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Portugueses estão a consumir menos antibióticos

Dados do Infarmed mostram quebra no consumo de antibióticos nos primeiros seis meses do ano. Resistência aos antibióticos continuou a crescer em 2015 e Centro Europeu alerta para os perigos.

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Os portugueses consumiram menos 100 mil embalagens de antibióticos no primeiro semestre do ano, comparando com igual período de 2015

Getty Images/iStockphoto

Os portugueses consumiram menos 100 mil embalagens de antibióticos no primeiro semestre do ano, comparando com igual período de 2015

Getty Images/iStockphoto

Entre o primeiro semestre de 2015 e o primeiro semestre de 2016, os portugueses consumiram menos 100 mil embalagens de antibióticos, num total de 4,3 milhões de caixas vendidas em farmácia nesse período, de acordo com os dados do Infarmed, enviados ao Observador, no dia em que se assinala o Dia Europeu do Antibiótico.

Esta quebra de 3,4% contraria a subida registada nos últimos anos (entre 2014 e 2015 as vendas de embalagens de antibióticos subiram 3,5%, para 8 milhões de embalagens) e contraria também a tendência de subida que se verificou no total de embalagens de medicamentos vendidos em farmácia (que abrange todo o tipo de medicamentos e não só os antibióticos).

Segundo o Infarmed, Bragança e Beja foram os distritos com maior descida no consumo de medicamentos vendidos em farmácia, mas foram os distritos de Lisboa e do Porto “que mais contribuíram para a diminuição a nível nacional”, dado o peso que representam.

A autoridade do medicamento detalha a análise do consumo relativo às quinolonas, que são um dos principais grupos de antibióticos. Neste caso, e olhando para o mesmo período de tempo, registou-se uma redução de 9,5% já considerando o consumo em meio hospitalar — menos 9,6% de embalagens vendidas em farmácia e quebra de 8,8% no consumo hospitalar. Sendo que este grupo específico já vinha registando uma quebra: entre 2014 e 2015 o consumo global de quinolonas em Portugal caiu 3,9%.

Estes dados são reforçados e complementados pelos da QuintilesIMS (empresa que resultou da fusão da consultora IMS Health e do produtor mundial de serviços de saúde integrados Quintiles), relativos ao consumo de embalagens de antibióticos em farmácias no último ano, de outubro de 2015 a novembro de 2016. Neste período foram vendidas 8,5 milhões de embalagens de antibióticos, menos 4% do que no ano anterior. A subclasse de penicilinas de largo corresponde a 41% das vendas em valor.

Resta saber como fechará o ano de 2016 e, sobretudo, qual a evolução em termos de consumo hospitalar. É que em 2015, por exemplo, “o consumo de antibióticos nos hospitais aumentou significativamente em vários Estados-Membros da UE, no entanto, o consumo de antibióticos na comunidade diminuiu em seis Estados-Membros da UE”.

Os dados que vão ser apresentados, esta sexta-feira, pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), mostram que Portugal estava, em 2015, a meio numa tabela de 30 países em matéria de consumo de antibióticos, abaixo da média de consumo na União Europeia, tanto em número de embalagens por 1.000 habitantes como em doses diárias definidas (DDD). Porém, o Centro Europeu pede cautela na comparação entre países, na medida em que os dados reportados por cada um não respondem exatamente aos mesmos critérios. Por exemplo, em Portugal, o consumo diz apenas respeito aos medicamentos vendidos em farmácias e comparticipados pelo Estado. Em 2015, tinham sido dispensadas cerca de 2,14 embalagens por 1.000 habitantes, revelando uma tendência de crescimento face aos anos anteriores. E também em meio hospitalar subiu ligeiramente o consumo, embora com uma variação pouco significativa, segundo o ECDC.

Resistência a antibióticos continuou a aumentar em 2015

Onde Portugal pontua mal, neste levantamento feito a nível Europeu, é no consumo de carbapenemes em meio hospitalar. Os carbapenemes são medicamentos de última linha usados para tratar infeções severas, cujas bactérias já desenvolveram resistências a outros antibióticos. Em 2015, Portugal era o segundo país, só antecedido pela Grécia, com o maior consumo deste grupo de antibióticos, de acordo com os mais recentes dados do Sistema Europeu de Vigilância da Resistência aos Antimicrobianos (EARS), coordenado pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC).

Em que consiste a resistência aos antibióticos? E como se propaga?

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A resistência aos antibióticos é a capacidade das bactérias combaterem a ação de um ou mais antibióticos. Esta resistência é algo natural, mas surge e dissemina-se por conta do mau uso de antibióticos e pela falta de higiene, como o não lavar as mãos. As bactérias resistentes podem ser transmitidas através da comida, do contacto com animais, ou do contacto com doentes portadores dessas bactérias. Também a presença de antibióticos nas águas e nos solos — 80 a 90% dos antibióticos ingeridos não são degradados no sistema digestivo e são expelidos — onde existem inúmeras bactérias, potencia o aparecimento de bactérias resistentes a esses antibióticos.

