A porta-voz do Alto Comissário das Nações Unidas para os refugiados, Melissa Fleming, considerou, esta sexta feira, “irresponsável” qualquer iniciativa política da União Europeia que vise “empurrar de volta para a Líbia” os refugiados que cruzam o Mediterrâneo.

“Empurrar as pessoas de volta para a Líbia, neste momento, é irresponsável. Se ouvirmos os testemunhos sobre o que os refugiados estão a passar na Líbia: Há mulheres a serem violadas, há pessoas detidas, torturadas, sequestradas, extorquidas”, declarou Fleming à agência Lusa.

Em fevereiro, a Itália e o resto dos Estados-membros da UE fizeram um acordo com o governo interino da Líbia – apoiado pelas Nações Unidas – para que as autoridades líbias detenham na origem o fluxo de migrantes que atravessa o Mediterrâneo, colocando-os em centros de detenção.

“É tudo muito bonito, só que os centros de detenção são horrorosos. Tem de haver uma maior monitorização internacional sobre esses centros de detenção. Na verdade, o ACNUR é contra a própria ideia de centros de detenção”, disse a porta-voz do Alto Comissariado nas Nações Unidas para os Refugiados.

Várias vozes críticas têm questionado a eficácia das operações europeias de segurança fronteiriça, como a Frontex ou a Trident, afirmando que, na prática, essas iniciativas apenas fazem com que os traficantes de seres humanos optem por barcos de transporte cada vez mais inseguros.

Melissa Fleming, que trabalha para o ACNUR há oito anos, dos quais sete sob a liderança do português António Guterres, antecipa mais um ano recorde no que toca ao fluxo de migrantes.

“Todos os anos os números [de refugiados] continuam a subir. E não apenas uns quantos milhares. Todos os anos há um novo recorde, e é sempre um aumento na casa dos milhões”, disse a responsável.

“Se as grandes guerras não pararem – a Síria, os conflitos na Somália, no Afeganistão, no Iémen – não veremos um fim para este fluxo de deslocados”, concluiu.

De acordo com os números do ACNUR e da Organização Internacional das Migrações, mais de mil pessoas já morreram este ano a tentar cruzar o Mediterrâneo rumo à Europa.