Conselho Diretivo, Mesa da Assembleia Geral, Conselho Fiscal e Disciplinar. Duas listas, duas listas, duas listas. Conselho Leonino, três listas. Os holofotes da campanha eleitoral do Sporting têm estado quase sempre centrados em Bruno de Carvalho, o atual titular, e Pedro Madeira Rodrigues, o desafiante. E a cada dia que passa há mais críticas, mais acusações, mais desmentidos. Mas nem tudo se centra na luta pela presidência do clube e haverá o sufrágio de um outro órgão, que terá inclusive uma lista independente apenas para essa corrida (lista C). Mas afinal, o que é o Conselho Leonino? E porque é que existe tanta gente a defender a sua extinção?

Para começar a contar a história temos de recuar, pasme-se, 70 anos: em 1947, o Sporting aproveitou a elaboração dos sétimos estatutos do clube para criar o Conselho Geral, um órgão que se definia como “um corpo consultivo destinado a manter as tradições gloriosas do Sporting e a zelar pelo seu prestígio e continuidade dentro do pensamento dos seus fundadores” mas que, basicamente, servia para escolher o presidente do clube e dos restantes cargos. Em 1964, para fechar ainda mais a redoma, aparece o Conselho dos Presidentes, que juntava todos os antigos líderes de Direção, Assembleia Geral e Conselho Fiscal. Ou seja, uns decidiam os “eleitos”, outros ficavam perpetuados como tal. Em 1968, na altura de nova revisão estatutária, ambos foram extintos pelo aparecimento do Conselho Leonino, que mantinha a missão de decidir os presidentes dos órgãos sociais do clube.

Conselho Leonino foi criado em 1968 com a extinção do Conselho Geral e o Conselho dos Presidentes, tendo na altura a missão de decidir os candidatos a sufrágio nos restantes órgãos. Em 2011 houve nove listas a concorrer!

O Conselho Leonino manteve-se até hoje com recuos e avanços sobre os seus direitos e deveres: em 1989, ano de entrada de Sousa Cintra na presidência dos leões, passou a ser um órgão meramente consultivo e com apenas 30 membros; em 1996, entre a gestão de Santana Lopes e José Roquette, voltou a ter mais pessoas e competências sem poder vinculativo. Nos dias que correm, é formado por cerca de 70 pessoas: 50 associados eleitos; presidentes e vices de Conselho Diretivo, Assembleia Geral e Conselho Fiscal; líderes nos mandatos anteriores de Conselho Diretivo, Assembleia Geral e Conselho Fiscal; sócio número 1, neste caso João Salvador Marques; e presidentes de Grupo Stromp, Os Cinquentenários e Leões de Portugal, mais três entidades ligadas ao clube de Alvalade. Ufa! E já foi muito procurado: em 2011 apresentaram-se nove listas ao órgão.

Para que serve o Conselho Leonino?

(Fazemos aqui mais um parágrafo de história para lhe contar que o Sporting teve também um Conselho Técnico, formado por “sócios muito especiais” que riscavam, e muito, sobre as decisões do quotidiano do clube; e uma Comissão do Contencioso e Sindicância, uma espécie de duplicação do Conselho Fiscal. Isso além do Conselho Geral, do Conselho dos Presidentes e do Conselho Leonino)

O Conselho Leonino, mesmo sendo apenas um órgão de carácter consultivo, tem uma série de propósitos enumerados em termos estatutários. Para resumir e facilitar, faz o seguinte: sempre que o clube se prepare para apresentar relatórios e contas, orçamentos ou outros temas de relevo, os mesmos passam e são votados pelo Conselho Leonino. Em paralelo, os conselheiros devem também ajudar e fazer sugestões ao Conselho Diretivo sobre as mais diversas matérias. Isto é o que devia ser. O que é, na verdade, pode ser bem diferente.

Um dos maiores problemas apontados ao órgão passa pela facilidade com que as informações chegam ao exterior. Às vezes, e no limite, ainda a reunião está a decorrer no auditório Artur Agostinho, no estádio José Alvalade, e já é público o seu teor. Ao mesmo tempo, é muito criticada a sua “inutilidade” – se é apenas para saber o que vai ser apresentado em assembleia geral e se, mesmo que seja tudo votado contra, a Direção pode manter o que quiser, para que serve? Aqui entra uma palavra sempre na moda no léxico verde e branco: o “croquete”.

Croquete (francês croquette, substantivo masculino): pessoas que alegadamente só vão para as reuniões aproveitar o buffet à disposição e o convívio que tal repasto proporciona

Bruno de Carvalho e Pedro Madeira Rodrigues até podem admitir que o Conselho Leonino terá de ser reformulado a nível de funcionamento, mas não deixaram de apresentar listas ao órgão. No único debate entre ambos, aliás, o atual líder defendeu “a constituição de uma equipa transversal a várias áreas”, no seguimento do trabalho feito nos últimos quatro anos onde procurou criar grupos de trabalho que ajudassem a Direção em áreas distintas como as modalidades, a parte financeira ou o património. Já o candidato da lista A revelou com orgulho ter como cabeça de lista o filho de Mário Moniz Pereira, figura que pretende imortalizar em termos históricos com a atribuição perpétua do número 2 de sócio.