E é, aliás, em relação a estes antibióticos de última linha que o ECDC levanta maiores preocupações neste relatório. Embora a resistência aos carbapenemes — antimicrobianos de última linha para o tratamento de infeções com bactérias resistentes a múltiplos fármacos, como a K. pneumoniae e E. coli — se tenha “mantido em níveis relativamente baixos para a maioria dos países em 2015”, o aumento significativo da resistência ao carbapeneme no caso da Klebsiella pneumoniae, nos últimos quatros anos, por exemplo, “é motivo de grande preocupação e ameaça para a segurança dos doentes na Europa”. É que para estes doentes poucas alternativas restam. Portugal é um dos países onde a percentagem de doentes com Klebsiella pneumoniae resistente aos carbapenemes aumentou entre 2012 e 2015, para os 3,4%, ainda assim continua abaixo da média dos países em análise (8,1%).

As opções que sobram estão limitadas a combinações entre os carbapenemes e antibióticos mais antigos, que em alguns casos são tóxicos. E não há provas que isso funcione em todas as situações”, explicou ao Observador Andrea Ammon, diretora do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças.

resistência da Klebsiella aos carbapenems

Resistência da Klebsiella pneumoniae aos carbapenemes, em 2012 e em 2015 (EARS-Net/ECDC)

A colistina é o antibiótico usado quando os carbapenemes já não fazem efeito e o seu uso quase duplicou na Europa entre 2011 e 2014. E mesmo a resistência à colistina já se começa a disseminar, escreve o ECDC, no último relatório, divulgado esta sexta-feira.

Em relação à MRSA (“meticillin-resistant Staphylococcus aureus”) — que é uma das principais causas de infeções hospitalares em todo o mundo –, a incidência diminuiu significativamente entre 2012 e 2015, mas continua a ser “uma prioridade de saúde pública na Europa com oito dos 30 países a reportarem taxas de MRSA superiores a 25%”.

E também neste caso, Portugal apresenta dados preocupantes. Com uma taxa de incidência de 46,8%, aparece em terceiro na lista dos 30 países, ainda assim melhorou face à taxa registada em 2012 (53,8%).

O problema é que, como refere Andrea Ammon, ao Observador, “quando os antibióticos de última linha já não forem eficazes, isso significa que não existirá nenhum antibiótico para tratar um doente, tornando tais infeções em crianças e adultos potencialmente fatais”. Uma realidade que pode vir a ganhar dimensões muito preocupantes se nada for feito para contrariar este trajeto.

“A resistência aos antibióticos de última linha também compromete a eficácia das intervenções médicas que salvam vidas tais como o tratamento do cancro, o transplante de órgãos e os cuidados intensivos. Por isso, é imperativo que possamos conter a propagação destas bactérias altamente resistentes agora”, alertou Andrea Ammon, frisando a importância de aplicar esse travão numa altura em que o desenvolvimento de novos antibióticos tem sido lento.

€37.000

Os hospitais gastam, em média, 9 a 37 mil euros a mais para tratar um doente que tenha uma infeção por uma bactéria resistente a antibióticos, na Europa e no Norte de África.

Além de ser preocupante em termos de saúde pública, pois as resistências a antibióticos podem, no limite, levar à morte dos doentes, há também um problema de sustentabilidade financeira associada a este fenómeno, na medida em que tratar de um doente com uma bactéria multirresistente pode custar quase mais 40 mil euros.

Os dados que serão apresentados esta sexta-feira mostram que, “em 2015, a resistência aos antibióticos continuou a aumentar para a maioria das bactérias e antibióticos”.

É preocupante ver o aumento da resistência aos antibióticos de última linha, mas ainda temos tempo para virar a maré e garantir que os antibióticos permanecem eficazes.”

Isolar doentes e lavar bem as mãos. Prevenção é essencial

O ECDC deixa algumas sugestões para travar a resistência aos antibióticos que considera, aliás, “pedras angulares” na prevenção da disseminação destas bactérias. “Só medidas concertadas a nível mundial, como uma melhor prevenção e controle de infeções em hospitais e outros ambientes de saúde, assim como um uso mais prudente de antibióticos, podem oferecer uma solução a longo prazo”, lê-se no documento.

Desde logo, propõe aos países criarem um grupo de trabalho multidisciplinar que crie políticas e intervenha sempre que necessário. Sugere ainda aos países que assegurem um rácio de um profissional de controle de infeção por cada 250 camas, sendo que já há quem defenda um rácio de 1 para 100.

Só medidas concertadas a nível mundial, como uma melhor prevenção e controle de infeções em hospitais e outros ambientes de saúde, assim como um uso mais prudente de antibióticos, podem oferecer uma solução a longo prazo”, lê-se no relatório do ECDC.

