Segundo John Romão, o desconhecido é a qualidade que rege as artes contemporâneas. Os artistas trabalham na era da globalização, do nomadismo, da “modernidade líquida”, inventam as suas próprias trajetórias. Flutuam na instabilidade.

Coerente com este discurso, o ator e encenador, de 32 anos, convidou os jornalistas para a apresentação do muito aguardado festival BoCA e em vez de uma conferência de imprensa serviu-lhes uma amálgama de discursos, vídeos e performance. Uma apresentação “líquida”, segunda-feira à tarde no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

Considerado um enfant terrible do teatro português, John Romão é agora diretor artístico da BoCA – Bienal de Artes Contemporâneas, que este ano decorre entre 17 de março a 30 de abril em Lisboa e no Porto.

Ao que explicou na segunda-feira, a bienal apresenta-se como projeto independente das instituições, mas dialoga com elas, propondo a salas de teatro, galerias e museus, 38 ao todo, que acolham propostas artísticas inusitadas. Por seu lado, a artistas de diversas disciplinas é-lhes pedidos que se cruzem entre si e apresentem criações com linguagens a que não estão habituados.

É o caso do artista urbano Vhils, convidado a fazer a sua primeira criação de palco, intitulada “Periférico” (Centro Cultural de Belém, 7 e 8 de abril). “Uma reflexão sobre a evolução urbanística, a emergência das subculturas urbanas e o impacto de ambas no panorama de Portugal ao longo das décadas de 80, 90 e 2000”, lê-se no programa.

É também o caso do alemão Aram Bartholl, artista visual que visita Portugal pela primeira vez e traz a Lisboa e ao Porto, durante as seis semanas do festival, a intervenção “Dead Drops”, que consiste em cimentar nos edifícios das cidades várias “pen drives”, convidando o público a usá-las como entender – descarregar ou partilhar ficheiros através da porta USB dos computadores portáteis.

“A BoCA foi uma ideia que me surgiu há algum tempo, demorou dois anos a concretizar”, disse John Romão ao Observador. “A minha intenção é propor uma forma diferente de pensar os contextos das instituições e as suas missões. Às vezes são missões intransigentes, fixas, rígidas”, acrescentou. Os artistas tornaram-se “líquidos” e “nómadas”, mas as instituições ainda não, defendeu.

“A bienal procura que as instituições reflitam sobre o que está a acontecer e que considerem urgente criar sinergias entre elas para receberem projetos em que não são especialistas. Já não estamos na era da especialização, estamos na era em que o conhecimento é difundido de forma abrangente. Costumo falar da ‘Geração YouTube’. Tudo se aprende com vídeos na internet, não se é especialista em nada. A arte contemporânea veio absorver essa dinâmica. As instituições deveriam olhar para isso”, explicou John Romão.

Durante duas longas horas, na sala principal do D. Maria II – sala cheia, porque também o público foi convidado para a apresentação, com entrada livre –, o diretor da BoCA intercalou as explicações dele e dos convidados com três momentos de espetáculo.

O intérprete Frédéric Seguette apresentou as três partes da performance “Shirtology”, de Jérôme Bel, cuja estreia portuguesa aconteceu há exatamente duas décadas, no Centro Cultural de Belém, então interpretada por Miguel Pereira.

John Romão, diretor artístico da BoCA, entende que os artistas são muito maleáveis, mas as instituições ainda não

Nos últimos meses já tinham sido divulgados os nomes dos quatro artistas residentes da bienal: Salomé Lamas e Musa Paradisíaca (Portugal), François Chaignaud (França) e Tania Bruguera (Cuba/Estados Unidos). Desta vez foram divulgados os nomes de todos os restantes criadores convidados. São mais de 50, consagrados e emergentes, portugueses e estrangeiros, e vão apresentar mais de 30 obras, algumas em estreia absoluta.

Alguns destaques:

  • O encenador argentino Rodrigo García mostra no Museu Nacional de Arte Antiga, de 17 de março a 30 de abril, a instalação “Pinball Bosch”, uma máquina de flippers para que os visitantes possam jogar no meio das pinturas.
  • Dias 24 e 25 de março, numa fachada exterior da Casa da Música, no Porto, o artista visual russo Kirill Savchenkov exibe “The Museum of Saketeboarding”, sobre o skate como instrumento de sobrevivência nas cidades.
  • A dupla de artistas plásticos João Maria Gusmão e Pedro Paiva fazem uma exposição no palco do Teatro D. Maria II, de 31 de março a 2 de abril. “Avantesma Fantasma” convida o espectador a deambular pelo palco e a descobrir vestígios do teatro Noh, do Japão.
  • No Pavilhão Branco, em Lisboa, de 20 a 30 de abril, a artista visual sueca Anastasia Ax mostra “The World as of Yesterday”, performance-instalação com fardos de papel reciclado e tinta preta. “Compõe com estes materiais uma caligrafia visceral, criando novas histórias e significados a partir de restos da sociedade”, diz a folha de sala.
  • Naquele mesmo espaço, a dupla de performers Ana Borralho e João Galante apresenta a performance-instalação “Estrelas Cadentes (Metal e Melancolia)”, dias 28 e 29 de abril.
  • O realizador Gilles Delmas e o coreógrafo Damien Jalet mostram “The Ferryman”, dia 27 de abril, no Cinema São Jorge. O filme foi gravado em Bali, no Japão, na Escócia e em França (Museu do Louvre) e fala da “relação ancestral e complexa entre homens e natureza”. É narrado pela performer Marina Abramovic.

Há muitas outras propostas de nomes como Romeo Castellucci, Rui Horta, João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, Tânia Carvalho, Romeu Runa, Mariana Tengner Barros ou Jan Martens.

A música também tem lugar na BoCA, merecendo menção o espetáculo do músico americano Yves Tumor na discoteca Lux, em Lisboa (6 de abril).

Em intervenções muito programáticas, teóricas até, John Romão referiu durante a apresentação que a BoCA faz o “elogio do provisório, do temporário, do diferente, do transitório, do irregular, do incomum”.

“Toda a arte contemporânea fala esta linguagem animal, secreta, visceral, universal. Precisamos dos museus, teatros, galerias, discotecas. Estes espaços são os novos templos de uma sociedade que é hoje confrontada com reformulações e ameaças aos pilares da democracia, com a emergência ideologias extremas que fazem a propaganda do medo e da incerteza”, disse.

“As artes contemporâneas, hoje ainda mais fundamentais do que ontem, devido ao momento histórico que vivemos, encontram nestes templos o refúgio que permite cumprir o seu potencial de liberdade, fraternidade, pensamento crítico e elogio da diferença.”

O orçamento total da BoCA, segundo John Romão, é de 400 mil euros. A bienal tem parcerias com instituições de outras cidades, como Braga e Castelo Branco, e também Paris, Bruxelas, Hamburgo, Berlim e Madrid, nas quais serão feitas apresentações pontuais dos espetáculos.