond Doss, o protagonista de “O Herói de Hacksaw Ridge”, o novo filme de Gibson, que há dez anos não ia para trás de uma câmara, é mais um desses heróis modelares e de disposição sacrificial que o ator e realizador tanto aprecia, e que, reais, ficcionais ou míticos, parecem ser câmaras de ressonância dos seus valores pessoais e das suas convicções religiosas. E a história de Doss, objetor de consciência durante a II Guerra Mundial, que não pretendia safar-se à tropa e queria dar a sua contribuição como socorrista, acabando herói medalhado, mete num chinelo a de Alvin York, soldado pacifista e condecorado na I Guerra Mundial, também ele objeto de um filme, o clássico “Sargento York”, de Howard Hawks.

[Veja o “trailer” de “O Herói de Hacksaw Ridge”]

Nascido na Virgínia, Desmond Doss era Adventista do Sétimo Dia e recusava usar ou sequer tocar em armas. Os seus princípios religiosos escoravam-se em dois episódios de violência que o marcaram, um passado na infância, quando quase matou o irmão ao dar-lhe com um tijolo na cabeça; e outro na juventude, envolvendo a mãe e o pai, um veterano da I Guerra Mundial que voltou traumatizado e era dado à bebida. Na recruta, sofreu tratos de polé por teimar em servir o seu país sem pôr um dedo sequer numa arma, e opôs-se com sucesso à dispensa compulsiva. Durante a invasão de Okinawa, no teatro do Pacífico, portou-se heroicamente debaixo de fogo, tratando e salvando 75 camaradas feridos com risco da sua vida, e tornando-se no único objetor de consciência condecorado nos EUA durante o conflito. Homem modesto, recusou quase até ao final da vida (morreu em 2006) que se fizessem filmes sobre ele.

[Veja a história que deu origem ao filme]

A noção de serviço à pátria, a defesa firme dos ideias éticos e dos princípios religiosos (sobretudo se forem cristãos) e o sacrifício pessoal são muito impopulares nos tempos que correm e no mundo em que vivemos. Não é por acaso que Mel Gibson, católico praticante e politicamente conservador — duas coisas raríssimas de se ver em Hollywood — as contemple nos seus filmes e agite como uma bandeira de diferença, de desafio e de oposição ao “mainstream” politicamente correto ou simplesmente acomodado ao espírito dos tempos do cinema americano. Por isso, e tal como sucedeu com quase todas as suas realizações anteriores, “O Herói de Hacksaw Ridge” vai enfurecer muita gente e pôr muito bem-pensante a berrar contra ele, nem que seja pela brutalidade insistente e gráfica das sequências de guerra, que superam as de “O Resgate do Soldado Ryan”, de Steven Spielberg.

[Veja a entrevista com Mel Gibson]

Gibson rodou, deliberadamente, um filme de uma violência ultra-realista sobre um homem que fez da não-violência um princípio de vida. E o mais irónico é que muitos dos que a condenarão (tal como já o fizeram quando de “A Paixão de Cristo”) são os mesmos que a aplaudem quando filmada, com muito menos justificação narrativa e muito mais gozo gratuito, por Quentin Tarantino. Em “O Herói de Hacksaw Ridge” vemos a guerra tal como ela é, e a batalha de Okinawa como foi travada e ficou descrita, em toda a sua ferocidade cega, desatino insano, bravura e medo, no seu máximo horror de corpos feridos, mutilados, incinerados, desfeitos ou devorados por roedores.

[Veja a entrevista com Andrew Garfield]

É um inferno terrestre, e é ao mais fundo desse inferno de metal, pó, sangue e vísceras que Desmond Doss, amparado na sua Fé e na sua abnegação, desce para salvar amigos (e até alguns inimigos). “O Herói de Hacksaw Ridge” parece, no tom e no espírito, um filme dos anos 40 ou 50, mas onde a guerra é representada com toda a crueza do cinema contemporâneo. (E deixo um lembrete para as leituras simbólicas, iconográficas e espirituais associadas ao cristianismo que o filme óbvia e intencionalmente tem.) Houve já quem falasse de “Cartas de Iwo Jima” a propósito desta fita, mas os filmes não são comparáveis, e falta – e é pena — a Mel Gibson o olhar humanizador sobre o inimigo japonês que Clint Eastwood tem naquele.

[Veja aspectos da rodagem do filme]

“O Herói de Hacksaw Ridge” é uma fita de fatura claramente clássica, de uma lhaneza e de uma eficácia narrativa, dramática e emocional que a espaços nos faz pensar em Raoul Walsh, Allan Dwan e até no já citado Hawks (até o sargento durão de Vince Vaughn parece saído de um velho filme desses realizadores). E que se repercutem na interpretação de Andrew Garfield (já lá vão, e felizmente, os tempos do “Homem-Aranha”) como Desmond Doss, e na firmeza calma, límpida, imperturbável, com que este expressa as suas convicções perante pares e superiores no Exército, e enfrenta e suporta a sua incompreensão, troça e agressividade. Mel Gibson rodou um tremendo filme de guerra. Mas acima de tudo, “O Herói de Hacksaw Ridge” é um filme sobre a Fé genuína, o individualismo excecional, a coragem desinteressada e a aristocracia do espírito.

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