O presidente do Banco Central Europeu disse esta segunda-feira em Lisboa que a globalização também trouxe consequências negativos para um grande grupo de pessoas e considerou que a maior fonte de desigualdade é o desemprego.

Num esforço de aproximação da instituição aos mais jovens e ao grande público, Mario Draghi esteve esta segunda-feira no salão nobre do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) para responder diretamente às perguntas dos alunos de economia das quatro principais faculdades de economia de Lisboa – e algumas questões que chegaram do estrangeiro via redes sociais -, na primeira edição da iniciativa ECB Youth Dialogue.

A sessão começou com um momento de silêncio pedido por Mario Draghi em honra das vítimas dos incêndios de Pedrogão Grande, e dedicado às famílias dos quais o presidente do BCE expressou o seu pesar.

Numa tentativa de manter o evento mais informal, Mario Draghi ainda brincou com os alunos dizendo que percebia que esta era uma altura complicada, uma vez que é época de exames, e a certa altura comentou que esperava que “tivessem coisas mais interessantes para falar com os amigos” do que falar sobre o BCE. “Agora vou manter minha palavra e calar-me. Estou a ouvir”.

Mas a primeira pergunta trouxe de volta o mais formal presidente do BCE, quando teve que defender perante uma aluna o porquê de ter avançado com o programa de quantitative easing (estímulos económicos) mais tarde do que a Reserva Federal.

As palavras de Draghi acabaram por fazer mais eco quando começou a falar da desigualdade. Mario Draghi reconheceu que a globalização, apesar de ter trazido muitas coisas boas e ter beneficiado uma parte da população, também gerou uma grande parte de “perdedores”, pessoas que foram afetadas negativamente pelo processo.

O BCE não pode dizer aos governos o que fazer

O presidente do BCE disse mesmo que “a maior fonte de desigualdade é o desemprego” e que, é verdade que os governos têm de fazer reformas para promover maior e melhor crescimento, mas o BCE não pode dizer aos governos o que fazer. O que o BCE pode fazer é cumprir a sua missão, de manter a inflação perto dos 2%.

Mario Draghi elogiou ainda a existência de “um interesse renovado em discutir este tema da desigualdade depois de muitos muitos anos a ignorar o tema”.

Sobre umas questões mais debatidas nesta altura na agenda europeia relativamente à integração na União Europeia e o aprofundamento da União Económica e Monetária, Mario Draghi afirmou que não vê como um problema que as economias dentro da zona euro cresçam a velocidades diferentes, desde que a diferença entre estas não seja tão grande que crie desequilíbrios significativos na economia, tal como aconteceu no passado.

A passagem pelo ISEG foi apenas a primeira das intervenções de Mario Draghi em Portugal. O presidente do BCE seguiu de imediato para Sintra, onde pelas 20h00 começará a falar na quarta edição do Fórum do Banco Central Europeu, dedicado ao investimento e ao crescimento nas economias avançadas.

Ao seu lado na primeira sessão, Mario Draghi terá o convidado estrela desta edição, o antigo governador da Reserva Federal dos Estados Unidos, Ben Bernanke. Bernanke liderou a Reserva Federal durante o período mais grave da crise financeira dos Estados Unidos, e esteve envolvido na decisão de deixar falir o Lehman Brothers, assim como nas soluções encontradas para o Bear Stearns, a AIG e outros casos que abalaram o sistema financeiro norte-americano, com consequências no mundo inteiro.