Os analistas contactados pela Lusa admitem que o desempenho da economia portuguesa no primeiro trimestre pode gerar um maior crescimento anual, mas alertam para riscos que podem fazer abrandar o ritmo da economia no resto do ano.

O Instituto Nacional de Estatísticas (INE) indicou esta segunda-feira que o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 2,8% em termos homólogos, um crescimento trimestral homólogo que não se verificava desde o último trimestre de 2007, e 1% em cadeia.

Este desempenho revelou-se superior às expectativas dos analistas contactados pela Lusa antes da divulgação destes dados, já que apontavam para um crescimento entre 0,7% e 0,9% em cadeia e entre 2,4% e 2,7% em termos homólogos.

O coordenador do Núcleo de Estudos de Conjuntura da Universidade Católica (NECEP), João Borges Assunção, disse à Lusa que, apesar de o crescimento económico do primeiro trimestre ter sido melhor do que o esperado, mantém o ponto central da projeção para este ano nos 2,4%, mas admite que “a força destes dados poderá levar a correções em alta no crescimento de curto prazo do PIB”.

Também o professor António Ascensão Costa, do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), antecipa que o crescimento do primeiro trimestre leve a “revisões em alta” para o conjunto do ano, “até porque o clima económico e o crescimento na zona euro também parecem estar a ser melhores do que o inicialmente antecipado”.

O economista diz mesmo que este crescimento “torna possíveis e mais prováveis valores de crescimento razoavelmente acima dos 2% anuais”.

Por outro lado, Rui Bernardes Serra, analista do Montepio, adverte que estes níveis de crescimento, tanto homólogo como em cadeia, “não se deverão repetir no resto do ano” por se tratar de valores “bem acima do atual crescimento potencial da economia”.

Neste sentido, o economista-chefe do Montepio antecipa que “as exportações deverão regressar a crescimentos mais consistentes com o crescimento económico global e com ligeiros ganhos de quota nos mercados internacionais”, uma “maior moderação” do consumo privado e uma “continuação da recuperação” do investimento, “embora a ritmos trimestrais que não deverão ser tão intensos como nos dois últimos trimestres”.

Ainda assim, Rui Bernardes Serra considera que “há sinais de que a economia portuguesa está a recuperar o seu nível de crescimento potencial” e recorda que nas recessões de 2009 e 2011/2013 “a economia portuguesa perdeu um total acumulado de quase 8% do PIB”, não tendo ainda regressado aos níveis em que estava anteriormente.

Questionados sobre se o crescimento do primeiro trimestre se deve a fatores pontuais, os economistas contactados pela Lusa consideram que pode ter havido efeitos de calendário mas que, de todo o modo, não explicam os resultados.

João Borges Assunção diz que “poderá haver efeitos de calendário pontuais, mas insuficientes para alterarem a leitura qualitativamente positiva dos dados”, ao passo que António Ascensão Costa entende que o crescimento registado “pode estar afetado por efeitos base”, por exemplo um nível de atividade fraco no primeiro trimestre do ano passado comparado com um “nível normal” este ano.

O professor do ISEG entende, no entanto, que estes eventuais efeitos base “não justificam o essencial do crescimento que tem sobretudo a ver com a subida sustentada do nível do consumo privado, com a retoma do investimento e com a melhoria da procura externa (nomeadamente devido ao turismo)”.

Relativamente aos fatores que podem fazer abrandar o crescimento da economia ao longo do ano, os três economistas apontam essencialmente riscos externos, nomeadamente a evolução das políticas monetária e económica dos Estados Unidos da América e também a saída do Reino Unido da União Europeia.

A nível interno, o economista-chefe do Montepio apontou riscos relacionados com “a situação ainda débil do sistema financeiro” e o professor da Universidade Católica identificou a possibilidade de o crescimento estar a ser “suportado na política orçamental do ano passado”, alertando que isso “seria negativo para as perspetivas de médio prazo para a economia portuguesa”.

O Governo espera que a economia portuguesa cresça 1,8% este ano, depois de ter crescido 1,4% em 2016.