Dark Mode 135kWh poupados com o Asset 1
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica. Saiba mais

Logótipo da MEO Energia

Claudia Andujar mostrou o povo Yanomami ao mundo

"Visão Yanomami" é uma exposição de Claudia Andujar com fotografias do povo indígena da Amazónia. De 11 de fevereiro a 15 de abril, estará em exposição no Arquivo Municipal de Lisboa.

3 fotos

A exposição de fotografias “Visão Yanomami” de Claudia Andujar tem curadoria do Instituto de Inhotim, no Brasil, onde está uma exposição permanente da artista com 450 fotografias que fazem parte do arquivo pessoal, que conta com mais de 10 mil. O povo índigena Yanomami vive no norte da Amazónia e, até à década de 50, pouco contacto tinha tido com o homem branco. Claudia fotografou, ao longo dos anos, vários momentos da vida daquele povo, alguns dos quais estão agora em exibição no Arquivo Municipal de Lisboa.

Marta Mestre, a curadora da exposição em Portugal, falou com o Observador sobre a vida e o trabalho desta artista que nasceu na Suíça, com o nome de Claudine Haas. “A Claudia vem de um contexto familiar que parte da Segunda Guerra Mundial, numa Europa em grande convulsão. A família da parte do pai eram judeus da antiga Transilvânia e foi perseguida pelos nazis. Ainda criança, ela e a mãe vivem em constante deslocamento, o que faz com que Claudia tenha memórias da guerra, da perseguição, da ditadura e do fascismo da Europa”.

“Com cerca de 12 anos, ela e a mãe vão viver para Nova Iorque, onde Claudia se começa a interessar pelas artes e teve formação em fotografia. Anos mais tarde, Claudia chega a São Paulo e começa a trabalhar em fotojornalismo, em revistas de grande circulação, numa cidade em efervescência. Começa a trabalhar para revistas de circulação na América Latina e nos EUA, como a Realidade, Cruzeiro e algumas internacionais como a Life. A Europa é um capítulo que ela própria queria esquecer, a Europa velha, passada, em escombros. Mas este passado é muito importante no contacto com o povo Yanomami, porque está sempre no inconsciente da artista. O próprio nome dela, ‘Andajur’ é o nome que adota do marido. Portanto, há uma questão de recusa da própria identidade de nascença, com uma tentativa de adoção de outro tipo de identidade”, revelou Marta Mestre.

A artista teve o primeiro contacto com os indígenas na década de 50. Mestre comentou que “Claudia ganhou uma bolsa da Fundação Guggenheim (norte-americana), uma bolsa de incentivo à fotografia. Nesta altura, ela começou a ser reconhecida como fotógrafa profissional, dentro do meio e pelos seus pares. Juntamente com o namorado da época e também fotógrafo, George Love, eles decidiram ir para a região do rio Catrimani, no norte da Amazónia, para fotografar o povo Yanomami, um povo com pouco contacto com o homem branco”. “Mais tarde, eles separam-se mas esse primeiro contacto que ela faz é completamente essencial para o encontro do outro e daquilo que ela perdeu. Há de facto uma grande entrega da parte dela. E a partir desse momento, durante 40 anos, ela passa temporadas com eles. Aliás é muito interessante, o facto de ser uma mulher jovem, durante a ditadura do Brasil. Era muito complicado e ela chegou a apanhar algumas doenças como a malária”, acrescenta Marta.

Enquanto Claudia viveu com os Yanomami, fotografou inúmeros momentos. “Ela começa por fotografar a fauna, depois a flora, o rio, a paisagem, a casa, o interior da casa, as pessoas, os corpos, os pormenores dos corpos, os retratos, os costumes, aquilo que é da ordem do imaginário, os espíritos e os transes xamânicos. Posteriormente, ela faz algumas séries e uma das mais importantes e que está aqui no arquivo é a série ‘marcados’. Claudia fotografa a vacinação deste povo, onde acompanha alguns médicos de São Paulo, que estão a fazer as primeiras campanhas de vacinação no povo Yanomami. Isto acontece porque eles começam a ter muitas doenças e a vacinação é uma forma de protege-los”, refere a curadora.