“Ou encetamos as reformas necessárias ou avançamos para a extinção”

Gonçalo Nascimento Rodrigues, de 42 anos, é o número 1 na lista C ao Conselho Leonino do Sporting. Consultor financeiro, demarca-se das restantes listas ao Conselho Diretivo e quer apenas falar sobre a viabilidade do órgão, algo que apresentou em várias reuniões ao longo da campanha. E entre críticas ao atual funcionamento do Conselho Leonino, admite mesmo a sua extinção.

A lista C surge como única lista independente nas eleições do Sporting, neste caso ao Conselho Leonino. Porque decidiram avançar e quando é que a ideia se tornou realidade?
Decidimos avançar no final de 2016, depois de ponderar muito bem as necessidades de revitalização deste órgão social. Tomámos desde logo a decisão de nos posicionarmos enquanto candidatura independente por acreditarmos que o CL não poderia continuar a ser instrumentalizado por outros órgãos sociais e listas candidatas. A apresentação de listas independentes ao CL não é de agora; no entanto, a nossa lista é a primeira na história do Sporting Clube que se apresenta a votos com um programa específico de revitalização deste órgão. Nunca antes tal coisa tinha acontecido. O CL tem-se revelado inútil, inoperante e ineficiente. Havia que desenvolver um programa que procurasse regenera-lo, dotando-o dos meios necessários que possibilitassem exercer a sua função: ser um órgão consultivo. Daí, as bases do nosso programa: Independência e Transparência.

Um dos pontos que defendem é “terminar o triste espetáculo que se tem visto no Conselho Leonino”. Que triste espetáculo é esse e porque tem sido assim?
O CL tem sido facilmente instrumentalizado por direções passadas, instrumentalizado pela mesa da Assembleia Geral. Tem-se tornado redutora a sua função consultiva e tem sido dotado de meios humanos inadequados ao exercício da função. Adicionalmente, o CL tem sido utilizado para determinadas pessoas eleitas se auto-promoverem, outras para se assumirem como forças de bloqueio e/ou forças de oposição. O carácter consultivo do CL não deve nem pode ser utilizado com estes fins. É a isto que nos referimos, é isto que pretendemos terminar. Ainda recentemente, já em período de campanha, os sócios assistiram a insultos, vindos de ambas as listas candidatas, de futuros conselheiros. Temos de terminar com tudo isto. Temos de criar um novo perfil de conselheiro: responsável, reservado, interventivo internamente, alto defensor dos superiores interesses do Sporting e dos seus sócios.

Que mudanças pretendem implementar no Conselho Leonino? E até que ponto o facto de ser um órgão meramente consultivo retira força à sua ação?
Várias, todas elas em busca de uma maior eficiência no CL. Desde logo, a sua presidência: o CL é presidido, por inerência, pelo presidente da Mesa da Assembleia Geral em exercício. Ora, desde logo, torna-o uma mera antecâmara das assembleias gerais. O CL, enquanto órgão de cariz consultivo, tem de ser muito mais do que isso. Mas para o ser, terá de ter uma presidência e uma orgânica próprias, reunindo e trabalhando de forma independente dos restantes órgãos sociais. Além disso, deverá reunir de forma mais regular, e os seus elementos deverão ter dossiers específicos para trabalhar, com temáticas específicas: finanças, desporto, marketing e comunicação, património, etc. Adicionalmente, o CL terá de ser mais transparente. Deverá comunicar mais e melhor com os sócios para que estes conheçam as suas atividades. Os sócios nem sequer percebem o que faz e para que serve. Aqueles que percebem, desconhecem as suas atividades. Não há comunicação. Há que fazer um esforço de aproximação do CL aos sócios. Por fim, acreditamos que deverá ser substancialmente reduzido. Atualmente conta com 50 membros eleitos, mais alguns por inerência. Isto não é possível. Enquanto órgão de carácter consultivo, tem a força que os estatutos lhe conferem.

Como tem visto a campanha e sobretudo a falta de discussão dos dois candidatos à presidência do clube a propósito do futuro do Conselho Leonino?
Realmente apenas a lista C colocou o CL no centro do debate entre os sócios, já completamente desacreditados em relação a este órgão social. A Lista A não atribui uma linha sequer no seu programa ao CL. É uma desconsideração, mas ao mesmo tempo o espelho nítido daquilo que (não) querem, que é nada! Quanto à Lista B, e após seis anos e dois mandatos com o mesmo cabeça de lista, apresenta-nos uma repetição de ideias assente num paradigma: reforma profunda. Tiveram seis anos para encetar as reformas necessárias. Não o fizeram, por incapacidade e/ou desinteresse. Chegou o momento de se encetar as tais reformas, previstas no programa da lista C e que apenas a Lista C tem condições para o fazer. Daí a necessidade imperiosa da lista C ter a maioria.

Como respondem aos sportinguistas que consideram que o Conselho Leonino, que já teve uma grande relevância no clube, devia simplesmente ser extinto?
A todos os sportinguistas que querem ver o Conselho Leonino extinto só há uma lista em que podem votar no próximo dia 4 de março: a lista C. Somos a única lista que tem de forma clara e objetiva no seu programa esta possibilidade de extinção do CL. Aquilo que prometemos é muito claro: ou conseguimos encetar as reformas necessárias ou seremos os primeiros a apresentar uma proposta aos sócios de extinção. Preferimos encetar processos de transformação internamente, e por isso nos apresentamos a votos. Mas se por qualquer razão não o conseguirmos, avançaremos com uma proposta de extinção.