A Uber Portugal lança, esta terça-feira, um “programa de benefícios” para motoristas e parceiros, como forma de atenuar as queixas de baixos rendimentos. O anúncio é feito no mesmo dia em que termina a suspensão da inscrição de novos automóveis na plataforma, iniciada em janeiro, como resposta a casos de motoristas que trabalhavam durante 12 a 16 horas por dia, seis dias por semana, a recibos verdes, com vencimentos que rondavam o valor do salário mínimo.

Os benefícios vão permitir que parceiros e motoristas da Uber em Portugal possam “usufruir de descontos e condições especiais em produtos e serviços importantes para as suas operações”, o que lhes vai permitir “potenciar os seus rendimentos”, pode ler-se em comunicado. O programa, chamado Momentum Rewards, permite ver as primeiras parcerias disponíveis, que podem passar por descontos em combustível e em chamadas telefónicas.

A criação dos descontos vem na sequência do estudo realizado pela Audax-ISCTE, onde “mais de 80% dos inquiridos valorizaria ter acesso a descontos e condições especiais em seguros para transporte de passageiros, combustíveis, entre outros produtos e serviços que representam custos nas suas operações”.

Uma das soluções apresentadas por motoristas, empresas parceiras e novas associações do setor, como forma de melhorar as condições de empresas e motoristas, seria a criação de um contingente para as plataformas eletrónicas, tal como existe para o setor do táxi. Isso permitiria regular a oferta e a procura, impedindo que os rendimentos destes profissionais descesse para níveis que podem chegar a ser inferiores ao salário mínimo em época baixa. No entanto, essa questão não parece estar em cima da mesa, uma vez que, na página da empresa, é possível ver que a contratação de novos motoristas foi retomada, ainda que de forma “faseada” (a Uber não emprega motoristas, mas define as tarifas, tem o poder de bloquear a aplicação e de impedir que estes negoceiem diretamente com os passageiros).

Excesso de horas, precariedade, baixos salários. A vida dos motoristas da Uber

Já foi retomado o acesso de novos parceiros e viaturas, o que é muito, muito mau“, confirma João Pica, presidente da Associação Nacional de Parceiros das Plataformas Alternativas de Transportes (ANPPAT). Considera que a iniciativa da Uber é positiva. “Tudo o que seja poupar nos fatores de produção da nossa atividade é sempre bom e isto tendo em conta o forte decréscimo de rentabilidade que a atividade tem vindo a sofrer”, diz. No entanto, lembra que a associação já conseguiu negociar descontos em combustível para associados “que vão de 11 cêntimos a 12,5 por litro“, entre outros benefícios.

“Neste momento a oferta supera a procura e dessa forma é incompatível a inclusão de novos parceiros e novas viaturas”, diz João Pica, que tem uma empresa e dois carros a circular. “Só eu num espaço de dois meses já tive três motoristas. Ainda hoje tive de colocar outro para substituir um que esteve a trabalhar três semanas… E depois saiu pois o rendimento é muito escasso.”

Quem são os motoristas e parceiros Uber? Homens com mais de 35 anos que estavam no desemprego

O estudo da Audax-ISCTE teve por base uma amostra de mais de 800 motoristas e 200 parceiros da Grande Lisboa, Grande Porto e Algarve. Todos os dados foram recolhidos em questionários realizados em janeiro e fevereiro de 2017 de forma “anónima e confidencial”, garante-se.

A amostra permite ter uma ideia de quem são os profissionais que trabalham com a plataforma eletrónica. A esmagadora maioria são homens, representando as mulheres apenas 5%. Um terço tem entre 35 e 44 anos de idade. Da totalidade dos parceiros, 89% também são homens.

51,5% de motoristas estavam desempregados antes de prestar serviços de motorista através da plataforma da Uber. Desses, pelo menos 72% não recebia subsídio de desemprego.

Para 75% dos motoristas, a prestação de serviços de motorista através da Uber é a sua atividade principal, sendo a única atividade para cerca de 70% do total dos motoristas.

Uber. Inscrição de novos carros suspensa até março

No documento, pode ler-se ainda que 16,5% dos motoristas têm hoje uma imagem menos ou muito menos favorável da Uber do que tinham antes de prestar serviços. 22,5% têm uma imagem neutra e os restantes melhoraram a opinião. 74.3% dos utilizadores recomendam ou provavelmente recomendariam a prestação de serviços de motorista através da Uber a um amigo ou familiar.

A Uber chegou a Portugal em julho de 2014 e está presente em Lisboa, Porto e no Algarve. A empresa não divulga quantos motoristas trabalham com a plataforma mas, numa entrevista publicada pelo Observador a 1 de novembro, Rui Bento, diretor-geral da Uber em Portugal, falou em “mais de 2.500”.