“Eu, Daniel Blake”

Os melhores filmes de Ken Loach são aqueles em que o veterano socialista radical do cinema inglês dá preferência ao realismo social incisivo, tangível e com as mãos na massa das situações humanas, e deixa para plano secundário ou mete na gaveta o comício. “Eu, Daniel Blake”, Palma de Ouro do Festival de Cannes, tem bastante do primeiro mas também o suficiente do segundo para deixar algumas mossas na fita. Escrito por Paul Laverty, colaborador de longa data de Loach, e rodado em Newcastle, “Eu, Daniel Blake” centra-se no carpinteiro do título (imterpretado pelo cómico de “stand up” e improvisação Dave Johns), que sofreu um ataque cardíaco e ficou desempregado. O seu médico diz-lhe que tem que esperar algum tempo até poder trabalhar, mas a Segurança Social considera-o apto e recusa-lhe os devidos subsídios de apoio. Decidido a reclamar, Daniel mergulha no labirinto absurdo e humilhante da burocracia e vê-se atirado de Herodes para Pillatos, no mundo físico, no espaço virtual e no inferno telefónico das linhas de apoio e dos “call centers”, tratado menos como um cidadão com dignidade e direitos do que como um “utente”, um “cliente” ou um número num formulário. Durante este calvário, trava amizade com Katie (a excelente Hayley Squires), uma mãe solteira que foi forçada a mudar-se de Londres para Newcastle para ter uma casa da câmara, e que protagoniza a sequência mais desesperada e comovente do filme, passada num banco de comida.

Depois, há alturas em que o pé de Loach foge para a chinela comicieira, transformando o protagonista numa caixa de ressonância ideológica ambulante, e o filme num tempo de antena partidário, tendência Bloco de Esquerda. Curiosamente, o radicalismo descabelado do realizador contrasta com o pragmatismo do seu estilo visual e com a delicadeza recatada com que filma as sequências em “família” entre Katie, as filhas desta e Daniel, tornado como que no pai e no avô substituto de uma e de outras. Quando lhe passam os acessos de retórica comicieira,”Eu, Daniel Blake”, é Ken Loach de primeira água, na verdade realista, urgente e contígua do drama humano, e na justeza, pertinência e actualidade da indignação. Em complemento, estreia o documentário “Versus: A Vida e os Filmes de Ken Loach”, de Louise Osmond. Entre dias 2 e 30 de Dezembro, a Cinemateca apresenta o ciclo “Ken Loach-A Obstinação do Realismo”.

“Estive em Lisboa e Lembrei de Você”

O cinema também tem destas ironias. José Barahona, o autor de “Estive em Lisboa e Lembrei de Você”, é um realizador português radicado no Brasil, que adapta neste filme o livro com o mesmo título do escritor do escritor Luiz Ruffato, sobre um brasileiro de Minas Gerais que imigra para Portugal em busca de uma vida melhor. Exatamente a mesma intenção de Barahona quando se foi instalar além-Atlântico, pelo que se cria um curioso efeito de espelho, e de identificação, entre o realizador e a sua personagem neste filme de produção luso-brasileira. O mineiro Sérgio (Paulo Azevedo, um dos poucos actores profissionais do filme) decide vir instalar-se em Lisboa para trabalhar, na sequência de um drama familiar na sua cidade natal, que o afasta da mulher e do filho ainda de colo. É um rapaz honesto, modesto e quase sem mundo, que chega à capital portuguesa em pleno Inverno com sonhos de fazer muito dinheiro o mais depressa possível, e voltar ao Brasil para ter uma vida desafogada com a família. Mas logo descobre que num país em grave crise, onde as oportunidades de trabalho para os imigrantes, mesmo para os brasileiros que falam a língua, minguaram nos últimos anos, vai ser difícil arranjar um emprego sólido.

José Barahona costuma rodar num registo entre a ficção e o documentário, o que ajuda ao realismo justo, ao alcance da mão, e levemente pincelado de romanesco (o envolvimento de Sérgio com a prostituta sua compatriota) de “Estive em Lisboa Lembrei de Você”. O filme conta com a participação de brasileiros imigrados em Portugal e incorpora no argumento histórias vividas por alguns deles, é rodado em zonas e locais lisboetas que eles frequentam e abstém-se quer do lugar-comum do “coitadinho brasileiro explorado por portugueses aproveitadores”, quer do do “imigrante revoltado contra o país de acolhimento”.

“Aliados”

Robert Zemeckis junta Brad Pitt e Marion Cotillard neste filme passado durante a II Guerra Mundial, que aspira a recriar a acção, o romance, a tensão e o “glamour” das fitas de propaganda e resistência que se faziam nessa altura, em especial nos EUA e na Grã-Bretanha. Pitt interpreta Max Vatan, um oficial canadiano da RAF, e Cotilard é a resistente Marianne Beauséjour, que escapou ao desmantelamento da rede onde operava em Paris. Max e Marianne encontram-se em Casablanca e têm que simular ser marido e mulher, apaixonadíssimos e colaboracionistas, para poderem cumprir a sua perigosíssima missão, mas acabam por se apaixonar a sério. Já são e salvos em Londres, casam-se e têm uma filha. Mas os superiores de Max informam-no que há fortes suspeitas de que Marianne seja uma agente nazi que matou a verdadeira resistente, tomou o seu lugar e está a enviar informações para o inimigo. Será mentira, ou uma manobra de contra-informação? E se for verdade, conseguirá Max pôr o dever acima do coração, e executar a sua mulher? “Aliados” foi escolhido pelo Observador como filme da semana, e pode ler a crítica aqui.

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