Uma questão de sobrevivência

Marta reflete sobre uma frase que a própria artista disse: “Os judeus eram marcados com a estrela de David para morrer. Eu estava a marcar os Yanomami para que eles sobrevivessem”. E menciona que “com esse contacto, Claudia recupera uma memória de infância e que, de certa forma, reinterpreta a nova realidade. Ela utilizou essa experiência traumática e transformou-a numa coisa boa. Claudia encontra nos Yanomami doçura e beleza, e encontrar essa beleza com o passado que ela traz, com uma Europa de terror e de morte, acho que foi muito importante para ela”. “Para além da Claudia artista e fotógrafa, há uma vertente ativista muito importante da Claudia e a partir dos anos 80 a fotógrafa ajuda a fundar a fundação CCPY, a Comissão para a demarcação das terras Yanomami”.

Durante o tempo que Andujar viveu com este povo, Claudia estava completamente integrada. Marta Mestre conta que “no início houve uma necessidade de compreender que corpo era aquele, portanto há essa aproximação. Quando vemos as fotografias, a câmara não é um objeto estranho e aquilo que faz a fotografia da Claudia especial e única é o modo como ela está em perfeito contacto com eles. Ela é apenas mais uma, uma deles. A câmara é um elemento como uma amálgama, uma lança, não é um elemento estranho”.

“Outra particularidade interessante no trabalho de Claudia é que ela levou um caderno de desenho e lápis de colorir, o que foi considerado inédito. O desenho e a caneta de cor são uma expressão muito Ocidental porque lá não existe desenho em cima de papel do modo como nós o fazemos. Ela tem uma coleção que são os ‘desenhos Yanomami’ e que são impressionantes porque o modo como desenham é completamente diferente do modo como nós entendemos o que é o desenho. De certa forma foi uma maneira de comunicar com eles, ela conseguiu criar uma plataforma de comunicação”, disse a curadora.

Fotografar o irreal

Para perceber o contributo de Claudia Andujar para o mundo da fotografia é preciso perceber a sua formação em fotojornalismo e aquilo que ela queria alcançar. “Nos EUA, a fotógrafa tem contacto com a fotografia documental, um registo seco da realidade das pessoas, da casa, da família. Quando vai para São Paulo põe em prática o que aprendeu e apesar desta herança do foto-jornalismo, ela tenta fazer algumas experiências a nível mais autoral”, acrescenta Marta.

“Já na Amazónia, além de fotografar o povo Yanomami como fotojornalista, Andujar quer fotografar o irreal, o mundo dos Xapiripë, os deuses e os sonhos dos Xamãs. Ela começa a querer fotografar o invisível e é nessa tentativa de fotografar o invisível que há um contributo da Claudia Andujar para a fotografia. Ela toma partido das luzes, dos arrastamentos ou, por exemplo, ela leva vaselina e começa a colocar nas lentes da câmara para criar um efeito de desfoque, onde ela ‘dilui’ as personagens no meio da mata. Claudia começa a querer entrar nesse mundo do invisível e começa a misturar os homens com a natureza, a natureza com bichos e os bichos com céu”, conclui a curadora.

A responsável pelas exposições no museu, Sofia Castro, conta que “esta exposição é recebida no âmbito da Capital Ibero-americana de Cultura. Esta exposição é absolutamente incrível porque a artista desenvolveu um trabalho mais autoral e mais contemporâneo. Não se deixa ficar pelo documento, ela tem uma ação interventiva nas próprias fotografias.”

“Há um ativismo realista e pragmático e há um enorme envolvimento de sentido, de harmonia, de continuidade porque ela retoma ao sítio para voltar a estar próxima do que se passa”.

“É uma apresentação de uma autora que tem um currículo gigantesco e que Portugal praticamente desconhece. A escolha das fotografias, que acabou por ser o limite que podíamos concentrar nesta fase, também remete para uma determinada época, por isso, eu gostaria de pensar que podíamos ter aqui o seu trabalho de outras fases. De facto, a arte quando tem uma qualidade extrema é intemporal e tem sempre feedback em cada um de nós, mesmo em situações diferentes da nossa vida e é isso que o arquivo tenta propor”, acrescenta Sofia.

A responsável conclui que “o arquivo quer ter várias leituras relativamente à fotografia e não fechar a tipologia. Queremos ter vários públicos e temos a tarefa de mostrar várias possibilidades no meio da fotografia. Portanto, estamos num patamar de projeção e reflexão. O equipamento cultural não pode fornecer só o que é fácil. É um entretenimento mas com outro caráter e com outro peso”.

“Visão Yanomami” estará em exposição de 11 de fevereiro a 15 de abril, no Arquivo Municipal de Lisboa — fotográfico. De segunda-feira a sábado, das 10h às 19h. A entrada é gratuita.

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.