O lançamento de um The Legend of Zelda é sempre um marco na história dos videojogos. Saber que está um para chegar é como esperar por abrir prendas de Natal. Já aconteceram maus lançamentos como Phantom Hourglass ou Spirit Tracks para a Nintendo DS, que são como meias ou camisolas de lã que agradecemos com um sorriso amarelo, mas foram redimidas com jogos como A Link Between Two Worlds na 3DS.

Apesar dos remakes HD de alguns clássicos, há muitos anos que não tínhamos um Legend of Zelda completamente novo para uma consola de casa (isto pode ser aberto a debate, mas já lá vamos). Convém dizer que analisar este jogo foi uma faca de dois gumes, porque foi muito difícil manter um olhar isento sobre algo de que sou fã incondicional. Cair nos poços e armadilhas do elogio cego foi uma tentação, mas acredito que foi possível ultrapassá-la.

A primeira vez que toquei em Breath of the Wild foi em julho de 2016, quando alguns jornalistas puderam testar o jogo na versão Wii U e, já nessa altura, apesar de ter sido um contacto limitado, fiquei muito impressionado. Já perdi a conta à quantidade de horas que tenho passado com este jogo, mas tal com a Alice no País das Maravilhas, não perdi a vista da entrada da toca do coelho, que está no mínimo a umas 20 horas, é um pontinho de luz algures lá para cima, e o fundo do buraco onde me meti não tem fim à vista, mas continuo a cair por ele com um sorriso nos lábios.

The Legend of Zelda é uma série de jogos com 30 anos que sempre manteve uma fórmula idêntica, mas cada um tem algo novo, uma lufada de ar fresco que renova a franquia. Este tem mais que uma lufada, tem um autêntico vendaval de alterações e inovações, pequenas e grandes que transformam toda a jogabilidade sem perder a sua familiaridade para os fãs mais assíduos da série. Apesar de ser algo em que os veteranos se vão sentir em casa, mesmo com todas as novidades, é perfeitamente acessível a quem nunca jogou.

Como já tinha feito o início do jogo nos testes, quando liguei a Switch pela primeira vez dei o comando imediatamente à minha mulher, que nunca tinha jogado um The Legend of Zelda. No espaço de uma hora passámos de “Como é que eu o faço andar?” e “O que faço com isto” para “Porque não vais fazer o jantar enquanto eu subo esta montanha e faço o que estiver no topo”. Este é apenas um dos melhores pontos de Breath of the Wild, apesar de meter o jogador imediatamente na ação ao fim de dois ou três minutos é perfeitamente adequado para qualquer pessoa pegar nele e, gradualmente, chegar ao final com maior ou menor dificuldade.

Breath of the Wild tem a fórmula tradicional de todos os Legend of Zelda, mas dá-lhe um twist que não vou revelar para não estragar a surpresa. Combinar a história linear destes jogos com o openworld, no qual os jogadores têm a liberdade de fazerem o que querem, foi uma jogada muito arriscada, mas bem aplicada. Nada do que existe neste jogo é totalmente novo ou terá sido criado para ele, o que é inovador é o facto de todas estas características estarem num só mundo e, acima de tudo, tão fluidas, como se sempre tivessem existido como um só elemento, tal como o seu antecessor The Ocarina of Time.

Até agora Breath of the Wild tem sido um exemplo perfeito de construção de mundos virtuais. A narrativa, que podia ser uma amálgama confusa (por permitir ao jogador seguir a ordem que quer na maior parte dos casos), consegue ser coesa e coerente. Um bom autor de ficção, seja em que campo for, vê-se na sua capacidade de world building e na sua capacidade de respeitar as regras que impôs no seu mundo.

Aqui reinam as leis da Física, apesar de ser um mundo de fantasia. Isto torna o jogo um desafio constante, especialmente devido aos pormenores, como as diferenças entre trepar uma rocha ou uma árvore secas ou se as mesmas estiverem molhadas da chuva, ou o calor e o frio, os efeitos de eletricidade serem reduzidos em elementos secos e aumentados pela água, até a maneira como o vento influencia o lançamento de elementos mais leves como flechas, que temos que calcular a parábola do tiro. Como arqueiro que sou, achei que este pormenor é quase tão exímio como a colocação da alijava de Link ser à cintura como se usava historicamente, e não às costas, como fantasiado por Hollywood. É nos detalhes que se vê a perfeição das coisas e Breath of the Wild está cheio deles.

Existem factores novos que podem fazer os jogadores mais antigos franzir o nariz, como o facto de as armas e escudos serem todas perecíveis até agora. Digo “até agora” porque acredito que se encontrar um dia a mítica Master Sword e Hylian Shield, estes não o sejam. Usar ou poupar armas em várias situações é apenas um exemplo de como o mundo aberto gigantesco de Breath of the Wild nos faz pensar e calcular todos os nossos atos.

É um jogo que puxa pelo nosso intelecto e não o insulta, tudo o que encontramos, desde a masmorra mais tenebrosa até como passar o rio mais belo tem mais do que uma solução, e nenhuma está errada. Da mesma maneira, nenhuma está certa, é apenas a nossa solução para aquele problema naquele momento. Vai depender da nossa imaginação e do que temos connosco naquele momento. Ser Link em Breath of the Wild é ser um pouco Macgyver, mas com montes de espadas e machados e bombas em vez de um canivete suíço. A solução mais simples para um problema nem sempre é a mais óbvia, e a mais óbvia nem sempre é simples de concretizar.

The Legend of Zelda: Breath of the Wild vai ser posto à venda esta sexta-feira, 3 de março, estará disponível na Nintendo Wii U para onde foi originalmente criado, mas onde ele está perfeito é na nova Nintendo Switch, consola lançada no mesmo dia.

Apesar de já aqui ter dito que não pretende competir a nível técnico com nenhuma outra consola do mercado, é inegável que a Nintendo Switch é graficamente superior à Wii U, e portanto é nela que se atinge o expoente máximo de qualidade. Joga-se perfeitamente utilizando a consola em modo portátil, mas tirando todo o proveito das suas capacidades dock in/dock out é que vemos a diferença.

Ligado a uma TV com resolução 1080p, e apesar de ter um estilo mais desenhado que realista, a beleza de Breath of the Wild é deslumbrante, várias vezes parei de jogar apenas para apreciar os cenários dos pormenores das roupas ou casas e o alcance máximo do horizonte. Além de que é na TV que Breath of the Wild deixa de ser um jogo individual e passa a ser algo que posso partilhar com a minha mulher, é ela que me acompanha e dá conselhos acerca de o que fazer, é ela que pega no controlo e joga no meu lugar fazendo disto um evento de família. Há um aviso que tenho que dar a todos os que pensam comprar Breath of the Wild: é extremamente fácil deixarem-se perder e passar horas a fazer coisas como caçar, apanhar comida, ou simplesmente passear, porque essa é a liberdade que temos.

Em 1998, The Ocarina of Time revolucionou o mundo dos videojogos, tornou-se um marco de qualidade. Esta sexta-feira, 3 de março, o pequeno Link desse jogo passará o testemunho na forma da Master Sword ao Link de Breath of the Wild, que se não ganhar quase unanimemente o prémio de jogo do ano de 2017, ficará sem dúvida no top 3.

João Machado, Rubber Chicken