Se uma ficção de terror nos permite desfrutar de um bom cagaço com a devida distância de segurança, documentários há que nos provocam a mesma sensação de medo porém desprovida do reconfortante folclore. Na vida real, um psicopata deixa de ser um maluco desenfreado com uma serra eléctrica para ser uma jóia de pessoa capaz de destruir vidas sem sair da frente do computador. Mas não fiquem tristes: também há histórias reais de desmembramentos e rituais bizarros, ainda que as mais aterrorizantes sejam mesmo aquelas em que o verdadeiro monstro é a injustiça, a falha humana, a dúvida ou a sorte. A propósito da estreia recente do documentário neozelandês “Tickled” no Netflix, segue-se uma lista de seis documentários mais estranhos que a ficção.

“Tickled”, de David Farrier e Dylan Reeve (Netflix)

Não por acaso, este documentário estreou no MOTELx — Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa. À partida, não se percebe o que possa meter medo: trata-se apenas da investigação de um jornalista neozelandês, David Farrier, sobre competições de resistência a cócegas. Parece uma coisa patusca ou, quando muito, um fetiche inofensivo. Mas, à medida que Farrier vai descobrindo pontas soltas, afigura-se-lhe pela frente uma história sinistra sobre manipulação, sadismo e bullying.

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“Catfish”, de Henry Joost and Ariel Schulman

O impacto foi tal na cultura popular que o título se tornou termo corrente para designar pessoas que se fazem passar por outras na internet. O documentário é pouco sério na sua forma, mas o suspense é bem gerido e o conteúdo oferece material para reflexão: a que nos expomos quando nos envolvemos com um desconhecido numa rede social? Quem pode estar do outro lado e quais as suas motivações? O filme deu origem a uma série da MTV em que se investigam vários casos de fraude emocional nas redes sociais.

“Beware the Slenderman”, de Irene Taylor Brodsky (estreia em 2017, HBO/TVseries)

Neste caso, o objecto do medo é uma figura mitológica, mas o ser humano — esse sim, sempre o mais aterrorizante — é que lhe dá forma, mais concretamente duas crianças com apenas 12 anos. O Slenderman é uma personagem de ficção alimentada por uma comunidade de autores espontâneos na internet e tornou-se uma espécie de bicho-papão dos tempos modernos. Este documentário, que estreia no início do ano que vem, conta a história das duas miúdas que esfaquearam uma amiga da escola na crença de que esse sacrifício as faria cair nas boas graças do Slenderman.

“The Paradise Lost Trilogy”, de Joe Berlinger e Bruce Sinofsky

É um emocionante tríptico documental que acompanha, de 1996 a 2001, a história de três adolescentes condenados pela morte de três crianças em Memphis, alegadamente num ritual satânico. A trama é um labirinto de enganos. Desde a tentação dos 15 minutos de fama que leva Damien Echols, o mais carismático dos três suspeitos, a reclamar inocência mas a admitir um certo prazer em ficar para a história como um monstro até ao preconceito e ao bullying de uma sociedade que ostraciza a diferença, passando pelas falhas do sistema judicial — tudo contribui para que o próprio espectador se envolva em especulações e suposições que conduzem a dilemas morais complexos e até a inusitadas simpatias.

“Making a Murderer”, de Laura Ricciardi e Moira Demos (Netflix)

Foi uma verdadeira febre quando estreou no Netflix e os desenvolvimentos do processo acabaram de garantir uma segunda temporada desta série documental. Um redneck é acusado do homicídio de uma mulher mas, quando o seu sobrinho adolescente é também metido no processo, apercebemo-nos de como um alegado cúmplice pode ser apenas a vítima de uma investigação policial tendenciosa. À semelhança de “Paradise Lost”, “Making a Murderer” explora também a questão do juízo que advém do preconceito — o deles e o nosso — mas resvala para a revelação das técnicas perversas utilizadas pela polícia quando se impõem outros interesses ou simplesmente uma solução para um caso.

“The Jinx: The Life and Deaths of Robert Durst”, de Andrew Jarecki

É um senhor tão frágil e educado, este Robert Durst, ninguém diz que matou e desmembrou duas ou três pessoas. A história é tão inacreditável quanto isto: foi o próprio Durst que, eternamente perseguido mas nunca condenado, se ofereceu para dar uma grande entrevista ao realizador Andrew Jarecki já que este assinara, tempos antes, um filme de ficção inspirado na sua vida intitulado All Good Things. Das 20 horas de entrevista nasceu esta mini-série documental da HBO, provavelmente o objecto documental desta lista que mais surpreendente e satisfatoriamente nos permite ver o fundo ao tacho.

Ana Markl é guionista, apresentadora no Canal Q e animadora de rádio na Antena 3