Outro passo importante, referido pelo ECDC, seria fazer um rastreio aos pacientes “de risco” que dão entrada nos hospitais, de maneira a perceber se estão infetados com alguma dessas bactérias resistentes e, caso o resultado seja positivo, adotar medidas de prevenção.

Isolar doentes infetados com bactérias multirresistentes, “idealmente em quartos individuais“, é também uma medida muito importante, admitindo-se contudo a possibilidade de, não havendo capacidade física instalada nos hospitais, colocar todos os pacientes com o mesmo tipo de bactéria resistente numa sala separada.

E, por último, mas não menos importante, lavar as mãos. Esta é “a medida mais importante” para prevenir a transmissão destas bactérias nos hospitais, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). “No entanto, existe uma grande variação no consumo de álcool a base de esfrega mão para higiene das mãos em hospitais em toda a Europa. A conformidade com a higiene das mãos corretamente executada precisa ser continuamente monitorada e apoiada por meio da educação e da auditoria.

Recentemente, o jornal i noticiou que no Hospital Garcia de Orta, em Almada, doentes infetados com bactérias multirresistentes, como a E. coli e a Klebsiella pneumoniae estavam internados em quartos com doentes não infetados, sem qualquer espaço de intervalo e apenas separados por uma cortina. E o JN relatou o caso do Hospital do Barreiro que colocou três doentes com a bactéria E. coli multirresistente junto de 25 doentes não infetados no serviço de urgência.

Questionado sobre prática, a diretora do ECDC não se pronunciou, repetindo apenas que “a implementação de boas práticas de controle de infeção, incluindo a higiene das mãos, bem como o rastreio e isolamento de pacientes infetados em hospitais, é vital para prevenir a propagação de bactérias resistentes”. Mas esse é um “desafio para muitos países”, admitiu, referindo que, em 2012, a percentagem média de camas hospitalares em quartos individuais era de apenas 10%, em média, nos países da UE, sendo inferior a 5% em oito países.

Infarmed e DGS pedem a médicos e farmacêuticos para terem mais cuidado na prescrição

Se os cuidados acima são essenciais para controlar e até procurar atenuar o problema da resistência aos antibióticos, já um outro fator de peso nesta matéria. “Vários estudos nos têm mostrado que há uma correlação entre a frequência com que os antibióticos são tomados e o nível de resistência da população. E isso também é verdade para os países da Europa: quanto mais um país usa antibióticos, mais resistência existe nesse país”, afirmou a diretora do ECDC ao Observador.

(Basta selecionar, no vídeo, a opção da legenda para obter legendas em português)

Estando cientes dessa correlação, e sendo Portugal um dos países com maior consumo de carbapenemes e de polimixinas (como as colistinas) — que são antibióticos de última linha para combater bactérias multirresistentes — e estando no top 10 dos países com maiores incidências de bactérias resistentes a antibióticos (nomeadamente de Klebsiella pneumoniae resistente aos carbapenemes e da bactéria resistente MRSA), Infarmed e Direção-Geral de Saúde (DGS) uniram esforços, através de cartazes informativos e vídeos explicativos, para sensibilizar a população e os profissionais de saúde para o problema e para a necessidade de ter cuidado com a toma de antibióticos.

40%

40% dos europeus pensam erradamente que os antibióticos combatem gripes e constipações. Os antibióticos não tratam infeções causadas por vírus.

O Infarmed enviou até cartas a médicos e farmacêuticos. “O objetivo é que a prescrição e a dispensa de antibióticos seja feita de forma parcimoniosa e racional e, ao mesmo tempo, se sensibilize a opinião pública para este problema, com algumas mensagens-chave: os antibióticos não tratam gripes e constipações; devem ser usados apenas com prescrição médica e respeitando as tomas e as doses prescritas”, lê-se no comunicado enviado às redações pela Autoridade do Medicamento.

A importância desta informação é justificada pelos números apontados pela Direção Geral de Saúde (DGS): “Portugal é um dos países europeus onde existe um maior desconhecimento sobre a a ação dos antibióticos: 60% dos portugueses pensam que os antibióticos atuam sobre os vírus e 50% acreditam que servem para tratar constipações e gripe”.

Esta preocupação com o consumo de antibióticos e com as resistências não é exclusivamente portuguesa. O assunto preocupa todos os países a nível mundial. E ainda esta sexta-feira o comissário europeu para a saúde e segurança alimentar, Vytenis Andriukaitis, veio dizer que “a Comissão Europeia lançará um novo plano de ação no próximo ano, para que possamos, juntamente com os nossos parceiros nos Estados-Membros da UE e internacionalmente, continuar a assegurar que a prevenção e o controlo da resistência aos antibióticos sejam reforçados numa abordagem única”.

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